segunda-feira, 27 de março de 2017

Um conto de duas grandes depressões

Um conto de duas grandes depressões

Warren G. Harding passou todo o seu mandato fazendo exatamente aquilo que um presidente deve fazer em tempo integral: divertir-se ao invés de regular a economia
Na recente conferência anual realizada pelos conservadores americanos (a CPAC - Conservative Political Action Conference - na qual comparecem ativistas conservadores, libertários e representantes eleitos de todo os EUA), o vencedor da eleição simulada para quem deveria ser o próximo candidato a presidente foi o congressista Ron Paul, seguido por Mitt Romney e Sarah Palin.
Uma das mais conhecidas posições de Ron Paul é sua defesa do retorno dos EUA ao padrão-ouro.  David Frum - um conservador membro do American Enterprise Institute e quem escrevia os discursos de George W. Bush - reagiu, responsabilizando o padrão-ouro pela Grande Depressão.
"Ameaçado pelo esgotamento de seu suprimento de ouro", disse Frum, "o governo sentiu que não tinha escolha: ele tinha de acabar com seu déficit orçamentário.  Assim, no limiar de uma severa contração econômica, o governo americano fez exatamente o oposto daquilo que os economistas recomendariam: cortou os gastos e aumentou os impostos - jogando a economia para uma depressão ainda maior."
Porém, como mostra a tabela abaixo, essa versão da história da Grande Depressão é totalmente fictícia.

Durante cada ano da administração Hoover, de 1929 a 1932, os gastos federais aumentaram.
Já em 1932, os gastos nominais haviam subido 50% desde 1929.  Mensurados em termos do poder de compra, os gastos praticamente dobraram.  E quando mensurados em termos da renda nacional, os gastos triplicaram.
Se um padrão-ouro impossibilita que haja aumento dos gastos do governo em resposta a uma recessão econômica - como afirmou Frum -, Herbert Hoover deu um exemplo prático de que é perfeitamente possível ocorrer o contrário.  E se um estímulo fiscal é a solução para o alto desemprego, então a Grande Depressão deveria ter terminado antes de ter começado. 
Isso gera uma pergunta óbvia: o que teria acontecido se Hoover tivesse feito exatamente aquilo que a lenda diz que ele fez - isto é, cortado gastos?  Para uma possível resposta, é válido dar uma olhada no que aconteceu uma década atrás, em uma outra Grande Depressão.
De 1920 a 1921, a taxa de desemprego aumentou 6,5 pontos percentuais e os preços caíram mais de 10%.  Vistos sem o benefício da retrospectiva, tais ocorrências obviamente prenunciavam o início de uma depressão.  Comparando-se o aumento no desemprego e a queda nos preços do período 1920-1921 aos números praticamente idênticos de 1930-1931, seria uma aposta certa imaginar que haveria uma Grande Depressão no início da década de 1920.
Mas o presidente Warren G. Harding agiu exatamente como imaginam (erroneamente) que Hoover tenha agido.  Já em 1923, os gastos federais haviam sido reduzidos para a metade do que foram em 1920.  A tabela mostra o resultado.  A taxa de desemprego, que havia atingido uma média de 11,7% em 1921, caiu já em 1923 para 2,4%.  Apenas um ano de desemprego alto ao invés dos 11 anos sob Hoover e depois sob Roosevelt.
Foi a Grande Depressão que nunca houve.
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Veja também:

1920 - a última depressão na qual um governo não se intrometeu foi também a mais rápida

