sábado, 14 de abril de 2018

Fosfoetanolamina, o “caso que envergonhou a ciência brasileira” Como o populismo aliado à ignorância científica produziu um dos piores momentos da ciência nacional em décadas



"Um caso que envergonhou a ciência brasileira”. Assim o pesquisador Luiz Carlos Dias, do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, define o curto-circuito político aplicado ao sistema brasileiro de vigilância sanitária e pesquisa clínica em nome da chamada fosfoetanolamina sintética, a chamada “pílula do câncer”, um material produzido originalmente no campus da USP de São Carlos e que, segundo alegam seus defensores – contrariando toda a melhor evidência científica disponível – é capaz de curar qualquer tipo de câncer. Dias coordenou o trabalho de caracterização do conteúdo das cápsulas de fosfoetanolamina de São Carlos encomendado, em 2016, pelo então Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Há mais de um ano, a promessa milagrosa da “fosfo” e o furor popular criado ao seu redor puseram em campos opostos o sistema político, tal como representado pela Presidência da República e pelo Congresso Nacional, e a quase totalidade da comunidade científica brasileira. Entre março e abril de 2016, o Congresso aprovou — numa votação que conseguiu irmanar, numa mesma causa, os deputados Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e Jean Wyllys (PSOL-RJ) — e depois a então presidente Dilma Rousseff sancionou a lei 13.269/16, que tornava legal o "uso da substância fosfoetanolamina sintética por pacientes diagnosticados com neoplasia maligna", bem como "a produção, manufatura, importação, distribuição, prescrição, dispensação, posse ou uso da fosfoetanolamina sintética, direcionados aos usos de que trata esta Lei, independentemente de registro sanitário". 
“O absurdo neste caso foi a Câmara dos Deputados e o Congresso Nacional terem ignorado todos os estudos realizados pelo grupo montado pelo MCTI, todas as recomendações contrárias feitas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo Ministério da Saúde, pela Associação Médica Brasileira (AMB) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e ter aprovado a liberação do uso da fosfoetanolamina sintética”, aponta Dias. 
Os efeitos da lei viriam a ser suspensos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em maio. Dois meses depois, em julho, o Instituto do Câncer de São Paulo (Icesp), instado pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) e pelo secretário de Saúde David Uip, deu início aos testes da “fosfo” em seres humanos. Mas a montanha pariu um rato: o efeito da “fosfo” nos voluntários foi tão decepcionante que a integração de novos pacientes a esses testes viu-se suspensa no fim de março de 2017. 

