quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O Vasco é Time da Virada , O Vasco é o Time do Amor !

Música histórica do Vasco embala time contra o Santos

Em 21/09/2016 08:07
Torcida vascaína em São JanuárioTorcida vascaína em São Januário
Foto: Paulo Fernandes/Vasco.com.br
Em cada ocasião na qual o Vasco precisa superar uma situação adversa, a expressão "Time da Virada" é resgatada. A música entoada pelos torcedores cruz-maltino certamente será berrada em São Januário, nesta quarta-feira, às 21h45 (de Brasília), quando o time enfrentar o Santos pela volta das oitavas de final da Copa do Brasil, precisando vencer por 2 a 0 ou diferença mínima de três gols para se classificar. 
O que pouca gente sabe é como surgiu a música. Atual presidente da TOV (Torcida Organizada do Vasco), Jorginho, homônimo do atual treinador, garante que a criação é de um antigo membro do grupo, inspirada no samba da Beija-Flor de 1978. E arrisca lembrar a primeira vez em que fanáticas gargantas cruz-maltinas avisaram que o Vasco é o time da virada, é o time do amor.

- A música é nossa. Foi o Henrique que fez. Mas ele sumiu da torcida, tem mais de 10 anos. Ninguém sabe por onde ele anda. Ele era muito bom nessas músicas, morava em Nova Iguaçu. Foi num jogo contra o Fluminense, que o Vasco virou para 2 a 1 com gol do Bismarck - lembrou o torcedor.

O jogo em questão aconteceu em 29 de maio de 1988. O Vasco perdia para o Fluminense até os 35 minutos do segundo tempo, quando Vivinho e Bismarck garantiram a vitória e o título da Taça Rio - em seguida, o Cruz-Maltino conquistaria o Campeonato Carioca em cima do Flamengo.

Entretanto, o Vasco carregava a fama de especialista em viradas desde muito tempo. Em 1975, uma sequência de resultados conquistados desta maneira fez surgir a expressão "Vascão Vira-Vira". Faltava a trilha sonora. 
O refrão imortalizado de Neguinho

A inspiração veio de um samba da Beija-Flor. Em 1978, a escola de Nilópolis conquistou seu terceiro título do Carnaval com "A criação do mundo na tradição nagô". A música, na verdade, foi a junção de duas versões concorrentes. De um lado, ficou a letra de Gilson e Mazinho; do outro, que seria adaptado pela torcida vascaíno, o refrão composto por Neguinho da Beija-Flor.

- Neste ano eu nem ia fazer samba. Minha irmã de criação, chamada Dilsa, falou pra eu fazer. Tinha baile para eu ir em Mesquita, ela insistiu, me deu caneta, papel. Comecei meia-noite, terminei 6h. Tirei um cochilo, gravei no gravador só a voz e entreguei. No dia seguinte 9h, dei a fita cassete para o Joãozinho (Trinta, carnavalesco). O samba chegou na final e juntou com o do Gilson e do Mazinho - contou Neguinho. 
O refrão imortalizado de Neguinho

A inspiração veio de um samba da Beija-Flor. Em 1978, a escola de Nilópolis conquistou seu terceiro título do Carnaval com "A criação do mundo na tradição nagô". A música, na verdade, foi a junção de duas versões concorrentes. De um lado, ficou a letra de Gilson e Mazinho; do outro, que seria adaptado pela torcida vascaíno, o refrão composto por Neguinho da Beija-Flor.