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É um clichê dizer que, se não estudarmos o passado, estamos condenados a repeti-lo.  Algo praticamente infalível, também, é o fato de que, se há lições a serem aprendidas de um episódio histórico, a classe política irá sempre se ater às erradas - e deliberadamente.
Longe de verem o passado como uma potencial fonte de sabedoria e discernimento, os regimes políticos têm o hábito de utilizar a história como uma arma ideológica, que deve ser distorcida e manipulada sempre a serviço das ambições do presente.  Foi isso o que Winston Churchill tinha em mente quando descreveu a história da União Soviética como "imprevisível".
Por essa razão, não é nenhuma surpresa que os líderes políticos tenham feito um uso tão transparentemente ideológico do passado na esteira da crise financeira que atingiu o mundo em 2008.  De acordo com a sabedoria convencional, que é incessantemente repetida, a temida Grande Depressão americana da década de 1930 foi o resultado de um excesso de capitalismo, e somente as sábias intervenções políticos progressistas da época foram capazes de restaurar a prosperidade.
Muitos daqueles que reconhecem que os programas do New Deal não tiveram êxito em retirar os EUA da depressão não hesitam, todavia, em sugerir que o que realmente acabou com a depressão foram os maciços gastos governamentais ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial.[1]  (Mesmo alguns autoproclamados livre-mercadistas incorrem nessa última alegação, atitude essa que equivale a apoiar todo o argumento teórico feito pelos defensores dos pacotes de estímulos fiscais).
A conexão entre essa versão da história e os eventos atuais é óbvia: mais uma vez alega-se que o capitalismo desregulado criou uma apavorante bagunça, e mais uma vez alega-se que somente uma combinação de estímulos fiscais e monetários pode salvar o mundo.
A fim de fazer com que essa versão dos eventos se sustente, pouca ou quase nenhuma menção é feita à depressão de 1920-1921.  E não é à toa - aquela experiência histórica esvazia completamente as ambições daqueles que prometem soluções políticas aos desequilíbrios reais que existem no âmago de todas as recessões econômicas.
A sabedoria convencional afirma que, na ausência de uma política anticíclica do governo, seja ela fiscal ou monetária (ou ambas), é impossível haver uma recuperação econômica - pelo menos não sem uma longa e intolerável demora.  Entretanto, políticas exatamente opostas foram seguidas durante a depressão de 1920-1921 nos EUA, e a recuperação não tardou a vir.
A situação econômica nos EUA em 1920 era sinistra.  Naquele ano o desemprego havia pulado de 4% para quase 12%, o PNB havia declinado 17%.  Não é de se estranhar, portanto, que o então Secretário de Comércio [equivalente ao nosso Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior] Herbert Hoover - até hoje falsamente descrito como um entusiasta do laissez-faire - tenha instado veementemente o então presidente Warren G. Harding a fazer uma série de intervenções para reativar a economia.  Mas Hoover foi ignorado.
Ao invés de um "estímulo fiscal", Harding reduziu o orçamento do governo praticamente à metade entre 1920 e 1922: os gastos federais declinaram de $6,3 bilhões em 1920 para $5 bilhões em 1921 e $3,3 bilhões em 1922.  E o restante da abordagem de Harding foi igualmente laissez-faire: o imposto de renda foi diminuído para todos os grupos de renda e a dívida nacional foi reduzida em 33%.
A atividade do Federal Reserve, o banco central americano, foi praticamente imperceptível.  Como um historiador econômico escreveu, "Apesar da severidade da contração econômica, o Fed não utilizou seus poderes para aumentar a oferta monetária e combater a recessão".[2]  No terceiro trimestre de 1921, os sinais da recuperação já eram visíveis.  No ano seguinte, o desemprego caiu para 6,7%, e em 1923 já estava em 2,4%.
É bastante instrutivo comparar a resposta americana nesse período à japonesa.  Em 1920, o governo japonês introduziu os fundamentos de uma econômica planificada, cujo objetivo era manter os preços artificialmente altos.  De acordo com o economista Benjamin Anderson,
Os grandes bancos, as indústrias concentradas e o governo entraram em conluio, destruíram a liberdade dos mercados, interromperam o declínio nos preços das commodities, e mantiveram o nível de preços do Japão acima do declinante nível de preços mundial por sete anos.  Durante esses anos, o Japão sofreu uma crônica estagnação industrial e, ao final, em 1927, enfrentou uma crise bancária de tamanha severidade que muitas filiais de grandes bancos foram à falência, assim como várias indústrias.  Foi uma política estúpida.  No esforço de se impedir que ocorressem prejuízos com os estoques de um ano de produção, o Japão perdeu sete anos.[3]
Os Estados Unidos, em contraste, permitiram que sua economia se reajustasse.  "Em 1920-21", escreveu Anderson,
encaramos nossos prejuízos, reajustamos nossa estrutura financeira, suportamos nossa depressão e, em agosto de 1921, recomeçamos nosso crescimento.. A reação ocorrida na produção e no emprego, que começou em agosto de 1921, foi solidamente baseada em uma limpeza drástica do crédito malfeito, em uma drástica redução nos custos de produção, e na livre concorrência da iniciativa privada.  A reação não se baseou em nenhuma política governamental criada para subsidiar os negócios.
O governo americano não fez aquilo que os economistas keynesianos desde então vêm insistindo para que os países façam: praticar déficits orçamentários e estimular vários setores da economia via aumento de gastos.  Ao contrário, prevaleceu a antiquada ideia de que o governo deveria manter a tributação e os gastos em níveis baixos e reduzir a dívida pública.[4]
Esses foram os temas econômicos da gestão presidencial de Warren Harding.  Poucos presidentes americanos são mais impopulares entre historiadores do que Harding, que é rotineiramente retratado como um bobo desajeitado que caiu de pára-quedas na presidência.  Entretanto, quaisquer que tenham sido suas deficiências intelectuais - e elas foram grotescamente exageradas, como recentes estudiosos vêm admitindo - e quaisquer que tenham sido seus defeitos morais (seu gabinete sofreu acusações de corrupção), ele compreendeu os fundamentos da expansão econômica, da recessão e da recuperação melhor do que qualquer outro presidente do século XX.
Em seu discurso de aceitação após ser confirmado como o candidato Republicano à presidência dos EUA, Harding declarou,
Tentaremos uma deflação inteligente e corajosa, e atacaremos a prática do endividamento governamental, algo que só aumenta o infortúnio e a nocividade, e atacaremos o alto custo do governo com todos os meios e energia inerentes à capacidade republicana.  Prometemos o alívio que advirá da interrupção do gasto e da extravagância, e a renovação da prática da economia do setor público, não apenas porque isso irá aliviar o fardo tributário, mas também porque será um exemplo para se estimular a poupança e a economia na esfera privada.
Estimulemos todas as pessoas a poupar e a economizar, a recorrerem ao sacrifício e à renúncia se preciso for, a uma iniciativa nacional contra a extravagância e a magnificência, a um recomprometimento à simplicidade de vida, àquele plano de vida prudente e normal que caracterizam a saúde da república.  Desde que a história da humanidade foi escrita pela primeira vez, os efeitos devastadores trazidos pelos gastos e anormalidades de uma guerra só são superados por meio do trabalho e da poupança, da produção e da abnegação - ao passo que a gastança desnecessária e a extravagância insensata foram as responsáveis por todos os declínios na história das nações.
É desnecessário chamar a atenção para o fato de que esse conselho de Harding - que por incrível que pareça foi dito em um discurso em uma convenção política - é o oposto daquele que os supostos especialistas nos recomendam veementemente hoje.  Inflação, aumento dos gastos públicos e agressões às poupanças privadas, tudo isso combinado a clamores por mais consumismo pródigo: esse é o programa para uma "recuperação" no século XXI.
Não surpreendentemente, muitos dos atuais economistas que estudaram a depressão de 1920-1921 se mostraram incapazes de explicar como a recuperação foi tão rápida e integral mesmo com o governo federal e o banco central tendo se recusado a aplicar qualquer uma das ferramentas macroeconômicas - gastos em obras públicas, déficits orçamentários e políticas monetárias inflacionistas - que a sabedoria convencional hoje preconiza como sendo a solução para as contrações econômicas.  O economista keynesiano Robert A. Gordon admitiu que "as políticas governamentais para moderar a depressão e acelerar a recuperação foram mínimas.  As autoridades do Federal Reserve foram amplamente passivas... Apesar da ausência de uma política governamental de estímulo, a recuperação não demorou."[5]
