O cérebro humano é fascinante: meu segundo órgão favorito, terceiro se contar o fígado. Em pouco mais de 1,5 kg de uma gosma melada com consistência de geléia de mocotó temos a estrutura mais complexa do Universo conhecido, com recursos e poderes que a gente muitas vezes nem percebe. Por exemplo: feche os olhos, sacuda os braços, tente encostar a ponta dos seus indicadores. Pois é, seu cérebro tem uma noção exata de onde estão todas as partes do seu corpo, independente da visão.
Aqui surge um problema: o cérebro não evoluiu para lidar bem com a perda de uma parte do corpo, em geral você morria logo ou não se reproduzia, então não há uma vantagem evolucionária em lidar bem com essas perdas. Com o avanço da Ciência (você não, Tedson) revelamos um bug, conhecido como Síndrome do Membro Fantasma.
Após uma amputação, de 60% a 80% dos pacientes relatam ainda sentir o membro perdido, em geral com sensação de dor. E nada resolve: há tratamentos com antidepressivos, analgésicos, mas os resultados são muito inconclusivos.
Um método que funciona bem em alguns casos é a caixa de espelhos, criada pelo neurocientista indiano Vilayanur S. Ramachandran. Ele teve uma paciente que havia perdido a mão, mas sentia dores terríveis, que descrevia como se estivesse apertando o punho com extrema força, sem parar. O Dr Ramachandran então teve uma idéia: construiu uma caixa com espelhos, a paciente colocava os dois braços nela, mas via o braço normal e no lugar do amputado, um reflexo da mão normal.
Ele instruiu a paciente a fechar punho normal, se concentrar no da mão amputada, e visualizar a mão abrindo, enquanto abria a remanescente.
O tratamento funcionou, e ela parou de sentir dor.
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TECNICAMENTE é algo psicológico, já que acontece no cérebro, mas também é fisiológico. A hipótese mais recente acha que a síndrome do membro fantasma é causada por ruídos nos terminais nervosos que levam ao cérebro sinais do membro perdido. É possível também que aquela região, depois de privada de sinais por algum tempo, comece a gerar picos aleatórios de eletricidade, e o feedback interno leve à dor.
No caso do título, a situação é mais curiosa ainda:
A paciente com 18 anos sofreu um acidente de carro, e depois de seis meses os médicos decidiram amputar sua mão. Só que ela nasceu com um defeito de nascença e só tinha três dedos: médio indicador e aquele que o Lula cortou.
Ela começou a desenvolver síndrome de membro fantasma, e relatar dores. Ela foi parar no consultório do Dr Ramachandran, que descobriu que a fonte da dor da paciente eram… o polegar e o indicador.
A “mão-fantasma” da paciente tinha cinco dedos, com o polegar e o indicador menores, mas existentes. Mesmo tendo sido condicionado a vida inteira a lidar com apenas três dedos, o cérebro da paciente sabia que uma mão normal tem cinco dedos (sorry, Cicarelli) e na ausência de input, votou ao modo default.
Usando a caixa de espelhos, o Dr Ramachandran conseguiu reverter o quadro, fazendo depois de várias sessões os dedos novos crescerem até o tamanho normal (link do paper).
Essa descoberta é um excelente sinal de que mesmo em casos de deficiências gravíssimas de nascença, o cérebro tem o firmware pronto para lidar com um corpo plenamente funcional, mesmo que robótico. E dá pra ir mais adiante: visto que Evolução é uma imensa gambiarra, provavelmente ainda temos estruturas abandonadas usadas para controlar coisas como asas, caudas e garras retráteis.
Em parceria com o professor de física Thomas Hertog, o trabalho chamado A Smooth Exit from Eternal Inflation foi revisado pela última vez em 4 de março e ainda precisa de uma última aprovação antes de ser publicada oficialmente. O conteúdo do artigo afirma que é possível encontrar evidências de um universo paralelo ao nosso (ou vários) através da datação de radiação no espaço profundo. Para confirmar a hipótese, seria necessário enviar uma sonda espacial para coletar as evidências.
Em 1983, Hawking descreveu que nosso Universo está em uma eterna expansão a partir de um pequeno ponto no espaço. Só que, para a tese fazer sentido, era necessário que o nosso Big Bang fosse acompanhado por infinitos outros, produzidos em diferentes universos. Foi a partir disso que surgiu a hipótese do cientista sobre do multiverso e que culminou no último estudo da sua vida – ele também abordou o nosso fim: desaparecer eventualmente na escuridão à medida que todas as estrelas esgotarem sua energia.