- Neste ano eu nem ia fazer samba. Minha irmã de criação, chamada Dilsa, falou pra eu fazer. Tinha baile para eu ir em Mesquita, ela insistiu, me deu caneta, papel. Comecei meia-noite, terminei 6h. Tirei um cochilo, gravei no gravador só a voz e entreguei. No dia seguinte 9h, dei a fita cassete para o Joãozinho (Trinta, carnavalesco). O samba chegou na final e juntou com o do Gilson e do Mazinho - contou Neguinho. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

4 mitos sobre o governo Lula nos quais você sempre acreditou


4 mitos sobre o governo Lula nos quais você sempre acreditou

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Da sala de interrogatório da Polícia Federal em Congonhas ao palanque na Avenida Paulista, a versão oficial de Lula para estar entre os investigados na maior operação de combate à corrupção da história brasileira não muda uma vírgula. Segundo ela, o ex-presidente e seu partido seriam vítimas de uma perseguição seletiva (apesar da operação envolver 117 presos e 50 políticos investigados de 6 diferentes partidos), destinada a acabar com o PT e prendê-lo. O motivo? Para Lula, trata-se de uma vingança por seu mandato ter tirado 36 milhões de pessoas da pobreza extrema e permitido aos mais pobres viajar de avião. Só há um problema com essa versão: ela é falsa, do começo ao fim.
O comentário de Lula soa como um escárnio em meio a uma crise que todos os dias leva 17 mil brasileiros à extrema pobreza, e que ao final, terá reduzido dez milhões de pessoas a esta condição. Afinal, ainda que fosse verdade que o ex-presidente tivesse garantido a ascensão social de milhões de brasileiros, não teriam eles motivos de reclamar, agora que a política de Dilma coloca o país em uma situação onde teremos zero por cento de crescimento na renda entre 2010 e 2020? Ter gerado algo positivo no passado torna Lula ou Dilma imunes a críticas? E ainda, se a ascensão social dos brasileiros entre os anos 2002 e 2010 deveu-se a Lula e suas políticas, por que elas deram tão errado com Dilma? 
Como explicou o ex-presidente em seu depoimento à Polícia Federal, seu instituto existe para espalhar suas políticas para outros países – daí a importância das dezenas de milhões por ele arrecadado. Afinal, como Lula espera ter algo a ensinar aos outros presidentes quando ele mesmo foi incapaz de ensinar algo à sua sucessora?
A resposta para todas estas perguntas provavelmente é mais simples do que você imagina: o crescimento da economia brasileira sob o governo Lula é muito mais circunstancial do que ação de um líder ou um partido. O fracasso do governo Dilma em replicar o crescimento testemunhado no período ocorre pois não há receita original, uma vez que este crescimento não foi originado pelo presidente Lula e sua equipe.
Aqui, preparamos uma lista com esse e outros mitos que você sempre acreditou a respeito do seu governo.

1. O mito dos 36 milhões de miseráveis a menos.

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Foi em 2012 que o governo, por meio da Secretaria de Assuntos Estratégicos, teve aquela que seria a mais conhecida pérola dos milagres alegadamente realizados por Lula: a de ter tirado 36 milhões de pessoas da pobreza. De acordo com a SAE, e um estudo do IPEA, a classe média brasileira possui renda entre R$ 291 e R$ 1.019. Com este critério, mais da metade dos brasileiros passaram a ser considerados classe média pelo governo.
O número mágico, porém, tem uma explicação ainda mais esdrúxula. Em 2012, 36 milhões de pessoas eram beneficiárias totais do Bolsa Família e outros programas sociais. Para o governo, portanto, se estes 36 milhões não tivessem como receber os benefícios, seriam pobres ou extremamente pobres.
Em seu depoimento à Polícia Federal, Lula reafirmou o número. Espantado, o delegado questionou. 
“Então, o senhor está dizendo que antes do seu governo, 1 em cada 4 brasileiros era miserável?”
Lula concordou.
Para o IPEA, porém, o número não passa de uma fantasia. Em 2002 havia no Brasil 14,9 milhões de miseráveis, e em 2012, 6,5 milhões. Uma queda, portanto, de 8,4 milhões. Para o mesmo IPEA, em 1992 havia 19,1 milhões. A queda na pobreza, portanto, acelerou-se no governo Lula, puxada pela economia – mas não há de fato nada que indique um milagre ou alguma excepcionalidade na ação do ex-presidente.
Os números do IPEA, órgão ligado ao próprio Palácio do Planalto, não deixam dúvida – o governo inflou o número.