Outro historiador econômico admitiu que "a economia recuperou-se rapidamente da depressão de 1920-1921 e adentrou um período de crescimento bastante vigoroso", porém, como a maioria dos historiadores, ele preferiu não tecer mais comentários sobre esse fenômeno e nem extrair dele qualquer aprendizado.[6]  "Isso foi em 1921", escreveu com ares de superioridade Kenneth Weiher, "muito antes do conceito de política anticíclica ter sido aceito ou mesmo compreendido"[7] Pode ser que as pessoas daquela época ainda não tinham "entendido" o conceito de política anticíclica, mas a recuperação veio de todo jeito - e rapidamente.
Um dos mais pervertidos tratamentos do assunto em questão pode ser encontrado nos escritos de dois historiadores do governo Harding, os quais insistem que, caso os governos se recusem a confiscar a maior parte da renda dos cidadãos mais ricos, a economia jamais será estável:
Os cortes de impostos, junto com a ênfase dada ao abatimento da dívida nacional e à redução dos gastos federais, serviram apenas para favorecer os ricos.  Muitos economistas concordam que uma das principais causas da Grande Depressão de 1929 foi a desigual distribuição de renda, a qual pareceu ter se acelerado durante a década de 1920, e que foi resultado desse retorno à normalidade.  Cinco por cento da população americana detinha mais de 33% da riqueza nacional em 1929.  Esse grupo não foi capaz de utilizar sua riqueza responsavelmente... Ao contrário, eles estimularam a perniciosa especulação na bolsa de valores, bem como o crescimento econômico desigual.[8]
Se essa teoria - ou pelo menos essa tentativa absurda de se criar uma - fosse correta, o mundo viveria em um constante estado de depressão.  Não havia absolutamente nada de atípico no padrão de riqueza dos EUA nos anos 1920.  Disparidades muito maiores já existiram (e existem) em inúmeros lugares e em épocas diferentes, sem que gerassem qualquer distúrbio semelhante.
Com efeito, a Grande Depressão na realidade veio exatamente quando ocorria um dramático aumento na fatia da renda nacional ocupada pelos salários - e uma queda na fatia ocupada por juros, dividendos e renda empresarial.[9]  O que prova que, para se obter a prosperidade, não é necessária nenhuma expropriação violenta da renda dos indivíduos.
Entretanto, não basta demonstrar que a prosperidade surge da ausência de estímulos fiscais ou monetários.  É preciso entender por que esse resultado é o esperado - em outras palavras, por que a restauração da prosperidade na ausência dos remédios amplamente receitados pelos economistas modernos não foi um fato raro e irrelevante ou um resultado do mero acaso.
Primeiro, é preciso antes de tudo examinar por que a economia de mercado é atormentada pelos ciclos de expansão e recessão.  O economista britânico Lionel Robbins fez a seguinte pergunta em seu livro The Great Depression, de 1934: Por que todos empreendedores repentinamente cometem um "conjunto de erros" ao mesmo tempo?
Dado que o mercado, por meio do sistema de lucros e prejuízos, está constantemente eliminando os empreendedores menos competentes, por que é que aqueles relativamente mais capacitados, os quais foram recompensados pelo mercado com lucros e com o controle sobre recursos adicionais, repentinamente cometem erros graves - e todos na mesma direção?  Será que algo fora da economia de mercado - ao invés de algo inerente a ela - pode ser o responsável por esse fenômeno?
Ludwig von Mises e F.A. Hayek apontaram a expansão artificial do crédito, normalmente sob os auspícios de um banco central criado pelo governo, como sendo o culpado extramercado.  (Hayek ganhou o Prêmio Nobel em 1974 pelo seu trabalho sobre o que é hoje conhecida como a teoria austríaca dos ciclos econômicos.)  Quando o banco central expande a oferta monetária - por exemplo, quando ele compra títulos do governo em posse dos bancos -, ele faz isso criando dinheiro essencialmente do nada.
Esse dinheiro vai diretamente para os bancos comerciais (caso os títulos estejam em posse de outra entidade qualquer, o dinheiro vai para essa entidade, que acabará depositando-o em sua conta bancária, fazendo com que o destino final do dinheiro também seja os bancos comerciais).  Da mesma forma que o preço de um bem qualquer tende a diminuir quando sua oferta aumenta, o influxo de dinheiro recém-criado causa uma diminuição nas taxas de juros, uma vez que os bancos tiveram um aumento nos seus fundos disponíveis para empréstimos.
As taxas de juros mais baixas estimulam o investimento em projetos de longo prazo, os quais são mais sensíveis aos juros do que os projetos de curto prazo.  (Compare os juros que são pagos mensalmente para quitar empréstimos de 30 anos com os juros que são pagos mensalmente para quitar um empréstimo de 2 anos - uma pequena redução nos juros terá um impacto substancial no primeiro caso, mas um impacto desprezível no segundo).  Investimentos adicionais em, por exemplo, pesquisa e desenvolvimento (P&D), os quais podem levar anos para produzir resultados, irão repentinamente parecer lucrativos, ao passo que não teria sido lucrativo fazê-los sem esses menores custos de financiamento trazidos pelas taxas de juros mais baixas. 
Na estrutura de produção de uma economia (estrutura do capital), dizemos que P&D é um estágio de produção de "ordem mais alta" do que uma loja de varejo que vende chapeus, por exemplo, já que chapeus estão imediatamente disponíveis para os consumidores, ao passo que os resultados comerciais da P&D só estarão disponíveis daqui a um tempo relativamente longo.  Quanto mais perto um estágio da produção estiver do produto final a ser comercializado, mais baixo é o estágio que ele ocupa na estrutura de produção.
No livre mercado, as taxas de juros coordenam a produção ao longo do tempo.  Elas garantem que a estrutura de produção seja configurada sempre de maneira a estar de acordo com as preferências dos consumidores.  Se os consumidores querem que haja mais bens de consumo disponíveis agora, os estágios de ordem mais baixa da estrutura de produção vão se expandir.  Se, por outro lado, eles estão dispostos a adiar o consumo atual (consumindo menos, poupando mais), as taxas de juros irão estimular os empreendedores a aproveitar essa oportunidade para empregar seus fatores de produção em projetos que não estão voltados para a satisfação dos desejos imediatos dos consumidores, mas que, tão logo se tornem uma realidade, irão gerar uma maior oferta de bens de consumo no futuro.
Se as taxas de juros mais baixas no nosso exemplo tivessem sido o resultado de uma poupança voluntária da parte do público, e não de uma intervenção do banco central, a diminuição relativa nos gastos em consumo - que é o equivalente a um aumento da poupança - teria liberado recursos para serem utilizados nos estágios de ordem mais alta da estrutura de produção.  Em outras palavras, caso haja uma genuína poupança, a demanda por bens de consumo sofre um declínio relativo; as pessoas estão poupando mais e gastando menos do que antes.
As indústrias de bens de consumo, por sua vez, sofrem uma relativa contração em resposta a essa diminuição na demanda por bens de consumo.  Os fatores de produção que essas indústrias utilizavam - serviços de transporte de carga, por exemplo - são agora liberados para serem utilizados em estágios mais remotos da estrutura de produção.  O mesmo ocorre com a mão-de-obra, aço e outros insumos não específicos.
Quando há alguma interferência na estrutura da taxa de juros - que até então vinha sendo determinada livremente pelo mercado -, essa função coordenadora é perturbada.  Um aumento dos investimentos nos estágios de ordem mais alta da estrutura de produção ocorre em um momento em que a demanda por bens de consumo não foi reduzida.  A estrutura da produção é distorcida de tal modo que ela não mais corresponde ao padrão temporal determinado pelas demandas dos consumidores.  Os consumidores estão demandando bens no presente justamente em um momento em que está havendo um desproporcional aumento nos investimentos para a produção de bens futuros.
Portanto, quando taxas de juros mais baixas são resultado de uma política do banco central, e não de um aumento genuíno na poupança, não houve nenhum recuo na demanda do consumidor.  (Na verdade, as taxas mais baixas deixam as pessoas ainda mais propensas a se endividar e gastar).  Nesse caso, não houve uma liberação de recursos para que estes sejam usados nos estágios de ordem mais alta.  A economia encontra-se, portanto, em um cabo-de-guerra, com recursos sendo disputados entre os estágios de ordem mais alta e os estágios de ordem mais baixa da estrutura de produção.