Stephen Hawking nunca escondeu que desejava ganhar um Nobel, chegando até a falar sobre isso abertamente em palestras. Caso consigam comprovar a teoria dos universos paralelos, ele certamente seria digno da honraria que tanto almejou. Infelizmente, as regras do Nobel não permitem premiações póstumas.
Uma das portas para universos paralelos, ele acreditava, seriam os buracos negros. “Se você cair em um buraco negro, não desista. Existe uma forma de sair de lá”, afirmou o físico em uma conferência no Instituto Real de Tecnologia de Estocolmo, como uma metáfora para a depressão.
Infelizmente a produtividade agregada brasileira está estagnada há mais de três décadas. Tivemos alguns episódios de crescimento, mas não se sustentaram. O Brasil não está se aproximando dos países desenvolvidos no que toca à renda per capita.
A agenda da produtividade está colocada e deverá ser alvo da próxima eleição presidencial. Que políticas públicas são recomendáveis para avançarmos nessa dimensão, deixando um país melhor e mais justo para nossos filhos e netos?
Uma das políticas em discussão é a abertura comercial. Na semana passada, a Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos divulgou documento com propostas para abertura comercial, incluindo redirecionamento de políticas públicas para reduzir impactos adversos sobre trabalhadores que venham a perder empregos em indústrias afetadas pela competição externa.
O Brasil é um país fechado para os padrões internacionais. Em parte porque está fisicamente distante dos principais mercados mundiais, como Estados Unidos, Europa, China e Japão. Mas também porque temos políticas comerciais que restringem o comércio com outros países, incluindo altos impostos sobre importação (as chamadas tarifas) e outros tipos de barreiras (como políticas de conteúdo nacional e procedimentos muito burocráticosassociados à entrada de produtos estrangeiros).
Essas restrições são particularmente fortes para produtos manufaturados. Ao longo dos últimos anos, os avanços que tivemos nessa área ocorreram na primeira metade da década de 1990, com um processo de liberalização comercialque reduziu a proteção quase proibitiva em diversos setores da atividade econômica.
Entretanto, desde 1995 não houve reduções adicionais significativas, e mais recentemente observamos certo retrocesso. Por exemplo, requerimentos de conteúdo local passaram a ser empregados com frequência. O Brasil inclusive foi condenado pela OMC (Organização Mundial do Comércio) por praticar políticas que beneficiam produtos nacionais em detrimento de estrangeiros.
Justamente essa primeira metade da década de 1990 foi um dos poucos períodos em que observamos algum ganho de produtividade. Claro, isso por si só não significa que a liberalização provocou tal movimento. Mas trabalhos acadêmicos encontram evidências de que os ganhos de produtividade estiveram, pelo menos em parte, associados à redução da proteção.
Isso porque setores e firmas mais afetados pela redução das tarifas foram aqueles que observaram maiores aumentosde eficiência produtiva.
Por que a exposição ao comércio afeta a produtividade? Há vários canais enfatizados na literatura econômica. Ao abrir a economia, as firmas locais passam a sofrer maior competição externa, o que pode forçá-las a sair da “zona de conforto” e adotar tecnologias mais modernas para continuarem competitivas.
Adicionalmente, a pressão competitiva faz com que as firmas menos eficientes sejam incapazes de se manter no mercado. Isso libera recursos escassos da economia (como capital, trabalho, talento gerencial etc.) para as empresas sobreviventes, que são mais produtivas. Em outras palavras, os recursos escassos passam a ser mais bem empregados, pois se concentram em atividades de maior eficiência, contribuindo para alavancar a produtividade do país.
O comércio ainda ajuda a produtividade na medida em que as empresas locais passam a ter acesso a máquinas e insumos mais baratos e modernos, vindos de fora. Háevidências de que esse canal foi importante no processo de crescimento da produtividade observado nos anos 1990.
Esses potenciais ganhos de produtividade, todavia, tendem a não se distribuir uniformemente entre os cidadãos do país. Claramente os consumidores se beneficiam, pois têm acesso a produtos mais baratos por causa da competição externa, além de uma gama maior de bens e serviços vindos de fora. Firmas que conseguem aumentar eficiência com a importação de insumos e máquinas estrangeiros também saem ganhando.