2. O mito do “crescimento”.

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“Brasil, Um País do futuro” é o título do livro de Stefan Zweig que faz a cabeça dos nacionalistas brasileiros. A ideia de que o Brasil é uma nação destinada a destacar-se mundialmente sempre foi muito tentadora – e o crescimento de 11.000% da nossa economia ao longo do século vinte parecia tornar isso mera questão de tempo. Apesar de todo este crescimento, porém, ainda convivemos durante todo este período com uma característica marcante: o rentismo.
Historicamente, obter favores do governo sempre foi mais conveniente do que empreender no Brasil – e viver às custas da ineficiência do governo, mais conveniente ainda. Nenhum setor entendeu isto tão bem quanto o financeiro. Até 1994, quando o Plano Real resolveu a questão da hiperinflação no país, a inflação era responsável por gerar mais de 2/3 das receitas do setor bancário brasileiro e um lucro estimado em 2% do PIB pelos economistas Simonsen e Cysne, no chamado “imposto inflacionário”. Atualmente, este valor equivaleria a R$ 123 bilhões em lucro caso não fosse extinto pelo Plano Real. Dezenas de bilhões em lucro sem produzir nenhum bem ou serviço.
Acabar com a inflação foi, portanto, um passo fundamental para obrigar que os bancos atuassem como devem, fornecendo crédito e serviços. Em 2002, oito anos após o plano Real, a receita era mais do que inversa: cerca de 95% do faturamento do setor se devia a serviços ou empréstimos. Com as finanças públicas e os próprios bancos saneados, o setor bancário estava próximo para o próximo passo – a explosão de crédito.
Nenhum governo se beneficiou tanto deste período de crescimento do crédito quanto o governo Lula, e exceto por uma simplificação burocrática no crédito imobiliário (criada pelo economista liberal Marcos Lisboa quando ainda estava no governo), a participação de Lula para destravar o crédito no Brasil é nula, ou muito próxima disso.
O crescimento do crédito é em boa parte o responsável pela sensação de riqueza que tomou conta do país. Poder financiar bens de consumo em 12 ou 24 vezes, algo que era inimaginável nos anos 80 ou 90, tornou-se comum, fazendo com que, apesar do pouco aumento na renda (cerca de 48% na média em 8 anos), a população estivesse consumindo muito mais do que antes.
Fatores externos como o aumento médio de 723% nos preços de commodities (aqueles bens negociados mundialmente como café, soja, minério de ferro, etc), colaboraram também para irrigar o país com recursos externos. Somados ao investimento estrangeiro no país, a década de 2000 significou a entrada de US$ 183 bilhões no país – recursos com os quais o governo bancou inúmeros bens e serviços.  
O natural esgotamento da capacidade das famílias brasileiras de se endividar foi um dos principais responsáveis para que o governo levasse os bancos públicos a ampliar a oferta de crédito. Receosos de que as famílias não mais iriam ter condições ou interesse em ampliar seu endividamento, os bancos privados pisaram no freio, mas o governo insistiu na fórmula. Em 2013, cerca de 51% do crédito no país teve a mesma origem: os bancos públicos. Como resultado, famílias, governo e empresas encontram-se hoje endividados e sem condições de consumir ou produzir, diante da incerteza do governo.
Em que pese, o crescimento do Brasil sob o governo Lula em momento algum pode ser considerado um milagre. Como em outros períodos da história brasileira, o país cresceuexatamente o mesmo que a economia mundial, e foi o segundo país que menos cresceu no continente, à frente apenas do México.