Peneira 

Os propositores da “fosfo” como cura do câncer contestam a conclusão de ausência de benefício, afirmando que a dose usada no estudo era inadequada. O advogado paulista Jefferson Vaz, que representa o Instituto Viva Fosfo — entidade em vias de formalização, que tem por objetivo expresso “dar orientação jurídica ao paciente oncológico” — acusa os responsáveis pelo teste paulista de desrespeitar a dosagem sugerida por Gilberto Chierice, muito embora o grupo ligado a Chierice tenha autorizado e acompanhado de perto todo o procedimento. “A posologia estava errada”, afirma Vaz. De acordo com o advogado, há conversas em andamento entre o grupo de Chierice e o Icesp para uma revisão do protocolo. 
Professor aposentado da USP de São Carlos, Gilberto Orivaldo Chierice é a principal figura na criação da fosfoetanolamina sintética, e foi o responsável pela distribuição informal das cápsulas contendo a substância a um número desconhecido de pacientes de câncer, mas estimado em pelo menos 20 mil, por mais de 20 anos. 
“Não existem estudos sobre posologia ou farmacocinética da fosfoetanolamina sintética”, acusa a pesquisadora Natalia Pasternak Taschner, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, e uma das críticas mais vocais da forma como a questão da “fosfo” foi conduzida pelas autoridades. A farmacocinética é o estudo da forma como as drogas são absorvidas e distribuídas no organismo. 
“As etapas in vitro (testes em cultura de células) e in vivo (testes em animais) foram queimadas por clamor popular, e só por isso”, acrescenta. Ela lembra que os testes de laboratório e em animais conduzidos a pedido do antigo MCTI (órgão que acabou extinto pelo governo Michel Temer e incorporado ao Ministério das Comunicações) tinham caráter preliminar e não haviam atingido a sofisticação necessária para, por exemplo, apontar as doses mais adequadas para uso em seres humanos. Mesmo esses ensaios preliminares já indicavam que a substância era inútil para o tratamento do câncer. 
Taschner acrescenta que os relatórios do MCTI mostravam que o conteúdo das cápsulas distribuídas por Chierice aos pacientes que o procuravam em São Carlos era inconsistente: a embalagem falava em 500 mg por cápsula, mas o conteúdo real oscilava entre 300 mg e 400 mg. “E os estudos em camundongos não fizeram uma curva de dose, e usavam administração intraperitoneal (injeção no abdome), não oral. Falar em dosagem, agora, é tentar tapar o sol com a peneira”, critica. 
“Pior ainda foi a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) ter aprovado o ensaio clínico, que envolve seres humanos, da fosfoetanolamina sintética baseado apenas em relatos não documentados de pacientes ‘tratados’, ignorando os riscos para os participantes”, disse Dias, por sua vez. “A Conep aprovou os estudos clínicos que foram realizados no Icesp”. 
O coordenador da Conep, Jorge Venancio, disse que considera essa uma crítica “obscurantista”. “Não temos nenhuma evidência de malefício com a substância, até agora. Todos os testes foram unânimes em dizer que a substância não causa prejuízo às pessoas. O problema na pesquisa foi de eficácia, não de causar prejuízo às pessoas. Não consigo compreender a lógica de não querermos pesquisar uma substância que estava causando uma grande procura na sociedade. Era necessário dar uma resposta clara a isso”. O coordenador acrescenta que, se a “fosfo” tivesse se mostrado eficaz, seria um medicamento muito barato. “Não temos compromisso com o medicamento de alto custo”, enfatizou. 
Assim como Venancio, a médica Milena Mak, pesquisadora do Icesp, diz que os ensaios foram aprovados não apenas pela Conep, mas também pela Faculdade de Medicina da USP. “A ideia foi fazer um estudo pragmático, dado o fato de que havia o relato de milhares de pessoas que haviam feito o uso da droga sem nenhum relato de evento adverso sério, algo que foi comprovado pelo nosso estudo”, afirma. “Tudo isso foi avaliado, partindo dessa premissa, de que havia esses relatos informais de que pessoas haviam feito uso da substância sem efeitos colaterais mais graves. Para garantir isso também, tudo foi iniciado com um número pequeno de participantes, com o objetivo primário de avaliar a toxicidade”. 
A médica afirma que, dos 72 pacientes que vinham recebendo a “fosfo” no momento em que foi anunciada a suspensão da inclusão de novos voluntários nos testes, alguns seguem recebendo a droga, mas não pôde precisar o número. “Como ainda não há comunicação oficial sobre a continuidade dos testes, não tenho como lhe passar esses dados agora”, diz. Mas ela confirma que há negociações para uma revisão de protocolo. “A ideia é fazer uma nova emenda no protocolo. Essa emenda está sendo analisada pelo professor Chierice. A gente está aguardando um posicionamento, então ainda não há prazo”. 
A literatura científica não recomenda otimismo: uma perspectiva publicada em 2007 em Nature Reviews: Drug Discovery apontava que menos de 5% das drogas contra o câncer que iniciam testes em seres humanos chegam a se tornar medicamentos. 
Estudo publicado em 2014 no American Journal of Translational Researchmostrava que apenas 8% dos testes de tratamentos de câncer validados em animais se traduzem em tratamentos úteis para seres humanos – e essa etapa de validação em animais foi uma que a fosfoetanolamina sintética sequer percorreu de modo completo. Agora, em 2017, trabalho publicado em eLife sobre a reprodutibilidade da pesquisa oncológica sugere que até 60% dos estudos sobre biologia do câncer, até mesmo alguns que já deram origem a testes clínicos, podem ter problemas. E isso, tratando-se de estudos que, ao contrário da “fosfo”, não queimaram etapas. 

A história da ‘fosfo’