Todavia, enquanto alguns setores se expandem, outros sofrem com a competição externa. Trabalhadores podem perder empregos como consequência, e sua recolocação nas indústrias favorecidas pela abertura não é imediata. Podem passar um bom tempo no desemprego ou migrar para o setor informal para aliviar a penúria temporária.
Em outras palavras, esses trabalhadores podem sofrer perdas significativas no processo de ajuste. Mas isso não quer dizer que a abertura não deva ser levada a cabo, pois abriríamos mão de ganhos que tendem a beneficiar a economia como um todo.
O ideal é direcionar políticas públicas para reduzir essas perdas temporárias dos trabalhadores mais severamente afetados pela abertura. O seguro-desemprego é uma ajuda nessa situação complicada, mas não é suficiente, dado que a transição para outros setores não é nada trivial, podendo o trabalhador demorar muito tempo para se recolocar no mercado de trabalho.
Políticas de treinamento direcionadas a habilidades que facilitem a entrada desses trabalhadores nas indústrias em expansão são também um elemento importante. Elas podem ajudar na recolocação dos trabalhadores, dando assim acesso a oportunidades possibilitadas pela abertura comercial.
O legado real de Angela Merkel: áreas sem lei que a polícia tem medo de patrulhar, onde metade dos habitantes locais tem origem estrangeira e a língua alemã é uma raridade
A abertura de fronteiras na Alemanha promovida pela chanceler Angela Merkel em resposta à crise dos refugiados tem sido um desastre para o distrito de Marxloh, perto de Duisburg. Um relatório policial descobriu que as ruas são controladas por traficantes de drogas e ladrões.
Metade dos 20 mil moradores deste subúrbio industrial que outrora já foi próspero tem origem estrangeira, muitos chegam graças à uma oferta da Irmandade alemã e à chanceler Angela Merkel. O resultado da maior crise migratória da Europa desde a Segunda Guerra Mundial tem sido desastroso para Marxloh.
Muitos dos recém-chegados estão desempregados e, portanto, confiam nos benefícios estatais sem exercer atividade remunerada.
Um relatório policial vazado diz que as ruas são controladas por traficantes de drogas e ladrões que “vêem o crime como sua atividade de lazer”.
Quanto aos alemães que permanecem aqui, alguns ficam assustados para sair ao anoitecer devido aos “conflitos entre estrangeiros”, alegando que as viagens no transporte público pela área à noite são “pesadelo”.
“Nós temos muitos problemas aqui e eles não ficam melhores”, explica o homem da tulipa com um bom inglês enquanto ele me entrega uma floração de laranja de sua cesta.
“Este é um lugar perigoso que a senhora deputada Merkel tentou esquecer”, disse um morador. Isso foi até a semana passada, quando a chanceler reconheceu pela primeira vez que áreas como Marxloh se tornaram áreas sem lei, onde os locais, e até mesmo a polícia, temem pisar.
Ao receber mais de um milhão de novos rostos para o país em três anos, Merkel vem irritando um público alemão cada vez mais cético com o mantra “Nós podemos fazê-lo”.
Na própria praça do mercado de Marxloh, o principal restaurante ao ar livre, o Spar, é dirigido por um turco de 28 anos que passou dez anos no Wood Green de Londres.
Ele veio para a Alemanha “por causa de dificuldades familiares” há seis meses, e recusa se identificar à reportagem, mas anuncia que o distrito tem “problemas enormes”. “Há muitas pessoas de diferentes lugares do mundo que querem o controle aqui”, disse ele. “Nós não vemos a polícia com freqüência e eles parecem ficar longe das ruas”.
Seja qual for a impressão disso, Marxloh não faz ninguém se sentir seguro. Os únicos policiais encontrados num período de sete horas foram dois na praça do mercado.
Marxloh é uma das 40 áreas problemáticas citadas na mídia alemã como lutando para lidar com grandes concentrações de migrantes, decadência urbana, alto desemprego e dependência crônica do bem-estar, que se tornaram “incubadoras de anarquia”, bem como drogas e crime.
Em um artigo chamado ‘Ghetto Report Germany‘, o respeitado jornal Bild – que descreveu essas 40 áreas – as classificou como sociedades paralelas, no-go zones e ‘guetos crescentes’.