Com o passar do tempo, os recursos vão se revelando inesperadamente escassos, o que gera um aumento dos custos.  Esse aumento dos custos ameaça a lucratividade dos projetos de ordem mais alta.  O banco central pode expandir artificialmente o crédito ainda mais, com o intuito de reforçar a posição dos estágios de ordem mais alta nesse cabo-de-guerra.  Mas isso irá meramente adiar o inevitável.
Se o padrão de poupança e consumo que foi livremente escolhido pelos indivíduos não estiver dando respaldo a esse desvio de recursos para os estágios de ordem mais alta - mais ainda, se ele estiver na realidade forçando os recursos a voltarem para aquelas empresas que lidam diretamente com bens de consumo finais -, então o banco central está numa guerra contra a realidade.  Ele terá que, em algum momento futuro, decidir se - a fim de validar toda a expansão havida nos estágios de ordem mais alta - ele está preparado para expandir o crédito a uma taxa galopante e arriscar a destruição total da moeda, ou se, ao contrário, ele deve diminuir ou mesmo interromper sua expansão monetária e deixar que a economia se ajuste sozinha às condições reais.
É importante observar que o problema não está relacionado a uma insuficiência nos gastos em consumo, como a popular noção keynesiana nos faria crer.  No mínimo, o problema advém de um excesso de gastos em consumo, o que impede que haja um suficiente direcionamento de fundos para outros tipos de gasto - a saber, a expansão de estágios de produção de ordem mais alta, os quais não podem ser lucrativamente concluídos porque os recursos necessários para tal estão sendo absorvidos exatamente pela inesperada e relativamente mais robusta demanda por bens de consumo.  Estimular os gastos em consumo irá apenas piorar as coisas, pois irá estrangular ainda mais os fundos disponíveis para investimento, deteriorando a já declinante lucratividade dos investimentos nos estágios de ordem mais alta.
Observe também que o fator gerador dos ciclos econômicos não é um fenômeno inerente ao livre mercado.  É a intervenção no mercado que gera o ciclo do crescimento insustentável seguido da inevitável recessão.[10]  Como o estudioso dos ciclos econômicos Roger Garrison sucintamente coloca, "A poupança nos dá um crescimento genuíno; a expansão do crédito nos dá a expansão seguida da recessão."[11]
Esse fenômeno antecede todos os grandes ciclos econômicos, incluindo-se aí a crise de 2008 e a depressão de 1920-1921.  Os anos anteriores a 1920 foram caracterizados por um aumento maciço na oferta monetária por meio do sistema bancário, com o compulsório dos bancos sendo reduzidos à metade após a criação do Federal Reserve em 1913 e, depois, com a considerável expansão do crédito feita pelos próprios bancos.
O total de depósitos bancários mais que dobrou entre janeiro de 1914, quando o Fed foi inaugurado, e janeiro de 1920.  Esse tipo de criação artificial de crédito é que gera os ciclos econômicos.  O Fed também manteve sua taxa de redesconto (a taxa que ele cobra por empréstimos feitos diretamente aos bancos) em um nível baixo durante toda a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e por um breve período depois dela.  O Fed só começou a adotar uma postura mais contracionista no final de 1919.
O economista Gene Smiley, autor de The American Economy in the Twentieth Century, observa que "A visão mais comum é a de que a política monetária do Fed foi o principal determinante do fim da expansão econômica e da inflação, e do início da subsequente contração econômica e da severa deflação de preços."[12] Tão logo o crédito começou a se contrair, os agentes de mercado repentinamente começaram a perceber que a estrutura de produção tinha de ser rearranjada, e que as linhas de produção que dependiam do crédito fácil representavam um investimento errôneo que sequer deveria ter sido iniciado - e que agora precisava ser liquidado. 
Agora podemos fazer uma avaliação daquelas propostas perenemente em voga, como "estímulos fiscais" e seus vários similares.  Pense na situação da economia logo após a expansão econômica artificial.  Ela está repleta de desequilíbrios.  Recursos em excesso foram empregados nos estágios de produção de ordem mais alta e recursos insuficientes foram empregados nos estágios de produção de ordem mais baixa.
Esses desequilíbrios precisam ser corrigidos por empreendedores que, atraídos por taxas de lucro mais altas nos estágios de ordem mais baixa, retiram recursos daqueles estágios que se expandiram excessivamente e os direcionam para os estágios de ordem mais baixa, onde estão sendo mais demandados.  É essencial que haja absoluta liberdade de preços e salários para que essa tarefa possa ser cumprida, uma vez que preços e salários são ingredientes indispensáveis para a avaliação empreendedorial.
À luz dessa descrição da economia do pós-boom, podemos ver o quão inúteis, até mesmo irrelevantes, são os esforços de um estímulo fiscal.  O mero ato governamental de se gastar dinheiro em projetos arbitrariamente escolhidos em nada ajuda a corrigir os desequilíbrios que levaram à crise.
Não foi um declínio nos "gastos" per se que causou todo o problema.  Foi o descompasso entre, de um lado, o tipo de produção que a estrutura do capital foi erroneamente levada a empreender, e, de outro, o padrão da demanda do consumidor, que é incapaz de sustentar a estrutura da produção como ela está.
E não é incorreto se referir aos recebedores do estímulo fiscal como projetos arbitrários.  Dado que o governo não funciona sob o mesmo mecanismo de lucros e prejuízos que guia uma empresa privada, e dado que ele pode adquirir recursos adicionais por meio da expropriação direta do público, ele não tem como saber se está de fato satisfazendo as demandas do consumidor (considerando-se que ele realmente esteja preocupado com isso) ou se o uso que ele está fazendo dos recursos é grotescamente descuidoso e desperdiçador.  Não obstante a retórica popular, o governo não pode ser gerido como uma empresa.[13]
Estímulos monetários também não são de nenhuma valia.  Ao contrário, eles apenas intensificam o problema.  Em Ação Humana, Mises compara uma economia sob a influência de uma expansão artificial do crédito a um mestre-de-obras encarregado de construir uma casa, sendo que (sem que ele saiba) não há tijolos suficientes disponíveis para completá-la.  Quanto mais cedo ele descobrir esse erro, melhor.  Quanto mais tempo ele insistir nesse projeto insustentável, mais recursos e mais tempo de trabalho serão irremediavelmente desperdiçados.  Com isso, no final todos estarão mais pobres, pois capital foi consumido a troco de nada.
Estímulos monetários meramente encorajam os empreendedores a continuarem empreendendo seus projetos insustentáveis.  É como se, ao invés de alertarem o mestre-de-obras de que está faltando tijolo, seus subordinados simplesmente escondessem dele esse fato, ludibriando-o a fim de adiar a inevitável descoberta da verdade.  Tais medidas não fazem com que a derradeira recessão possa ser evitada - apenas tornam-na mais dolorosa.
Se a visão austríaca estiver correta - e creio que as evidências teóricas e empíricas fortemente indicam que está -, então a melhor abordagem para se estimular a recuperação econômica seria oposta a essas estratégias keynesianas.  O orçamento do governo deve ser reduzido, e não aumentado, permitindo assim a liberação de recursos para que agentes privados possam utilizá-los para realinhar a estrutura do capital.
A oferta monetária não deve ser aumentada.  Pacotes de socorro a empresas no limiar da falência servem apenas para congelar os erros empreendedoriais, ao invés de permitir que esses recursos sejam transferidos para empreendedores mais aptos a suprir as demandas do consumidor, empreendedores que de fato entendam as condições reais da economia. 
Empréstimos de emergência para empresas em dificuldades perpetuam a má alocação de recursos e estendem um favoritismo político para empresas que estão incorrendo em práticas insustentáveis.  Da mesma forma que a mencionada acima, esse favoritismo político se dá em detrimento de empresas sólidas que estão preparadas e capacitadas para adquirir esses recursos e direcioná-los para usos mais apropriados.
A experiência de 1920-1921 reforça a argumentação dos genuínos economistas pró-livre mercado de que a intervenção governamental é um obstáculo à recuperação econômica.  Os keynesianos costumam dizer que economia americana se recuperou rapidamente da depressão de 1920-1921apesar da ausência de estímulos fiscais e monetários.  Errado.  É exatamente porque tais medidas foram evitadas, que ela se recuperou rapidamente. 