A narrativa dos primórdios da saga da fosfoetanolamina de São Carlos é contraditória. Em 1979, artigo de autoria de pesquisadores japoneses, publicado no periódico PNAS, sugeria uma associação entre essa molécula e o câncer de mama. Teria sido essa a publicação que inicialmente chamou a atenção de Chierice para o vínculo entre a molécula e o câncer — mas o químico brasileiro inverteu o raciocínio original, apresentando a hipótese de que a alta concentração da molécula na região do tumor seria uma reação do organismo em busca da cura. 
“A literatura sobre fosfoetanolamina dizia que ela era um elemento oriundo do câncer. Mas não podia ser: porque a fosfoetanolamina era uma substância contida em toda membrana celular. Mais: era contida no leite materno, tinha vários lugares que ela aparecia. Isso me deixou intrigado, e a ideia de que o organismo estaria combatendo o câncer, e por isso ali haveria uma alta concentração de fosfoetanolamina, despertou os trabalhos para o uso de fosfoetanolamina em câncer”, disse o professor, no início do discurso que proferiu, em 11 de junho de 2016, num auditório lotado do Hotel Excelsior, junto à Praça da República, no centro histórico da capital paulista. 
Ali, no Seminário Fosfoetanolamina em Debate, patrocinado pelo Sindicado dos Farmacêuticos do Estado de São Paulo, Chierice viveu uma apoteose: quando chamado a compor a mesa, recebeu mais de meio minuto de aplausos em pé, assovios e ovações ininterruptos de cerca de duas centenas de fãs extasiados. Parte significativa do evento foi ocupada por pacientes de câncer que atribuíam a sobrevivência ao produto do químico de São Carlos. 
Em seu discurso, o professor aposentado repetiu a história, relatada também em fóruns oficiais como o Senado Federal, de que sua fosfoetanolamina já havia sido testada cientificamente em seres humanos, contra cinco tipos de câncer e com sucesso, na década de 90, no Hospital Amaral Carvalho de Jaú, cidade do interior do Estado de São Paulo e próxima a São Carlos. 
Por razões nunca devidamente esclarecidas, os testes teriam sido encerrados e os médicos envolvidos teriam, então, passado a recomendar que seus pacientes fossem, informalmente, buscar as cápsulas em São Carlos, onde a equipe de Chierice deu continuidade à produção. O Amaral Carvalho, no entanto, sempre negou, ao longo de todo esse tempo, ter sido palco de testes de fosfoetanolamina em humanos, negativa que foi reiterada à reportagem da Gazeta do Povo. 
De qualquer modo, a prática da distribuição das cápsulas “contra o câncer” continuou e se expandiu ao longo de duas décadas, tornando-se, segundo alguns são-carlenses, parte do “folclore” da cidade. Mas em junho de 2014, após a aposentadoria de Chierice, o Instituto de Química da USP de São Carlos baixou portaria proibindo a produção, embalagem ou distribuição de medicamentos que não tivessem os devidos registros e licenças legais. 

O clamor

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Embora não citasse a fosfoetanolamina pelo nome, a portaria a atingiu diretamente. Pacientes inconformados passaram a procurar a Justiça e a imprensa. Por fim, uma série de reportagens da EPTV, afiliada da Rede Globo no interior paulista, veiculada a partir de agosto de 2015, transformou a fosfoetanolamina de São Carlos em fenômeno nacional. Uma das chamadas da época, ainda encontrada no site da emissora, é enfática: traz uma foto de Chierice, com a seguinte declaração em destaque: “a fosfoetanolamina está aí, à disposição, para quem quiser curar câncer”. 
Tribunais foram inundados com ações exigindo acesso à droga. O caso logo chegou às cortes superiores: em outubro, o ministro do STF Edson Fachin concedeu liminar a um paciente do Rio de Janeiro e, ato contínuo, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, que vinha mantendo uma postura mais circunspecta, passou a liberar liminares também. Em dado momento, a Universidade de São Paulo se viu forçada pela Justiça a fazer a fabricação, formalmente ilegal, de um medicamento sem registro. Nesse mesmo período, o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo autuou a Universidade por produzir a “fosfo” num laboratório inadequado à fabricação de medicamentos para consumo humano. 
Os agentes políticos não tardaram em ver a oportunidade: em novembro, o então ministro do MCTI, Celso Pansera, anunciou uma provisão de R$ 10 milhões, com liberação imediata de R$ 2 milhões, para o estudo da molécula. No mesmo mês, o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), que é médico, não só fez questão de aparecer nas redes sociais em fotos ao lado de Chierice como ainda anunciou que colocava “à disposição do pesquisador toda a estrutura do Estado, como hospitais, institutos de pesquisa (...) para ajudar na conclusão das etapas para aprovação final da substância”. 
O Judiciário acabou isentando a USP da obrigação de produzir cápsulas para atender a liminares, mas com o anúncio de que o laboratório PDT-Pharma, baseado em Cravinhos (SP), assumiria a fabricação da droga para suprir os testes clínicos anunciados pelo governo paulista, ações de busca e apreensão passaram a ser impetradas para confiscar parte do material e entregá-lo a pacientes. Como os voluntários integrados ao estudo paulista seguem recebendo a “fosfo”, a produção continua até hoje. Com isso, as buscas e apreensões prosseguem. Na página do Instituto Viva Fosfo no Facebook, o advogado Jefferson Vaz aparece em um vídeo, datado de 13 de maio, enumerando os documentos necessários para fazer a solicitação. 