Os relatórios oficiais da polícia apresentados a outro jornal respeitado, Der Spiegel, disseram que os níveis de violência em Marxloh (e outros lugares como esse) mostram que os oficiais estão perdendo o controle e a ordem pública “não pode ser garantida a longo prazo”.
“Existem distritos onde as gangues de imigrantes estão controlando totalmente as ruas, segundo Der Spiegel. “Moradores e homens de negócios estão sendo intimidados e silenciados. Polícias são vítimas especiais de um alto nível de agressão e desrespeito.
Marxloh, a 20 minutos do centro de Duisburg, no oeste da Alemanha, costumava ser um lugar para as famílias alemãs visitarem um sábado à tarde para fazer compras, um piquenique no parque ou um café e cerveja nos cafés.
Nem muitos estrangeiros visitam aqui ou se atrevem. A maioria das mulheres usa hijabs em obediência à religião muçulmana e multidões de homens com jaquetas de couro se reúnem nas esquinas para fumar enquanto falam em línguas estrangeiras e olhando fixamente para estranhos.
Marxloh há muito tempo é um caldeirão étnico. Os primeiros estrangeiros a se estabelecerem aqui eram trabalhadores turco convidados pela Alemanha nos anos cinquenta e sessenta para trabalho de manutenção na siderurgia.
Muitos são agora cidadãos alemães. Os libaneses receberam um santuário quando foram deslocados durante uma guerra civil que começou nos anos setenta.
Quando as fronteiras da UE foram abertas para os europeus do leste há mais de uma década, também chegaram os romenos e os búlgaros. Em seguida, as decisões da Sra. Merkelconvidaram refugiados sírios, o que levou a muitos outros – muitas vezes fingindo ser verdadeiros refugiados – das áreas curdas do Oriente Médio, dos Estados dos Bálcãs e da África.
De acordo com os moradores, as ruas de Marxloh servem como fronteiras entre as gangues étnicas que protegem seu território comercializado. Uma é chamada de “estrada curda”, outra “estrada romena”.
Não é de admirar que a Sra. Merkel tenha tido que admitir que existem no-go zones em seu país. Em sua admissão surpresa na semana passada, ela disse que a segurança doméstica era a obrigação do Estado e que as pessoas tinham direito a ele sempre que se encontravam e se moviam num espaço público. “Há tais lugares, e você tem que chamá-los pelo nome e você precisa fazer algo sobre isso”, disse ela.
Palavras sábias, mas muito tarde? Ela falava algumas semanas depois que um estudo ordenado pelo governo mostrou um aumento drástico de crimes violentos cometidos por imigrantes do sexo masculino na Alemanha com idade entre 14 e 30 anos.
A pesquisa realizada por um grupo de criminologistas disse que o afluxo de requerentes de asilo levou ao pico deprimente.
Um relatório preparado para o parlamento regional sobre a quebra de lei e ordem na área de Duisburg reivindicou gangues libanesas, em particular, se recusando a reconhecer a autoridade policial. Seus membros são homens jovens entre 15 e 25 anos, e que “quase 100 %” deles – de acordo com o relatório – são procurados por suspeita de crimes, incluindo agressão física e roubo.
Em Marxloh na última Páscoa, um menino búlgaro de 15 anos foi morto com um machado tarde da noite em uma disputa entre seu pai e outros búlgaros. A criança foi arrastada para casa por sua mãe antes de morrer, deixando uma trilha de sangue no pavimento. Não é o que deveria estar acontecendo.
Dois anos atrás, Arnold Plickert, chefe regional da maior unidade policial da Alemanha, reconheceu que Marxloh e outras no-go zones, foram ignoradas por muito tempo.
O momento político para os Bórgia era conturbado. Inimigos ameaçavam a soberania da família à frente da Igreja Católica e dos reinos por ela comandados. César Bórgia, espécie de líder da guerrilha papal, colocava em prática uma de suas habilidades preferidas: prender e assassinar adversários. Rodrigo Bórgia, àquela altura o papa Alexandre VI (outro que costumava eliminar quem se opunha ao seu poder), optou por também agir. Prendeu o rival, o cardeal Orsini, nas sombrias, isoladas e precárias masmorras do Castelo de Sant’Angelo, imponente construção erguida às margens do Rio Tibre.