3. O mito dos programas sociais.

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Administrando um orçamento que saiu de R$ 513 bilhões em 2003 para R$ 1,16 trilhão em 2010, o ex-presidente Lula certamente teve todas as condições possíveis para ampliar investimentos sociais como aqueles determinados pela constituição de 1988.
Não bastou para Lula porém vangloriar-se do que fez e de onde gastou os recursos que tinha. Sem discutir a eficiência do gasto, uma vez que a educação brasileira ou o sistema de saúde brasileiro (que segundo o próprio, beirava a perfeição) não tiveram melhora relativa em relação aos demais países mundiais (como aqueles pesquisados pelo PISA), o ex-presidente alega ter feito muito além do que a própria história mostra como verdade.
Para Lula, sua gestão criou 16 universidades. Uma breve pesquisa revela que se tratam na realidade de seis, ou quatro se você não considerar que alterar o nome de “Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas” para “Universidade Federal de Alfenas” não é de fato criar uma universidade (sim, Lula alega ter criado uma universidade aí, onde desde 1914 existia uma outra instituição já estabelecida).
Prática comum de políticos brasileiros, alterar o nome de programas para tratá-los como novos ou seus, tornou-se regra durante sua gestão. Atribuir para si programas de décadas de existência, como o FIES, também virou lei. Substituir nomes como o ‘Luz no campo’ (criado em 2000) para “Luz para todos” (que Lula alegou em um programa eleitoral de 2010 ter sido uma ideia genial apresentada por Dilma), virou praxe. Alterar ou reagrupar programas sociais como o Bolsa Família, que substitui inúmeros outros programas anteriores, foi a sacada da reengenharia criada pelo mito Lula.
Uma breve análise dos programas sociais de Lula – incluindo aí o “Bolsa Empresário”, que distribui R$ 36 bilhões em subsídios para as mil maiores empresas do país, via BDNES – mostra que os maiores sucessos encontram-se exatamente onde o governo não é responsável por nada além de repassar a verba. Enquanto as universidades federais tiveram queda no número de formandos (entre 2008 e 2013), nas universidades privadas o número explodiu. Enquanto o Bolsa Família foi um sucesso, o Fome Zero foi um fracasso retumbante.
Em resumo, Lula acertou onde não fez nada além de repassar os recursos (Bolsa Família, Prouni, Fies, Minha Casa Minha Vida), e colecionou fracassos onde a gestão (sob responsabilidade da gerente Dilma Rousseff), era requerida, como nos três Programas de Aceleração do Crescimento.