A cápsula 

A fosfoetanolamina é uma molécula que existe naturalmente no corpo humano, e é um componente importante das membranas celulares. Métodos para a síntese – isto é, a produção artificial – da fosfoetanolamina existem pelo menos desde a década de 50, e há variedades sintéticas que são vendidas, fora do Brasil, como suplementos alimentares. Chierice e seus associados argumentam, no entanto, que o processo desenvolvido na USP de São Carlos – e cuja patente foi requerida por eles em 2008 – produz a molécula de um modo diferenciado, o que lhe confere propriedades especiais no combate ao câncer. 
Essa visão, no entanto, entra em choque não só com os resultados do ensaio clínico do Icesp, como também com as análises realizadas pelo grupo de cientistas encarregado pelo antigo MCTI de estudar as cápsulas fabricadas na USP de São Carlos, e seus efeitos contra o câncer. 
“Todos os resultados publicados pelo grupo montado pelo MCTI mostravam que as cápsulas eram muito impuras, havia muito pouco da chamada fosfoetanolamina sintética, que este material não tinha nenhuma atividade anticâncer”, enumera Luiz Carlos Dias, da Unicamp. 
Além de analisar o conteúdo das cápsulas fornecidas por São Carlos, a equipe de Dias tentou reproduzir o processo de fabricação descrito por Chierice em seu pedido de patente. Em entrevista à Rádio e Televisão Unicamp, disponível online, Dias descreve o resultado desse esforço, dizendo que o grupo de São Carlos "não sabe o que tem nas cápsulas", e que os criadores da "fosfo" na verdade apenas "pensam" que estão fazendo fosfoetanolamina sintética. A reação descrita na patente "não ocorre", afirma o pesquisador. "Eles estão apenas degradando o material". 
Chierice, que desde a divulgação dos primeiros resultados negativos de testes tem evitado contato com a imprensa, disse ano passado, em aparição no Programa do apresentador de TV Carlos Roberto Massa, o Ratinho, que acredita que tenha havido “equívocos” no trabalho da Unicamp. No evento do Sindicato dos Farmacêuticos, ele se referiu ao trabalho do MCTI como “infantil”. Dias afirma que já convidou a equipe de São Carlos a visitar seu laboratório e acompanhar os procedimentos, mas o convite não foi aceito. 
“Os descobridores da fosfoetanolamina sintética divulgaram que a mesma curava vários tipos de tumores malignos, mas eles nunca apresentaram documentação comprovando isto. Eles nem conheciam o conteúdo das cápsulas de fosfoetanolamina sintética. Nós mostramos a eles o que havia dentro das cápsulas, e eles decidiram desqualificar o trabalho feito pelo grupo montado pelo MCTI”, disse o pesquisador da Unicamp. 