Era para o Sant’Angelo que Alexandre VI se retirava nos momentos introspectivos. Era a partir de lá que começaria a acertar suas contas com Orsini. Deixou o cardeal preso até que definhasse e morresse. Depois, confiscou seus bens, prendeu alguns familiares e despejou outros. Em seguida, mandou César assassinar dois sobrinhos do inimigo. Com isso, a família Bórgia se reafirmava como a grande força daquelas regiões que mais tarde seriam transformadas num único país, a Itália, bem como de outras áreas católicas, como a Espanha e a França. Abençoado, Alexandre VI, o santo homem, o papa, nem sequer se dava ao trabalho limpar o sangue sempre quente que escorria pelas suas mãos antes de se deitar – não para dormir, mas, provavelmente, para se divertir com alguma mulher.
ESPANHA EM ROMA
A família Bórgia chegou ao cargo máximo da Igreja após a Espanha ganhar importância dentro do cenário político e econômico europeu, principalmente por causa das grandes navegações. O papa – um posto, então, essencialmente político – era escolhido de acordo com os interesses das famílias mais poderosas de cada região, e chegara a hora de um espanhol poder jogar conforme os interesses de seus conterrâneos.
O papa Alexandre VI sendo apresentado a São Pedro Wikimedia Commons
Após a morte do papa Nicolau V, o cardeal Afonso Borja, de 76 anos, assumiu como papa Calisto III. “A chegada dos Borja, que passariam a se chamar Bórgia, é a entrada da própria Espanha no Vaticano”, diz Oscar Luiz Brisolara, autor de Sancta Lucrezia dei Cattanei, obra de ficção sobre Lucrécia, peça-chave na família Bórgia.
Calisto III ficou pouco mais de três anos no poder, de 1455 a 1458. Durante o mandato, fortaleceu o nome de sua família nos reinos católicos e, mais importante, colocou parentes em alguns cargos importantes. Entre eles estava seu sobrinho Rodrigo Bórgia, que, aos 27 anos, já era um dos cardeais mais influentes de Roma – ele foi o responsável pela introdução da Inquisição na Espanha em seus tempos de cardeal em Valência, que levou a julgamento mais de 13 mil judeus convertidos entre 1480 e 1492.
“Em uma época em que cada família importante tinha um cardeal, principalmente para negociar impostos e fazer articulações políticas, Calisto III colocou Rodrigo no posto de cardeal e secretário do Estado. Ele fazia a administração financeira, mantinha relações com outros reinos e países e defendia os interesses da Espanha”, afirma Brisolara.
VAGA NO CÉU
A habilidade política de Rodrigo foi fundamental para que Pio II sucedesse seu tio. A Igreja ainda passou pelas mãos de Paulo II, Sisto IV e Inocêncio VIII antes de, finalmente, em 1492, o próprio Rodrigo Bórgia tornar-se o sumo pontífice. No posto, seria um dos principais responsáveis por transformar os Bórgia em uma das famílias mais famosas e temidas de todos os tempos. Como Alexandre VI, intensificou o nepotismo e nomeou familiares para dezenas de cargos próximos e importantes. Agindo como dono de toda a fortuna e propriedades da Igreja Católica, distribuía terras e dinheiro. Para seu filho Pedro (sim, filho, mesmo em uma época em que o celibato já era exigência da Igreja) comprou o ducado de Gandía, na Espanha. Também construiu um enorme palácio repleto de símbolos de ostentação em frente à Santa Sé para que tivesse uma residência à altura de seu poder. Apesar das fontes de receita da Igreja serem diversas e muito rentáveis, logo precisaram ser ampliadas para que seus gastos fossem cobertos. As vendas de indulgências dispararam – jamais foi tão fácil comprar uma vaga no céu.
“Alexandre VI passou a tratar os territórios pontifícios como sendo dos Bórgia, isso causou um choque com outras famílias poderosas. Ele também fez um uso muito grande da simonia, a venda dos cargos eclesiásticos. Nenhum cardeal foi nomeado sem ter comprado o posto. Esse dinheiro ajudava na contratação de exércitos mercenários, usados para incrementar ameaças com poderio militar, algo fundamental para se tecer a diplomacia”, diz Rui Luis Rodrigues, especialista em história moderna.