4. O mito da queda na desigualdade.

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Fazer o pobre andar de avião é motivo suficiente para causar revolta na classe média, segundo Lula e seus seguidores. A concepção é absurda, mas não tanto quanto a ideia geral de que o sucesso obtido pelos brasileiros em ampliar sua renda ou consumo deva ser considerado mérito direto do governo. Se uma pessoa acessa a universidade, se esforça para passar no vestibular e concluir o curso, o mérito deveria ser da própria pessoa ou do presidente em questão? A pergunta parece sem sentido, mas as coisas tendem a ficar mais absurdas ainda quando vemos o real peso do governo em diminuir a desigualdade no país.
Segundo um estudo do IPEA, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, órgão do governo, a queda na desigualdade brasileira, iniciada em 2001, possui como principal causa, não a ação direta de programas sociais, mas o acesso ao mercado de trabalho. Para pesquisadores como Ricardo Paes de Barros, o acesso ao emprego explica mais da metade da queda no índice de Gini, que atesta a desigualdade de um país. Programas sociais foram responsáveis por menos de 1/5 na queda. E se você ainda tem alguma dúvida sobre a veracidade da afirmação de Lula de que criou 10 milhões de empregos, é recomendável que volte ao ponto 2.
Para outro estudo do Ipea, a ação do governo é diretamente responsável por 1/3 da desigualdade de renda no país. Apenas dois indicadores, a aposentadoria e os salários dos funcionários públicos, são responsáveis por todo este peso (ainda seria possível incluir o acesso desigual às universidades públicas, onde 59% dos alunos estão entre os 20% mais ricos da população, ou os subsídios estatais via BNDES). Neste sentido, as ações do governo em nada contribuíram para resolver o problema.
Na parte que efetivamente cabe ao governo atuar, Lula nada fez para alterar o quadro de desigualdade – pelo contrário, continuou fornecendo favores a empresários, e com o que sobrou, garantiu o pagamento do Bolsa Família, programa originalmente criticado por economistas do PT, como Maria da Conceição Tavares (e pelo próprio Lula). O caráter privatizante do Bolsa Família (uma vez que apenas entrega o dinheiro, não entrega comida ou serviços estatais) jamais foi bem visto por Lula e seus conselheiros econômicos até a ideia arrebatar milhões de votos.
Toda a queda na desigualdade, porém, está ameaçada agora – uma vez que a recessão joga de volta à pobreza milhões de brasileiros, destrói empregos e gera estagnação na renda, além da perda do poder de compra com a inflação.
Não há dúvida de que a década de 2000 tenha representado um período positivo para a economia brasileira. Apesar de não resolvermos os problemas relativos à nossa produtividade, que foi mascarada pela política de aumento do salário mínimo (que subiu três vezes mais do que a renda média, o que na prática significa dizer que quem ganhava 3 salários mínimos em 2002 passou a ganhar 1 em 2010), a economia brasileira cresceu menos que as demais no continente – mas se desenvolveu, mostrando como, ainda que seja pouco e não tenhamos nos preparado, um pequeno choque externo é capaz de animar nossa economia e dar novos ares a milhões de brasileiros, antes excluídos do mercado de consumo.
Tudo isso, no entanto, como a atual década perdida não deixa dúvida, apesar do PT.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Como a esquerda atrapalha os mais pobres ao lutar contra a desigualdade da maneira errada


Como a esquerda atrapalha os mais pobres ao lutar contra a desigualdade da maneira errada

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Imagine um lugar em que todo mundo é pobre. 75% das pessoas vivem com menos de um dólar por dia. O cenário é o pior possível. E você, por um instante, é parte disso.
Da sua renda mensal, nada sobra. Você gasta exatos 4% do que ganha em luz e sabão, 5% se protegendo do frio ou do calor, 6% na manutenção da sua moradia, 10% em roupas e forragem e 75% em alimentos. E acabou. Isso é tudo que a vida tem a oferecer. Sem restaurantes no final de semana. Sem video games no final de semana. Sem shopping centers no final de semana. Sem final de semana.
Sua existência é um verdadeiro martírio. Sua expectativa de vida é metade da atual. Você vive doente, mas não há remédios. A dor de dente é companhia diária. Com muita sorte, seu filho conseguirá sobreviver aos primeiros cinco anos. Todas as pessoas que você conhece são analfabetas. Ninguém próximo de onde você mora jamais teve a oportunidade de viajar para outro país.

Você deve estar pensando que estou falando de algum povoado remoto na África subsaariana, certo? Se enganou. Encare o quadro geral. Diminua o zoom. Estou falando de um outro cantão do universo, consideravelmente maior: esse era o planeta Terra há míseros dois séculos. Sim, essa mesma bolotona azul espacial em que você vive agora, acessando esse website, através de uma rede na internet, através de um celular ou de um computador.
E não pense que essa era uma condição especial da nossa trajetória. Esse cenário de pobreza extrema durou cinquenta mil anos nesse lugar, desde que o Homo sapiens passou a andar por aí. Essa era a regra. E então, aconteceu um milagre. Alguns países, por uma série de razões que não cabem num texto como esse – que vão desde a chegada da batata à Europa à descoberta do carvão, passando por inúmeros conflitos e revoluções – começaram a investir em determinadas instituições políticas e econômicas. O mundo nunca mais foi o mesmo.