A ciência 

Desde a eclosão do clamor popular em torno da fosfoetanolamina, a comunidade científica brasileira olha para o fenômeno com desconfiança. As razões aparecem, com clareza, em nota divulgada logo no início da polêmica pela Academia Brasileira de Ciências (ABC): primeiro, as etapas de avaliação pré-clínica e clínica de um novo medicamento não são luxos, mas necessidades, para evitar a entrada no mercado de produtos ineficazes ou, mesmo, danosos. A opinião de um grupo de pacientes, sem acompanhamento estatístico, nunca é suficiente para comprovar um tratamento, não importa o quanto essas pessoas se digam satisfeitas. Por isso, o fato de a fosfoetanolamina de São Carlos ter sido distribuída, sem controle nenhum, por duas décadas é um péssimo cartão de visitas. 
Em segundo lugar, aponta a nota, “não existe um tipo único de câncer, mas uma enorme gama de doenças médicas caracterizadas pelo crescimento exagerado e descoordenado de células (...) Assim, em cada caso particular de câncer, há a necessidade da demonstração da eficácia clínica do medicamento e de compará-lo com outras terapias já existentes”. A insistência de Chierice de que sua cápsula é útil contra todas as versões da doença não soa plausível. E tudo piora quando ele afirma que a eficácia da “fosfo” existe porque “toda célula cancerígena é anaeróbica”, isto é, produz energia sem consumir oxigênio — alegação que é simplesmente falsa. 
“O grupo de São Carlos defende a tese de que todas as células tumorais são anaeróbias, talvez em alusão ao efeito Warburg, proposto em 1926”, disse Natalia Taschner. Otto Heinrich Warburg (1883-1970) foi biólogo alemão, ganhador do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1931. “Warburg observou que grande parte das células tumorais fazia glicólise – ou respiração anaeróbica – mesmo em presença de oxigênio. Isso faz com que as células tumorais utilizem quantidades enormes de glicose, já que a glicólise produz bem menos energia. Esse fato serve de base inclusive para a tecnologia utilizada em testes diagnósticos como o PET-scan, que consegue visualizar células tumorais avidamente utilizando glicose marcada com radiação”. 
A pesquisadora prossegue: “O efeito de Warburg existe, e é realmente uma marca da maioria das células tumorais. No entanto, um mesmo tumor pode conter células que operam sob efeito de Warburg e células que seguem respirando normalmente. Um mesmo tumor também pode apresentar fases onde predomina o efeito Warburg e fases onde predomina a respiração aeróbica. Assim, é errado generalizar. E não, o efeito Warburg não causa o câncer, como afirma o pessoal de São Carlos, ele é apenas uma característica de muitas células tumorais”. 
Durante o debate sobre fosfoetanolamina no Hotel Excelsior, Salvador Claro Neto – outro coautor do pedido de patente da “fosfo”, junto com Chierice – apresentou uma “teoria do câncer”, abraçada pelo grupo, segundo a qual a origem primeira do tumor reside no bloqueio da respiração normal da célula, realizada pelas mitocôndrias, e não em fatores genéticos. A “fosfo” funcionaria reativando as mitocôndrias e a respiração normal, o que chamaria a atenção do sistema imunológico para a necessidade de atacar o câncer. Em vista da biologia atual, nada disso faz sentido. 
“O grupo de São Carlos se baseia nesta mitocôndria ‘parada’ descrita por Warburg e afirma que a fosfoetanolamina a faz voltar a funcionar, e que esta ativação faz com que o sistema imune identifique a célula e a destrua. Mas ‘mitocôndria parada’ não existe. Existe mitocôndria produzindo energia ou mitocôndria comprometida em fazer precursores para proliferação celular, e a alternância entre estes dois estados é natural e fisiológica, não levando células à morte ou reconhecimento pelo sistema imune”, afirma Wagner Montor, professor de Bioquímica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. 
“Poderíamos considerar que talvez a fosfoetanolamina promova esta alternância de função, e com isso ocorra a morte celular, por algum mecanismo desconhecido. Mas o fato é que não há evidências científicas de que a fosfoetanolamina promova esta alternância, ou que esta alternância ative o sistema imune, ou que esta alternância seja causa de morte celular. O grupo de São Carlos não mostra nenhuma evidência que convença qualquer outro bioquímico”, acrescenta Montor. “Claro, se a ‘fosfo’ funcionasse, a gente usava primeiro e ia atrás do mecanismo de ação depois. Há vários medicamentos que funcionam e cujo mecanismo de ação ainda não é claro, mas o mais importante é sempre o benefício para o paciente. Mas não é isso que as evidências da fosfo mostram”. 
Independentemente do suposto mecanismo exato de ação, alguns estudos assinados por Chierice, em parceria com a equipe do pesquisador Durvanei Maria, do Instituto Butantã, de São Paulo, avaliando os efeitos da fosfoetanolamina em culturas de células e animais foram publicados na literatura internacional entre 2012 e 2016, e se encontram indexados na base internacional PubMed. Todos apontam resultados considerados “promissores” pelos autores, mas sem maior repercussão na cena científica mundial. 
“Qualquer coisa proposta ali é irrelevante, à luz dos resultados das análises da Unicamp”, aponta Natalia Taschner. “Os artigos indexados na PubMed pressupõem uma fosfoetanolamina sintética com 95% de pureza, e o trabalho do laboratório do professor Luiz Carlos Dias mostra que o processo de Chierice não produz isso, e sim uma mistura de impurezas. Qualquer efeito encontrado ali, portanto, não pode ser atribuído a nenhum componente particular. Todos esses estudos deveriam ser refeitos”. 