Leituras recomendadas:

A teoria austríaca dos ciclos econômicos e as causas da Grande Depressão

A teoria austríaca dos ciclos econômicos e as causas da Grande Depressão




Em junho de 1931, o economista britânico Lionel Robbins escreveu um prefácio para o novo livro do economista austríaco Friedrich A. Hayek, Prices and Production.  O professor Robbins explicou o "maravilhoso renascimento" que a escola austríaca de pensamento econômico havia vivenciado desde o fim da Primeira Guerra Mundial sob a liderança de economistas como Ludwig von Mises.  Dentre as mais importantes contribuições recentes da escola austríaca, disse ele, estava a teoria dos ciclos econômicos, cujo referido livro de Hayek tinha a intenção de apresentar para o mundo anglófono.  Observou o professor Robbins:
A maioria dos teóricos monetários parece ter falhado completamente em apreender corretamente a natureza das forças operantes nos EUA antes do evento da grande depressão, aparentemente pensando que a relativa estabilidade do nível de preços indicava um estado de coisas necessariamente livre de nocivas influências monetárias.  A teoria austríaca, da qual o doutor Hayek é tão ilustre expoente, pode reclamar ao menos esse mérito, que ninguém que realmente entendeu suas principais doutrinas poderia ter nutrido por algum momento tão vãs ilusões.
Eventos históricos nunca são o resultado de um fator influente, mesmo que este seja fortemente dominante.  E isso não é menos verdadeiro para o caso das influências políticas e econômicas que atuaram antes do início da Grande Depressão em 1929.  A Primeira Guerra Mundial havia desorganizado todas as relações políticas e econômicas normais ao redor do globo.  Enormes quantidades de capital físico e mão-de-obra humana haviam sido consumidas e destruídas durante os quatro anos da guerra.  As inflações que ocorreram durante a guerra e principalmente no período posterior à guerra rasgaram o tecido social e cultural dos principais países da Europa, especialmente Alemanha e Áustria.  As instituições da sociedade civil e liberal foram severamente enfraquecidas e substituídas por regimes políticos intervencionistas e socialistas que limitaram ou aboliram as liberdades civis e econômicas.
Novas nações surgiram na Europa Central e no Leste Europeu com o colapso dos impérios alemão, austríaco e russo.  Todas elas, embora com intensidades distintas, seguiram o caminho do nacionalismo econômico — impondo tarifas protecionistas, subsidiando a agricultura e várias indústrias privilegiadas, nacionalizando setores inteiros da economia, instituindo controles de capital e taxas de câmbio artificiais, estabelecendo programas assistencialistas.
Os pagamentos de reparação impostos sobre a Alemanha representaram uma espécie peculiar de "dança das cadeiras", um mecanismo financeiro artificioso por meio do qual os EUA emprestavam dinheiro para os alemães para que estes pudessem quitar seus pagamentos para com as forças aliadas, dentre as quis os próprios EUA — as barreiras comerciais impostas por americanos e europeus praticamente impossibilitaram a Alemanha de obter, por meio de suas exportações, a soma necessária de moeda estrangeira com a qual cumprir todas as suas obrigações financeiras sob os termos impostos pelo tratado de paz que pôs fim à guerra.
O sistema monetário mundial — o padrão-ouro internacional — foi fatalmente enfraquecido pelas políticas inflacionárias adotadas pelos governos durante e após a guerra.  Não obstante todas as debilidades do modelo de padrão-ouro que foi adotado — um padrão-ouro em que havia reservas fracionárias —, e apesar de todos os abusos impostos a esse padrão-ouro pelos governos que o gerenciaram nas décadas anteriores a 1914, é notório que tal sistema logrou trazer um alto grau de estabilidade monetária, criando um ambiente econômico global propício à poupança, ao investimento, ao comércio internacional e à formação de capital.  Na década de 1920, entretanto, os sistemas monetários das principais nações da Europa já eram formados por moedas fiduciárias mais diretamente controladas e manipuladas pelos seus respectivos governos, ainda que tais moedas continuassem nominalmente "atreladas" ao ouro.
Nos Estados Unidos, a criação do Federal Reserve System, o banco central americano, em 1913, criou uma nova e centralizada máquina de expansão monetária.  Dentro desse arranjo, o banco central americano colocou em prática seu experimento de tentar, por meio de manipulações na oferta monetária, estabilizar o nível de preços da economia americana.
Na década de 1920, Ludwig von Mises demonstrou a fundamental incapacidade de todas as tentativas de estabilizar uma economia por meio de políticas monetárias que visam à estabilização do nível de preços, explicando o problema da inerente não-neutralidade da moeda.  Mudanças na oferta monetária necessariamente ocorrem por meio da injeção de quantias novas de dinheiro em alguns pontos específicos do mercado.  Essas adições de dinheiro novo à oferta monetária afetam o resto da economia através de um processo temporal e sequencial, em que o novo dinheiro criado é utilizado por cada indivíduo e por cada grupo de ofertantes e demandantes que vão recebendo esse novo dinheiro ao longo do tempo.
O resultado final é uma mudança no poder de compra geral, isto é, no valor do dinheiro.  Porém, durante esse processo de mudança no poder de compra do dinheiro, a estrutura de preços relativos, salários e renda, bem como a alocação de recursos por toda a economia, também são modificados.  Mais ainda: se as injeções monetárias ocorrem através do sistema bancário, as taxas de juros são alteradas, e isso pode gerar um ciclo econômico.
Porém, foi o jovem colega austríaco de Mises, Friedrich A. Hayek, quem detalhou por que as tentativas de estabilizar o nível de preços podem distorcer a estrutura dos preços relativos da economia de tal maneira que um ciclo econômico provavelmente será gerado.  Em seu livro Monetary Theory and the Trade Cycle (1929), Hayek argumentou que a função da taxa de juros em uma economia de mercado é assegurar que a quantidade de investimentos e os horizontes temporais desses investimentos se deem de acordo com a quantidade de poupança disponível na economia, que é o que permite esses investimentos.  Quando a taxa de juros não sofre intervenções e é livremente formada de acordo com as forças concorrenciais do mercado, poupança e investimento permanecem em equilíbrio.  Porém, quando as taxas de juros são manipuladas — como quando há um banco central —, poupança e investimento podem ficar em desequilíbrio, gerando assim os ciclos econômicos.
Uma economia que está vivenciando aumentos na produtividade e na formação de capital, apresentará maiores eficiência de custo e capacidade produtiva de suas várias indústrias.  Isso, com o tempo, irá pressionar para baixo os preços, justamente por causa da maior oferta de bens oferecidos aos consumidores no mercado.  O preço de cada um desses bens será reduzido até o ponto em que o mercado em que cada bem é vendido chegue ao seu novo equilíbrio.  Nos mercados em que a demanda dos consumidores reage mais sensivelmente a esse aumento na oferta de bens — isto é, em que a demanda aumenta por causa da maior oferta —, os preços individuais de cada bem irão se reduzir apenas moderadamente.  Em outros mercados, em que a demanda dos consumidores seja notadamente menos sensível a esse aumento na oferta de bens, os preços individuais de cada bem teriam de cair com maior intensidade para fazer com que essa maior oferta fique equilibrada com a demanda, cuja alteração foi pequena.