Em dólares internacionais de 1990. Angus Maddison Project.
PIB per capita mundial, em dólares internacionais de 1990. Angus Maddison Project.

E eu sei que esse pode ser aquele momento do texto em que você se perde em meio a palavras burocráticas e preciosismos teóricos, após um gráfico econômico isolado qualquer, viajando no mundo paralelo dos leitores desatentos. Mas é aqui que reside o segredo de todo mistério, o que ajuda a explicar por que a barrinha azul do gráfico acima subiu em disparada depois de 1800 – e por que, afinal, você está agora muito bem alimentado lendo esse texto.
Se nós pudéssemos transformar numa receita de bolo o que permitiu que a espécie humana dobrasse sua expectativa de vida e multiplicasse por nove sua renda per capita nos últimos duzentos anos, não teríamos como escapar dos seguintes ingredientes:
  • direitos firmes de propriedade privada;
  • liberdade de comercializar e financiar basicamente qualquer coisa (incluindo aqui os modernos mercados de capitais);
  • isonomia (que é a ideia que ninguém deve ser tratado diferente perante a lei, especialmente os governantes)
  • e liberdade de examinar e interpretar o mundo através do método científico, sem medo de ser condenado à execução por conta disso (por motivos religiosos ou políticos).
Em resumo, você bate num liquidificador um punhado de liberdade de mercado e de associação. Coloca o resultado disso numa forma com rule of law. Tempera com liberdade de imprensa e de expressão. E põe pra assar num forno com um controle das atribuições dos governantes. E então, bingo, é só questão de tempo pra barrinha azul subir no gráfico.
Há duzentos anos, quando isso foi colocado em teste em alguns países pela primeira vez, os resultados pareciam inevitáveis. Um mercado de livros nasceu. O analfabetismo foi combatido. As barreiras ao acesso ao conhecimento foram ultrapassadas. E uma revolução industrial foi permitida, aumentando consideravelmente a produtividade mundial e o acesso aos bens e serviços.
Desde então, países que passaram a replicar essa fórmula, investindo nessas instituições, se desenvolveram (mesmo lugares ainda pobres no século vinte, como Hong Kong, Singapura, Botswana e Chile). Outros tantos, condenados à barbaridade de seus déspotas e à mentalidade burocrática, sem experimentar essas revoluções institucionais na sua plenitude (como o Brasil, onde quase metade das propriedades privadas ainda não são regularizadas; a maior parte delas nas periferias), foram naturalmente deixados para trás nessa corrida.
E é aqui que nasce o debate mais importante de nosso tempo. E sem ele, qualquer discussão entre “esquerda” e “direita” não faz o menor sentido.
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Não existe um mundo com padrões institucionais homogêneos. A desigualdade entre os países não é uma mágica de exclusão do capitalismo, é consequência de taxas diferenciadas de crescimento no passado. Parece óbvio dizer isso, mas os países não são pobres por azar do destino. Os países são pobres porque cresceram pouco ou não cresceram por um longo período de tempo. E aqui não tem mistério. Esqueça os revanchismos baratos dos discursos políticos travestidos de análises históricas. Países que alimentam boas instituições econômicas tendem a enriquecer, enquanto países que as rejeitam tendem a permanecer onde estão.
Há pobreza em todos os cantos do mundo, é verdade – mas há estatisticamente muito menos nos países que alimentam essas instituições. E é por isso que a luta contra a desigualdade pode parecer adorável, altruísta e desejável – e muitas vezes é – mas encarna o papel de vilã para os mais pobres sempre que passa a combater as instituições que permitem o desenvolvimento deles – e não faltam partidos políticos, especialmente os de esquerda, que escolhem seguir por esse caminho, alcançando péssimos resultados econômicos com os mais altruístas discursos políticos.