As lições 

Pesquisa respondida por quase 400 oncologistas brasileiros e publicada em janeiro deste ano, na Revista da Associação Médica Brasileira, encontrou 115 profissionais que haviam acompanhado pacientes que fizeram uso da fosfoetanolamina sintética. Desses médicos, 12% encontraram efeitos adversos e apenas quatro, ou 3,2%, atribuíram algum benefício clínico às cápsulas. Dos respondentes, mais de 80% afirmaram que a substância só deveria ser usada como parte de testes clínicos. 
“Creio que, mesmo desaparecendo dos holofotes da mídia, este episódio da famigerada pílula do câncer deixará marcas profundas na história da ciência brasileira e do nosso sistema de revisão ética”, pondera Luiz Carlos Dias.
“No cenário internacional, também ficarão marcas profundas relacionadas à política brasileira de regulação de medicamentos, e as questões éticas envolvendo testes clínicos em seres humanos, sem falar da questão de falta de ética pelos políticos que embarcaram em defesa da causa da fosfoetanolamina sintética visando claramente benefícios pessoais, como o voto”. 
Para evitar repetições do evento, o pesquisador da Unicamp sugere um maior investimento em educação científica e popularização da ciência. “Creio ser necessário que as universidades e agências de fomento atuem em colaboração para desenvolver atividades de valorização do trabalho em extensão e divulgação científica, estabelecer cursos de formação e de qualificação para comunicadores da ciência, promover pesquisas frequentes sobre a percepção pública da área de ciência e tecnologia, distribuir livros de educação científica e de divulgação científica para bibliotecas públicas, com acesso livre pelos cidadãos brasileiros, entre outras medidas”. 
Educar os políticos e seus assessores também seria necessário: “Nossos parlamentares e assessores necessitam urgentemente ser informados sobre temas de ciência e tecnologia, para evitar absurdos como no caso da fosfoetanolamina sintética”, numa decisão que ignorou os resultados apresentados pelo MCTI. “Não cabe a deputados e senadores legislarem sobre este assunto e decidir sobre a aprovação de um composto para ser usado em testes humanos”. 

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A "Caminhada da Vergonha" em Game of Thrones foi inspirada na provação da amante real do século XV, Jane Shore, "a Rosa de Londres"

A "Caminhada da Vergonha" em Game of Thrones foi inspirada na provação da amante real do século XV, Jane Shore, "a Rosa de Londres"

 Nancy Bilyeau

Imagem em destaque
Crédito da foto: HBO
Por séculos, o trabalho de amante de um rei veio com certos benefícios, juntamente com qualquer excitação romântica que o amor real desfrutasse: jóias e outros presentes, propriedades e talvez posições na corte para parentes e amigos.
Mas quando o rei em questão morreu, as coisas podem se tornar complicadas muito, muito rápido. Muitas vezes o herdeiro do rei e o resto da família “legítima” eram hostis ao antigo favorito. Sem proteção do amante real, os sorrisos se transformaram em carrancas ao redor.
Um exemplo é Alice Perrers, a amante de Edward III, descrita como uma “mulher devassa” por um cronista contemporâneo. Graças a seu caso com o rei muito mais velho, Alice se tornou a mulher mais rica da Inglaterra. Há uma história, talvez caluniosa, de que quando Edward III estava morrendo em 1377, Alice estava ocupada tirando os anéis de seus dedos. O que pode ser confirmado é que ela foi banida do reino depois que o rei foi declarado morto e suas terras perdidas.

Detalhe da pintura de Chaucer de Ford Madox Brown lendo para a corte do Rei Edward III, representando Alice Perrers e Edward III em um tipo de afago real.
Três séculos depois, quando Charles II estava morrendo, o destino de uma de suas amantes estava em sua mente. Ele mandou chamar seu irmão, o logo rei Jaime II, e implorou-lhe que não deixasse a pobre Nellie passar fome. Durante anos, Carlos II, o "Monarca Feliz", foi o amante da atriz "bonita e espirituosa". Nell Gwynne. (James II pode não ter sido o rei favorito da Inglaterra, mas pagou as dívidas e a hipoteca de Nell, dando-lhe uma pensão antes de morrer de sífilis em 1687, três anos depois da morte de Carlos II.)
Mas a amante real que teve a pior experiência de todas, uma vez que ela perdeu seu protetor, foi Jane Shore, a amante do rei do século XV , Edward IV. Na verdade, Shore suportou uma provação tão famosa que inspirou nada menos que George RR Martin quando escreveu a passagem que contém a “Calçada da Vergonha” de Cersei Lannister. Mais tarde, Martin disse à revista Entertainment Weekly que ele baseou o capítulo de penitência de Cersei em particular sobre Jane Shore, que foi punida com uma caminhada semelhante depois que o rei que ela amava morreu.