Com o passar do tempo, o nível médio de preços mensurado por alguma estatística de índice de preços iria apontar a ocorrência de uma "deflação".  Porém, tal deflação de preços não apenas não seria ruim para a economia, como na verdade seria essencial para fazer com que a estrutura do mercado equilibrasse os preços relativos, mantendo a oferta e a demanda de cada bem equilibradas entre si ao longo do tempo.
No caso específico dos EUA durante a década de 1920, a economia do país estava passando por rápidas transformações tecnológicas, o que gerou grande aumento na produtividade e, consequentemente, pressões baixistas nos preços dos bens e serviços.  Porém, em vez de permitir que essa tendência baixista nos preços ocorresse naturalmente, o Fed estimulou o aumento da oferta de dinheiro na economia americana com o intuito de neutralizar esse processo normal de deflação de preços.  Em termos agregados, a quantidade de dinheiro na economia foi aumentada de tal forma que fez com que a demanda por bens e serviços aumentasse o suficiente para igualar o aumento ocorrido na quantidade de bens e serviços oferecidos no mercado.  Essa equivalência de aumento da demanda com aumento da oferta fez com que o nível de preços se mantivesse praticamente "estável" ao longo de grande parte da década de 1920. 
Ou seja, não havia nenhum sinal aparente da tradicional inflação de preços nos EUA durante a década de 1920.
Porém, como argumentou Hayek em Monetary Theory and the Trade Cycle,
A taxa de juros que equilibra a oferta de poupança real com a demanda por capital não pode ser também uma taxa de juros que impeça mudanças no nível de preços.  Neste caso, a estabilidade do nível de preços pressupõe mudanças na oferta monetária.... A taxa de juros sob a qual, em uma economia em crescimento, a quantidade de dinheiro que entra em circulação na economia é apenas suficiente para manter o nível de preços estável, sempre será menor do que a taxa que faria com que a quantidade de capital disponível para empréstimos seja igual à quantidade simultaneamente poupada pelo público.  Assim, apesar da estabilidade do nível de preços, essa taxa de juros artificial possibilita que haja um afastamento da posição de equilíbrio.
Aumentos na oferta monetária, institucionalmente, são feitas na forma de um aumento das reservas do sistema bancário, aumentos esses feito pelo Banco Central, que cria moeda do nada e com ela compra títulos em posse do sistema bancário.  É sobre essas novas reservas bancárias que novos empréstimos são concedidos pelo sistema bancário.  Porém, a única maneira de os bancos poderem induzir potenciais tomadores de empréstimo a aceitarem novas quantias é diminuindo a taxa de juros que os eles cobram sobre esses empréstimos.
Uma taxa de juros mais baixa diminui o custo do empréstimo em relação à taxa de retorno esperada de vários projetos de investimento.  Porém, a taxa de juros não é apenas uma medida do custo dos empréstimos; ela é também o fator por meio do qual o valor esperado de um investimento é capitalizado em termos de seu valor presente — isto é, ela permite que se estime a rentabilidade de um projeto de longo prazo.  Uma taxa de juros mais baixa, portanto, também age como um estímulo para se incorrer em projetos de investimento de prazos mais longos, com horizontes temporais maiores, visando a um futuro mais distante.  Caso não tivesse havido esse aumento na oferta monetária, as taxas de juros para o mercado de empréstimos não teriam sofrido essa redução temporária.  Consequentemente, tais investimentos de longo prazo não teriam se tornado repentinamente atraentes e, portanto, não teriam sido iniciados.
Assim, na década de 1920 nos EUA, sob a aparente calma criada por um nível de preços estável, a política monetária expansionista adotada pelo Fed estava criando uma estrutura de preços e lucros deturpada, que induziu um grande número de investimentos de longo prazo, investimentos esses para os quais não havia uma poupança real disponível para sustentá-los no longo prazo. 
E por que eles eram insustentáveis no longo prazo?  Porque, à medida que o novo dinheiro criado ia sendo gasto em novos e alargados projetos de investimento, esse dinheiro adicional, com tempo, chegava às mãos dos fatores de produção (isto é, a mão-de-obra) que foram atraídos para esses empregos por causa dos maiores salários.  À medida que esses maiores salários eram, por sua vez, gastos no mercado, as demandas por bens de consumo eram estimuladas, fazendo com que houvesse contrapeso: os recursos que haviam sido desviados para os investimentos de longo prazo passavam a ser novamente trazidos para a produção de bens de consumo e para projetos de investimento com horizontes temporais menores.
Nesse cenário, a tendência seria a de que houvesse um aumento das taxas de juros mercado, pois empréstimos estavam sendo demandados por todos os lados.  Entretanto, para evitar essa subida nos juros, o Fed seguiu injetando dinheiro no sistema bancário.  Somente assim ele foi capaz de impedir que os juros de mercado se mantivessem abaixo de seus níveis adequados de equilíbrio, o que possibilitou que a lucratividade dos investimentos de longo prazo se mantivesse temporariamente alta — investimentos esses que foram gerados justamente pela tentativa de se manter o nível de preços estável.
Finalmente, em 1928, sob a pressão dessa expansão monetária, o nível de preços da economia americana começou a subir.  O Fed, receoso de provocar um descontrole absoluto nos preços, reduziu acentuadamente o ritmo de crescimento da oferta monetária.  Porém, com o fim da expansão monetária, as taxas de juros começaram subir para seus níveis de equilíbrio de mercado.  Alguns dos investimentos de longo prazo — tanto aqueles que já haviam sido finalizados como aqueles que ainda estavam em progresso — revelaram-se não lucrativos sob as novas e maiores taxas de juros.  O "boom" dos investimentos chegou ao fim e o início de seu colapso foi sinalizado pelo crash da bolsa de valores em outubro de 1929.  
Em 1932, em um artigo intitulado "The Fate of the Gold Standard" (O Destino do Padrão-Ouro), Hayek resumiu aquela que ele considerava ser a lição da década de 1920:
Ao invés de permitir que os preços pudessem cair lentamente — resultado inevitável de uma economia em crescimento —, um volume tão grande de crédito adicional foi colocado em circulação, que o nível de preços se manteve praticamente estável...  Se tal inflação monetária irá servir apenas para manter os preços estáveis, ou se ela levará a um aumento dos preços, é algo de importância secundária.  A experiência agora confirmou aquilo que a teoria já predizia: que tal inflação também pode fazer com que a produção seja direcionada para investimentos insustentáveis, fazendo com que, no final, um colapso na forma de crise econômica se torne inevitável.  Isso, entretanto, também comprova a impossibilidade de alcançar, na prática, a manutenção absoluta do nível de preços em uma economia dinâmica.
Tão logo a expansão monetária foi interrompida (em 1928-1929), as forças corretivas do mercado entraram em cena.  Porém, a intensidade e a duração da Grande Depressão acabaram sendo maiores e mais longas do que o normalmente necessário para um equilíbrio econômico ser restaurado.  Os motivos da severidade da Grande Depressão não podem ser encontrados em qualquer defeito inerente à economia de mercado, mas, sim, nas ideologias políticas e nas medidas governamentais da década de 1930.
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Para entender o que causou a severidade da Grande Recessão, os artigos a seguir são essenciais:

Sobre a crise de 1929 e a Grande Depressão - esclarecendo causa e consequência

Sobre a crise de 1929 e a Grande Depressão - esclarecendo causa e consequência
Como pode uma simples queda na Bolsa de Valores gerar mais de 15 anos de depressão econômica?




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Nota do Editor
Este Instituto é pródigo em artigos detalhados sobre a Grande Depressão (confira a lista completa ao final deste artigo). Temos inclusive um livro extremamente detalhado a respeito.
No entanto, vários leitores sempre nos pediram para apresentarmos um artigo sucinto que condensasse os principais aspectos do crash de 1929 e a subsequente Grande Depressão que teria sido supostamente gerada por esse crash.
Aqui vai, portanto, um artigo bastante sucinto, porém completo, sobre o tema.
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No ano de 1921, houve uma profunda depressão na economia americana. O desemprego saltou de 5 para quase 12%. A economia se contraiu em incríveis 17% e os preços desabaram mais de 10%.
O que fez o governo americano à época, liderado pelo presidente Warren G. Harding?
De um lado, ele permitiu que os salários caíssem livremente, de modo a acompanharem os preços em queda. Isso fez com que os custos de produção das empresas rapidamente se estabilizassem. Harding, ao contrário dos presidentes de hoje, em momento algum disse que a queda dos salários seria ruim para a economia.
De outro, ele cortou profundamente os gastos do governo (em incríveis 50%), diminuiu o imposto de renda para todas as classes sociais e, de quebra, ainda reduziu a dívida do governo americano em 33%.
Por sua vez, o Federal Reserve — o Banco Central americano — nenhuma iniciativa tomou para contrabalançar a crise. Quando ele reduziu os juros de 6% para 5%, a depressão já havia acabado.
A liberdade de ajuste de preços e salários, em conjunto com a redução do fardo do estado sobre a economia privada, fez com que aquela profunda depressão de 1921 estivesse já totalmente superada em 1923.
Hoje, são raros os livros de história que sequer a mencionam. É como se ela não houvesse existido. O fato de o governo americano nada ter feito para contrabalançá-la — e por isso mesmo ela ter sido rapidamente solucionada pelo livre mercado — certamente é algo que abala a crença dos intervencionistas. Por isso mesmo sua diligência em escondê-la. Pode-se dizer que a depressão de 1921 foi a última na qual um governo não se intrometeu. Por isso mesmo, foi também a mais rápida.
Para quebrar esse silêncio, o economista James Grant, um dos mais respeitados economistas dos EUA e do mundo, escreveu um livro inteiro dedicado a esse assunto.