Pare e pense: o que importa, afinal? Permitir com que os mais pobres se desenvolvam, com acesso aos bens  e serviços, independente de como estejam os mais ricos ou lutar por uma igualdade absoluta?
Se você escolheu a segunda opção, pense novamente. Igualdade absoluta também pode ser um critério torto. E isso fica evidente quando analisamos os países através doCoeficiente de Gini. Você já parou pra dar uma olhada nas suas particularidades? Nele, Singapura é mais desigual que o Sudão do Sul. Israel é mais desigual que o Camboja. O Japão é mais desigual que a Tanzânia. A Nova Zelândia é mais desigual que a Etiópia. A Espanha é mais desigual que o Nepal. O Reino Unido é mais desigual que Bangladesh. O Canadá é mais desigual que o Timor Leste. A Austrália é mais desigual que o Kosovo. A Coreia do Sul é mais desigual que o Paquistão. A Suíça é mais desigual que a Ucrânia.
E tudo isso é muito simples de explicar: alguns desses países são mais igualitários na pobreza do que outros na riqueza. Mas isso não torna eles melhores. Pelo contrário. Não é uma coincidência, aliás, que tanta gente migre em direção a algumas das nações consideradas mais ricas e desiguais do planeta – e você provavelmente é um desses, caso sonhe em sair do país. Para os mais pobres, em geral, não importa o que o vizinho tem no seu prato, contanto que ele tenha algo a comer também.
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Sei que pode soar desumano dizer esse tipo de coisa, mas desigualdade nem sempre é um negócio ruim. Quer dizer, não é algo bacana ver um cara engravatado passando apressado por uma calçada pisando num mendigo, como ilustra a nossa noção maniqueísta de desigualdade. Mas o fato é que até ela pode ter o seu lado positivo.
Pense por exemplo num cara como Steve Jobs. É absolutamente natural que empreendedores como ele tenham adquirido uma fortuna em vida muito maior que a média dos trabalhadores norte americanos, não é mesmo? Jobs, afinal, é o criador da Apple. Sua empresa é fruto da genialidade e gera bons incentivos, inovação e riqueza a todos que estão ao seu redor. E quando digo isso não estou me referindo apenas aos seus funcionários. Quando não premiamos caras como Jobs, cortamos os incentivos para a inovação, que é a base da destruição criadora e da riqueza das nações. A gente retira um dos ingredientes mais importantes do nosso bolo.
Ao final do dia, cortar a possibilidade de caras como Jobs ficarem milionários é algo ruim pra todo mundo. E o passado tem muito a nos ensinar sobre isso.
No último século nós criamos um experimento econômico em laboratório a céu aberto. Nós dividimos no meio dois países com a mesma história, a mesma composição étnica e a mesma cultura. Um desses lugares já era desenvolvido antes dessa divisão. O outro não. E a propaganda desse carro aqui embaixo tem muito a nos dizer sobre o resultado final dessa experiência.
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Em cada um desses países, de um lado arrancamos completamente os incentivos à competição. Do outro apostamos nas instituições de mercado. Em dois deles, na parte capitalista da Alemanha e da Coreia, nós vimos automóveis da Mercedes Benz e da Hyundai estacionados nas garagens de seus habitantes. Do lado socialista de cada um deles, a situação era radicalmente oposta: os alemães eram carregados em verdadeiras carroças de plástico como o Trabant e os norte coreanos conquistavam o ingrato posto de população com a menor frota de automóveis do planeta.
O que isso tudo quer dizer? Que incentivos importam. Quando a gente retira a possibilidade das pessoas enriquecerem competindo, todo mundo fica mais pobre no final da história. E se a gente permite, algumas pessoas ficarão naturalmente mais ricas. Não tem como escapar.
E isso não significa dizer que toda desigualdade é boa. Nem todo mundo que tem grana é Steve Jobs, afinal. Quando as pessoas enriquecem por outras razões que não o valor que elas geram à sociedade, nós acabamos criando uma rede de incentivos ruins. E todo mundo paga a conta no final. É o que tanto ocorre em países em desenvolvimento como o nosso.