A penitência de Jane Shore por William Blake, c.1780.
"Foi um castigo direcionado às mulheres para quebrar seu orgulho", disse Martin à Entertainment Weekly . "E Cersei é definido por seu orgulho." Martin às vezes toma episódios da história medieval real para inspirar seus enredos na série.
Em um dos episódios mais inesquecíveis da série da HBO, Cersei, que havia sido preso pelo grupo religioso violento The Sparrows, é "libertado", mas antes que ela possa retomar sua vida no palácio, ela é despida e desfilada pelas ruas, gritou e atirou. Quando ela é cercada por pessoas gritando obscenidades, Cersei ouve a palavra “vergonha! Vergonha! Vergonha! Entoou repetidamente.
Jane Shore, que teve uma verdadeira vida de vergonha em 1483, foi atingida por humilhação e infortúnio após uma vida prematura que parece ter sido cheia de boa sorte. Ela não tinha o histórico de uma cortesã comum. Ela nasceu Elizabeth Lambert, seu pai um comerciante de Londres de boa reputação. Ela era casada quando jovem com William Shore, um próspero ourives. Depois do casamento, ela conheceu o rei.
Entre os séculos de reis, Edward IV foi um dos mais extremistas da Inglaterra. Ele fez um casamento polêmico quando casou em segredo com uma plebéia, a viúva Elizabeth Woodville, depois que ele tentou forçá-la a ser sua amante e ela ameaçou se esfaquear se ele a levasse sem um casamento. Seu casamento produziu muitos filhos e parece ter sido feliz, mas ele continuou a ter amantes e ficou conhecido por descartá-los de repente e passá-los para seus amigos, o que incomodou muito as mulheres.
Se ele amava alguma de suas conquistas extraconjugais, teria sido Jane. Ela era linda, chamada “a Rosa de Londres”, de acordo com um biógrafo. Seu caso com o rei começou por volta de 1476 e eles permaneceram juntos até sua morte. (Jane se divorciou do marido.) Diz-se que Edward a chamou de sua amante "mais feliz"; ela era simpática e gentil, com senso de humor.
Eduardo IV morreu depois de uma doença curta aos 40 anos em 14 de abril de 1483. Jane deve ter ficado muito chocada, e sua mudança de status foi rápida, embora ela tenha cuidado de seu futuro imediato, formando relacionamentos com o enteado de Edward IV. Thomas Gray e o melhor amigo de Edward IV, William Hastings.

Cartaz do teatro para "Jane Shore" no Royal Princess 'Theatre, Edimburgo, 14 de dezembro de 1885
O ataque a Jane não veio da rainha Elizabeth Woodville ou de seus filhos, veio de Ricardo III, o falecido irmão do rei. Ela foi condenada publicamente como uma "mulher vergonhosa e travessa".
Richard assumiu o trono depois de garantir que seus dois sobrinhos, Edward V e seu irmão Richard, o duque de York, fossem aprisionados na Torre de Londres. O destino dos príncipes é desconhecido, mas eles não foram vistos em público após o final do verão de 1483.
Ricardo III foi odiado por alguns como um usurpador - certamente, a rainha Elizabeth o temia, enquanto ela fugia para a Abadia de Westminster em busca de refúgio. Após conspirações formadas contra ele, Ricardo III agiu. Sem julgamento, William Hastings foi executado sob a acusação de traição. De fato, ele foi morto poucas horas depois de o rei Ricardo acusá-lo em uma reunião do conselho, decapitado sobre um tronco.
Jane Shore foi acusada de levar mensagens entre Hastings e a Rainha Elizabeth para continuar seus planos, enquanto a rainha viúva ainda estava em santuário. O castigo de Jane por conspirar contra Ricardo III foi penitência aberta nas ruas de Londres. Uma fonte contemporânea disse que estava sendo censurada "pela vida que liderou com o dito senhor hastyngys".
Jane foi forçada a caminhar pela cidade vestindo apenas um kirtle, que é uma anágua comprida e uma vela nas mãos. Ela foi ridicularizada, mas nenhum dano físico é conhecido por ter vindo a ela durante esta procissão traumática.
Depois, Jane Shore foi enviada para a prisão de Ludgate. Lá, ela ganhou o aviso do procurador-geral do rei, que providenciou sua libertação, casou-se com ela e teve um filho com ela. Quando Thomas More, o ministro do neto de Eduardo IV, Henrique VIII, viu Jane como uma mulher idosa em Londres, ele escreveu que sua beleza ainda podia ser vista.
A história não registrou como Jane Shore se sentiu após sua caminhada da vergonha. Mas a atriz Lena Headey, que interpreta Cersei Lannister, disse aos entrevistadores que era difícil filmar essa caminhada, embora obviamente não fosse real.
"Eu não acho que ninguém mereça esse tratamento", disse Headey aos repórteres depois.