Antes mesmo de assumir o papado, Rodrigo começou a demonstrar sua força e dar indícios de como seria seu mandato. Durante o conclave que o elegeu, Roma vivia um período de extrema violência – os assassinatos chegavam à casa das centenas. Assim que foi eleito, resolveu dar uma resposta à situação. Mandou identificar os bandidos, ordenou a destruição de suas casas e que fossem enforcados no lugar em que moravam, para ficarem expostos e servir de exemplo para a população. No dia 26 de agosto, quando foi nomeado papa, tinha a cidade em paz e aos seus pés.
O tratamento dado aos assassinos seria muito parecido ao dispensado àqueles que tentavam se opor à família Bórgia. Se alguém se colocasse no meio dos interesses políticos, não havia pudor em matá-lo. Uma das práticas mais comuns era o envenenamento – normalmente uma substância letal colocada na comida ou na bebida do inimigo. Com a desculpa de proteger os cristãos dos muçulmanos, Alexandre VI criou a Santa Liga, um exército do cristianismo, e nomeou Giovani, seu filho mais velho, comandante. César, o rebento mais novo, destinado à vida na Igreja, não gostava do papel que lhe cabia. Após um jantar em família, matou Giovani e se desfez do corpo no Tibre. O pai descobriu que César assassinara o irmão e optou por findar as investigações para que o caso não se transformasse em escândalo. Antes de completar 18 anos, César Bórgia se tornou cardeal, chefe militar, líder das tropas papais – e um frio assassino. Na prática, o braço armado da Igreja virou um instrumento de conquista e intimidação e César despontou como líder sanguinário, que não titubeava em resolver qualquer pendência de maneira sinistra.
LASCÍVIA
A imagem da chamada, da série de quadrinhos de Milo Manara - o mais célebre quadrinista erótico do mundo -, não é por acaso.
Além de Pedro, Giovani e César, Rodrigo Bórgia já era pai de outros quatro filhos que moravam em Roma, de relacionamentos com mulheres diferentes. Para manter as amantes por perto, ordenava que casassem com funcionários da Igreja. Com isso, atenuava os boatos acerca da fama de mulherengo. Como Alexandre VI, manteve durante muito tempo uma relação com Giulia Farnese, amiga de sua filha Lucrécia, com quem começou a se engraçar quando a menina tinha 15 anos – os dois provavelmente tiveram uma filha. Os boatos diziam que o papa mantinha um grande leque de prostitutas à disposição para utilizar junto com os filhos, muitas vezes em orgias sob teto santo. As lascívias poderiam envolver até mesmo Lucrécia, que, num jogo incestuoso, manteria relações sexuais com seu pai e seu irmão César.
O que realmente se prova é como Lucrécia acabou utilizada como fantoche por César e Alexandre VI. Aos 13 anos, a garota foi obrigada a se casar. O marido era Giovanni Sforza, a princípio um aliado da família Bórgia. Logo ele se mostrou uma ameaça. Não demorou e surgiram pressões para que o casamento se encerrasse. Sforza até tentou resistir, mas, após César ameaçá-lo de morte, achou melhor aceitar a decisão. Alexandre VI garantiu que o casamento não havia sido consumado porque Sforza era impotente.
O segundo marido de Lucrécia não teve a mesma sorte. Quando a relação entre a menina e Alfonso de Aragão se tornou politicamente desinteressante, ele foi atacado por quatro homens na escadaria da Basílica de São Pedro. Conseguiu sobreviver, mas não por muito tempo. Enquanto se recuperava, foi estrangulado.
César Bórgia Wikimedia Commons
Todos sabiam que César Bórgia era o mandante do crime. Lucrécia ficou abalada, mas não havia espaço para lamúrias. As alianças e manobras políticas precisavam continuar. Aos 21 anos, a filha mais querida do papa estava indo para o seu terceiro casamento, com Alfonso d’Este, filho do Duque de Ferrara, com quem permaneceria pelo resto da vida.