O problema é que boa parte dessa forma de desigualdade é fruto de um processo artificial, criado graças à nossa noção recorrente que o governo deve organizar a economia e escolher seus vencedores. E isso cria um dilema num país pobre como o nosso, onde essa luta parece fazer mais sentido: sem boas instituições políticas e econômicas – o que explica a nossa pobreza, afinal – o governo não apenas não consegue combater a desigualdade de modo eficaz, como não raramente a estimula, impulsionado por seus próprios vícios.
Pegue a lista das dez famílias mais ricas do Brasil, por exemplo. Quantas enriqueceram em seus setores de atuação graças à proteção estatal? A família Marinho (da Rede Globo) está na dianteira, justificando sua posição graças a uma concessão cedida pelo Estado – e historicamente está ligada a grupos de pressão que inibem concorrência na tv aberta e fechada, além do setor de on demand.
Mas ela não é a única. As famílias Safra (de Joseph Safra, o banqueiro mais rico do mundo), Moreira Salles (do Unibanco), Villela (da Itaúsa) e Aguiar (do Bradesco) controlam os maiores bancos do país, e atuam num setor com muita proteção estatal (nunca é demais lembrar que 53% do setor financeiro nacional é de propriedade do governo). A família Camargo (da Camargo Correia) e Odebrecht vivem de operar concessões públicas e não raramente estão envolvidas em escândalos de corrupção estatal. A família Batista (da holding J&F, que controla empresas como a JBS) cresceu como uma campeã nacional das últimas administrações federais (o governo detém 1/3 dela). E a família Maggi (uma das maiores produtoras de soja do mundo) é ligada à política (Blairo Maggi é o atual Ministro da Agricultura).
Quanto desse enriquecimento injustificado é feito por livre concorrência? Qual é a parte do mercado nisso? Nas abstrações cotidianas, nos parece difícil separar uma coisa da outra. Em geral, tratamos tudo como simples e mero capitalismo – quando ele é estruturalmente construído por instituições, e é a montagem dessas instituições que permitem ou não o seu sucesso.
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Mesmo países constantemente citados como exemplos de sucesso em seus combates à desigualdade, como os nórdicos, só conseguem alcançar esse cenário porque alimentam instituições de mercado. Segundo o Banco Mundial, a Finlândia é o décimo melhor lugar do mundo no quesito facilidade de se fazer negócios (que analisa, entre outras coisas, o quão fácil é abrir uma empresa, obter o alvará de construção, registrar uma propriedade e o custo dos impostos para manter o negócio funcionando). E a terra de Mika Häkkinen não é a única. Na mesma lista, a Noruega ocupa o nono lugar. A Suécia é o oitavo. A Dinamarca é o terceiro. O Brasil está na posição 123.
Segundo outro estudo, que analisa os países que mais respeitam os direitos de propriedade em todo mundo, os nórdicos também não se saem mal. A Finlândia aparece em primeiro lugar. A Noruega é o quarto. A Suécia é o oitavo. A Dinamarca é o décimo segundo. O Brasil ocupa a posição 64.
Por aqui, no entanto, com frequência encaramos as políticas públicas dos nórdicos como exemplo a ser seguido, ignorando suas instituições econômicas – que, não por acaso, tornam essas políticas públicas possíveis. Ao apostar, porém, numa cultura anti-mercado, que ignora os efeitos que direitos de propriedade bem construídos têm no desenvolvimento de um país, concedendo inúmeros poderes para que a política centralize nossas decisões econômicas, criando um cenário de quase anarquia para os governantes e de profunda burocracia para os pagadores de impostos, não raramente fingimos combater a desigualdade com rasos discursos populistas enquanto aumentamos o valor do ingresso de admissão dos mais pobres na ceia do desenvolvimento econômico.
Como dizia Roberto Campos, “a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor”.