A robusta recuperação da economia americana em 1923 deu início aquele período de prosperidade que se tornou conhecido como "os loucos anos 20".
Mas aí a história foi diferente.
Durante o resto da década 1920, o Banco Central americano reverteu sua postura até então conservadora e adotou uma política monetária muito mais expansionista: em 1920, os juros estavam em 6% ao ano. Ao final de 1927, eles já haviam caído para 3,5%. Uma redução de 42%.
Essa política monetária expansionista foi a principal responsável por sustentar a febre especulativa dos "loucos anos 20". A contínua criação de dinheiro pelo Federal Reserve permitia que os bancos concedessem, de forma contínua e aparentemente sem limites, empréstimos fartos e baratos para especuladores, os quais utilizavam esse dinheiro barato para comprar ações e, em seguida, revendê-las a preços muito maiores. A expansão monetária feita pelo Fed garantia que os preços das ações subissem continuamente. (Tudo isso está documentado em detalhes neste livro).
Vale ressaltar que é impossível preços de ativos subirem continuamente sem que esteja havendo uma grande expansão monetária, que dê sustentação a esse processo de alta nos preços. Sem expansão monetária é impossível preços subirem eternamente. E quem controla o processo de expansão monetária de um país é o seu Banco Central.
E assim foram os loucos anos 1920.
Até que, em fevereiro de 1928, o Fed, assustado com toda aquela febre especulativa, reverteu sua postura e, contrariamente às expectativas, começou a subir os juros. E o fez por três vezes seguidas. Em um período de 5 meses, ele elevou os juros de 3,50% para 5%. Pode parecer pouco, mas esse aumento de 43% em 5 meses bastou para interromper toda a farra especulativa.
Com o crédito mais caro, os especuladores começaram a ter dificuldades em auferir lucros em suas ações. Pegar dinheiro emprestado para comprar ações (um processo conhecido como "alavancagem") tornou-se 43% mais caro em 5 meses. Com menos empréstimos sendo tomados, a quantidade de dinheiro na economia parou de aumentar. (De novo, todas essas estatísticas estão documentadas neste livro). Com essa interrupção no crescimento da quantidade de dinheiro na economia, a própria atividade especulativa perdeu a potência. Os preços das ações pararam de subir.
Uma correção na bolsa de valores era inevitável.
O empurrão
E essa correção veio, mas de uma maneira inusitada.
No dia 29 de outubro de 1929, já com praticamente toda a atividade especulativa paralisada, a bolsa de valores americana desabou 12% em um único dia. Esse fenômeno, que ficou conhecido como a "terça-feira negra", é do conhecimento de todos. Mas o que não é muito bem conhecido é o que realmente precipitou essa correção tão súbita e tão substantiva.
Sim, a política monetária do Fed — que subitamente reverteu quase uma década de expansão monetária e dinheiro barato — criou as bases para que essa correção ocorresse, mas houve um outro detalhe: a história já revelou que, naquele dia 29 de outubro, correu a notícia de que o então presidente Herbert Hoover iria implantar a Tarifa Smoot-Hawley, que elevaria as tarifas de importação de mais de 20 mil produtos a níveis jamais vistos na história. Alem de encarecer substantivamente as importações, isso geraria uma guerra comercial e representaria um golpe fatal ao livre comércio.
Imediatamente os preços das ações das empresas desabaram.
Sobre essa tarifa, Thomas Lamont, alto executivo do J.P. Morgan, disse que "Eu quase me prostrei de joelhos perante Hoover para implorar que ele vetasse a asinina tarifa Smoot-Hawley". Já o presidente da GM européia, Graeme K. Howard, enviou um telegrama a Washington alertando que a aprovação da Smoot-Hawley levaria "à mais severa depressão jamais vivenciada pelo mundo".
Os mercados nunca precificam o presente; eles sempre miram o futuro. Os preços presentes são apenas os preços futuros descontados. Uma legislação criada para reduzir o comércio global inevitavelmente afetaria os mercados e os preços das ações das empresas. Com um comércio global muito mais restringido, os lucros das empresas exportadoras e importadoras seriam severamente afetados. A Bolsa de Valores apenas antecipou essa queda.
Uma queda na Bolsa gera uma depressão de 15 anos?
Até aqui a narrativa é bastante convencional. Quedas abruptas e inesperadas na Bolsa de Valores estão longe de ser um fato atípico. Isso já havia acontecido em 1920. E voltaria a acontecer novamente em 1987 — uma queda, aliás, muito maior, de 22%.
Por que nenhuma dessas duas quedas gerou uma grande depressão? Por que apenas a queda de 1929 teve esse potencial?
Essa é a pergunta que tem de ser respondida.
Para isso, entra em cena Herbert Hoover.
Pesquisas históricas conduzidas sem paixões ideológicas e sem panfletagens políticas revelam o básico: Herbert Hoover sempre fora um político incessantemente intervencionista.
Hoover, um homem bem intencionado e de instintos apurados, havia sido um bem-sucedido engenheiro de minas antes de entrar para o setor público. Por ser muito intelectualmente capacitado, ele acreditava que praticamente tudo podia ser manipulado e controlado como se fosse um projeto de engenharia. Essa sua filosofia foi trazida à tona durante o crash da bolsa em 1929.
Para começar, Hoover era abertamente contrário ao livre mercado. E por um motivo: ele sabia, corretamente, que uma livre concorrência desregulamentada forçaria as empresas a reduzir seus preços. Tendo sido ele próprio um homem da iniciativa privada, ele via uma queda de preços como algo inerentemente ruim. Pior: ele acreditava que preços menores levavam a salários menores.
Em novembro de 1929, pouco depois da queda da bolsa, Hoover convocou uma reunião com os presidentes das principais indústrias americanas. Henry Ford, da Ford Motor Company; Alfred Sloan, da GM; e Pierre Dupont, da Dupont Chemicals, lideraram o grupo que se encontrou com Hoover.
O presidente, então, impôs algumas diretivas sem precedentes: 1) Apesar da economia fraca e abalada pela queda da Bolsa e pelo fim da atividade especulativa (vale relembrar que especular na bolsa havia se tornado uma febre entre os americanos de todas as classes durante quase toda a ultima década), salários não deveriam em hipótese alguma ser reduzidos; 2) As demissões deveriam ser evitadas ao máximo. Se a empresa realmente tivesse de reduzir mão-de-obra, que o fizesse por meio da redução da carga horária — ou seja, dois trabalhadores deveriam, cada um, trabalhar apenas meio expediente, ou apenas dia sim, dia não.
Em troca da manutenção dos empregos e da não-redução dos salários, Hoover prometeu aos industriais que ele convenceria trabalhadores e sindicatos a não fazerem greves e a não exigirem benefícios e pagamentos adicionais.
E ele cumpriu a promessa. Os trabalhadores não fizeram greves. E as indústrias não reduziram os salários. Com efeito, Henry Ford chegou a aumentar os salários como um gesto de solidariedade.
O engenheiro Hoover, ao que tudo indicava, havia conseguido engenheirar a solução perfeita. Só que ela não funcionou.
Com o Fed tendo subido os juros e parado de expandir a oferta monetária, pessoas que haviam pedido empréstimos para especular com ações não mais conseguiam revender suas ações a preços maiores e, consequentemente, não mais conseguiam quitar suas dívidas. Elas começaram a dar calotes nos bancos. Os bancos então começaram a restringir empréstimos e a pedir a quitação de empréstimos pendentes.  As pessoas se assustaram com a situação e correram para sacar seu dinheiro dos bancos.  
Como os bancos praticam reservas fracionárias, isso gerou uma série de falências bancárias.  Essas falências bancárias geraram uma forte contração na oferta monetária — consequentemente, uma recessão.  
Tal recessão não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários — exatamente como havia feito em 1921 —, de modo que estes se adequassem à nova realidade da oferta monetária. Mas Hoover não permitiu que isso acontecesse.
Consequentemente, com essa ampla deflação monetária, foi impossível conter a queda dos preços. Em 1930 e 1931, os preços dos produtos industriais caíram. As pessoas simplesmente não tinham dinheiro para comprar bens ou para investir nas empresas.
E, para piorar tudo, a tarifa Smoot-Hawley de fato foi aprovada em 1930. Com as maiores tarifas de importação da história, não apenas as empresas e os cidadãos americanos não mais conseguiam importar bens baratos — uma extrema necessidade em um ambiente em que a quantidade de dinheiro na economia estava diminuindo —, como também os parceiros comerciais dos EUA retaliaram impondo pesadas tarifas sobre os produtos americanos.
Todo o comércio global foi paralisado.
Com as exportações americanas reduzidas à metade, os preços dos produtos industriais americanos desabaram.
Mas os salários — por causa da imposição do governo — continuaram sem ser reduzidos. Ou seja, receitas em queda e custos congelados. A consequência? Várias indústrias foram à falência.
À medida que a Depressão foi se aprofundando, a indústria pediu a Hoover permissão para finalmente reduzir os salários. Mas Hoover se recusou. "Se reduzirem os salários, os sindicatos farão um inferno", dizia ele.
Mas ao final de 1931, com a economia em frangalhos, a indústria rompeu o acordo com Hoover e finalmente reduziu os salários. Porém, como apenas reduzir os salários não adiantava, ela também começou a demitir em massa.
Mas já era tarde demais para interromper a queda livre. Falências geravam mais falências. O desemprego pulou de 3,2% em 1929 para 23,6% em 1932.
Hoover tentou contrabalançar a situação aumentando vastamente os gastos governamentais, apresentando um programa de nove metas estatais que incluíam grandes obras públicas, como a Represa Hoover. Ele aumentou os gastos do governo em quase 50% em termos nominais (e 87% em termos reais, considerando-se a deflação da época). Não satisfeito, elevou a alíquota máxima do imposto de renda de 25% para 63%.
Hoover implantou tudo aquilo que ele, como um engenheiro, imaginou que traria a economia de volta à prosperidade. Ele só não fez exatamente aquilo que seria o certo: deixar o livre mercado curar a situação, exatamente como em 1921.
Uma recessão que não deveria durar mais do que dois anos se transformou em uma depressão que durou 15 anos.
E ainda há quem diga que Herbert Hoover foi um adepto inflexível do laissez-faire.
Conclusão
Ao contrário do senso comum ensinado nas escolas e universidades, uma queda no valor das ações na bolsa (que foi o que aconteceu em 1929) por si só não gera depressão.  Em 1987, por exemplo, a bolsa americana caiu 22% e não houve depressão. 
O crash da bolsa de Nova York em outubro de 1929 teve suas origens na expansão do crédito feita pelo Federal Reserve em concerto com o sistema bancário de reservas fracionárias ao longo de toda a década de 1920.  Tal expansão gerou um boom sem precedentes no mercado de ações, levando a uma euforia especulativa generalizada.  Quando a expansão do crédito foi interrompida em decorrência de pressões inflacionárias, a euforia foi abruptamente interrompida, e deu-se início ao processo de correção.
A Grande Depressão, na verdade, não precisaria durar mais de um ano caso o governo americano permitisse ampla liberdade de preços e salários (exatamente como havia feito na depressão de 1921, que foi ainda mais intensa, mas que durou menos de um ano justamente porque o governo permitiu que o mercado se ajustasse).

Porém, o governo fez exatamente o contrário: além de aumentar impostos e gastos, ele também implantou políticas de controle de preços, controle de salários, aumento de tarifas de importação (que chegou ao maior nível da história), aumento dos gastos do governo, e aumento de impostos. Para piorar: ele estimulou uma arregimentação sindical de modo a impedir que as empresas baixassem seus preços. 
Em 1933, entrou em cena Franklin Delano Roosevelt, que simplesmente deu continuidade às políticas intervencionistas de Hoover, inacreditavelmente prolongando a Depressão até 1946.

Um simples crash da bolsa de valores foi amplificado pelas políticas intervencionistas e totalitárias do governo, gerando uma depressão que durou 15 anos e que só foi resolvida quando o governo encolheu, em 1946.

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Leituras complementares e obrigatórias:
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Lee Ohanian é professor de economia da UCLA.
Leandro Roque é o editor e tradutor do site do Instituto Ludwig von Mises Brasil. 
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