PONDERAÇÃO
“Acredito que as orgias e os incestos façam parte das lendas que buscam atacar os Bórgia, vindas dos inimigos da família. O papa tinha uma vida sexual sabidamente intensa, e algumas fontes sugerem que César tinha, sim, fixação pela irmã, mas, quando olhamos a trajetória de Lucrécia, é difícil acreditar em incesto”, diz Rodrigues. O especialista da Unicamp faz uma importante ponderação sobre a família Bórgia: “Os valores morais eram outros, temos que ter isso em mente para não cometermos o anacronismo de julgarmos o que aconteceu com os olhos de hoje. Determinadas práticas, como o assassinato e o envenenamento, eram usados por todos os tiranos da região”, afirma Rodrigues. “No caso dos Bórgia, o agravante foi a concentração de poderes seculares e religiosos. Esses fatos, aliados a produções artísticas exageradas, sem pesquisa histórica séria, faz com que o imaginário no entorno da família cresça bastante. Acredito que, se dermos os devidos descontos, eles cometeram, sim, atos condenáveis, mas numa situação em que agir dessa maneira, matar rivais, dar filhas a casamentos de interesse, vender cargos eclesiásticos, não era estranho. Eles não eram uma aberração dentro da realidade do Renascimento.”
Brisolara reforça esse ponto de vista: “Os assassinatos políticos acontecem até hoje”. Com exageros e anacronismos históricos ou não, ironicamente, o veneno, uma das armas dos Bórgia, talvez tenha sido o motivo que os levou à queda. Alexandre VI faleceu em 18 de agosto de 1503, aos 73 anos. Há duas versões: uma defende que ele morreu em decorrência da malária, enquanto outra garante que foi vítima de envenenamento por arsênico. Na ocasião, César estava gravemente doente – há indícios de que o assassino tentou matar pai e filho, que sobreviveu por ser mais jovem. Ao se recuperar, César enfrentou articulações políticas contrárias aos Bórgia. Logo suas cidades foram tomadas e as fontes de renda secaram. César foi preso e levado à Espanha, de onde fugiu e retornou à península italiana. Mas a vida clandestina não duraria muito. Depois de matar inúmeros inimigos, foi assassinado em 1507, aos 31 anos. Foi-se com ele o último resquício do grande poder dos Bórgia dentro da Igreja Católica.
Além de sinônimo de traição, a história da família inspirou as obras do escritor chileno Alejandro Jodorowsky e as ilustrações do desenhista italiano Milo Manara. Entre 2006 e 2010 fizeram os quadrinhos eróticos I Borgia, que dividido em 4 volumes, retratam as histórias e lendas sobre a família Bórgia.
FAMÍLIA DO BARULHO
Rodrigo
Wikimedia Commons
Rodrigo Bórgia nasceu em 1431, no reino de Aragão, na Espanha. Aos 18 anos foi mandado para a península italiana, onde estudou direito na Universidade de Bolonha. Aos 25, já era vice-chanceler do Vaticano, cargo que lhe rendeu muito dinheiro e onde se manteve até conseguir se eleger papa – na base de compra de votos. Teve provavelmente oito filhos com cinco mulheres diferentes. Como papa, coube a ele dividir as terras da América recém-descoberta entre Portugal e Espanha, por meio da Bula Inter Coetera.
César
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Para alcançar seus objetivos ou honrar a família, envenenava, assassinava e, se preciso, esquartejava a vítima para que o crime se tornasse mais cruel. Líder do exército de Alexandre VI e apaixonado por soluções bélicas inventivas, teve Leonardo da Vinci como funcionário. Um dos homens mais ricos da península italiana, casou-se com a princesa Charlotte, da França, e recebeu o título de duque de Valentinois. César serviu de inspiração para Nicolau Maquiavel escrever O Príncipe.
Lucrécia
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Filha de Rodrigo com Giovanna dei Cattanei, suposta dona de uma rede de prostíbulos, Lucrécia inspirou diversas manifestações artísticas. Pinturicchio a retratou como Santa Catarina de Alexandria. Depois de deixar de ser instrumento de manobra política de Alexandre VI e César, viveu com seu último marido e diversos amantes, algo comum às nobres do Renascimento. Lucrécia teve 11 filhos e morreu quando dava à luz o último deles, em 1519, aos 39 anos.
SAIBA MAIS
Alexandre VI – Bórgia, o Papa Sinistro, Volker Reinhardt, 2012
O Príncipe, Nicolau Maquiavel, 2001
Sancta Lucrezia dei Cattanei, Oscar Luiz Brisolara, 2013
Os Borgia, Milo Manara e Alejandro Jodorowsky, 2004-2017