Nancy Bilyeau , editora norte-americana do The Vintage News, escreveu uma trilogia de romances na corte de Henrique VIII: "A Coroa", "O Cálice" e "A Tapeçaria". Os livros estão à venda nos EUA, no Reino Unido e em outros sete países. Para mais informações, acesse www.nancybilyeau.com.

domingo, 25 de março de 2018

Petistas tentam reescrever a história. Míriam Leitão chama a atenção para os mestres da arte de mentir e enganar

Petistas tentam reescrever a história. Míriam Leitão chama a atenção para os mestres da arte de mentir e enganar






Única voz sensata no jornalismo da Globo atualmente, a jornalista Míriam Leitão desmascara "Mais uma tentativa de mentir e enganar" da esquerda brasileira, que tem contado com a ajuda da própria Rede Globo, de reescrever a história recente através de uma narrativa completamente falsa, permeada por interesses políticos obscuros.

Contrariando a linha editorial da Globo dos últimos meses, a jornalista lembra que "o buraco no qual caímos foi cavado nas administrações petistas, no segundo governo Lula e no período Dilma".

"Há uma tendência, politicamente motivada, de fomentar uma indignação seletiva. Isso ficou explícito no plenário da Câmara e faz parte do discurso que tenta aproveitar a intensidade da crise e a baixa popularidade do governo para construir uma versão de que os problemas do país surgiram agora. O risco desse raciocínio é que ele pretende pavimentar o caminho do mesmo grupo ao poder, sem que tenha sido precedido por qualquer reconhecimento dos erros cometidos.

Se tiverem sucesso no projeto, repetirão os mesmos equívocos, já que estão terceirizando todas as consequências desastrosas dos próprios atos. Partidos e grupos políticos, como as pessoas, avançam quando reconhecem seus erros e aprendem com eles. O que está em curso é mais uma tentativa de mentir e enganar."

A voz destoante do jornalismo da Globo vem justamente de uma profissional que tinha todas as razões para fazer coro com os socialistas que infestam o grupo de comunicação. Em 1972, quando estava grávida, Míriam Leitão foi presa e torturada física e psicologicamente pelo regime militar no Brasil por ser militante do Partido Comunista do Brasil. Entretanto, a lucidez e a honestidade intelectual da jornalista não permitem que suas afinidades ideológicas do passado contaminem a leitura fidedigna do momento atual vivido no país.

No artigo publicado no O GLOBO deste domingo, a coluna lembra que "os mesmos parlamentares, agora na oposição, não se escandalizaram quando houve uma farra de renúncia fiscal no governo Dilma que até hoje desequilibra as contas públicas brasileiras porque os benefícios foram concedidos por anos. Esses mesmos parlamentares acham que foi normal usar os bancos estatais através das pedaladas fiscais para mascarar despesas em ano eleitoral. O buraco no qual caímos foi cavado nas administrações petistas, no segundo governo Lula e no período Dilma.

A escalada do desemprego começou ao fim de 2014. O país entrou em déficit primário em 2015 por decisões tomadas nos anos anteriores. Estava claro durante a campanha eleitoral de 2014 que o país estava entrando em recessão como resultado dos erros grosseiros da política econômica comandada por Guido Mantega, da invencionice da “Nova Matriz” assinada por Mantega e Nelson Barbosa. E apesar dos sinais avançados de que a conta chegara, Dilma repetia o discurso preparado pelos seus marqueteiros, hoje réus condenados por corrupção, João Santana e Mônica Moura, de que não havia crise.

A estratégia da oposição agora é usar a alta rejeição ao governo Temer e fazer mais um trabalho de manipulação para que o país esqueça o que houve no passado recente. Um artigo na semana passada assinado pelo ex-presidente do BNDES Luciano Coutinho é o exemplo desse esforço orwelliano de mudar a história recente. Ele passeia pelos pontos da crise, a dívida pública crescente, a recessão, como se fossem estrangeiras a ele. Parte do crescimento da dívida foi provocado pelas transferências extravagantes de meio trilhão de reais para o banco no período em que ele o dirigia.

Os erros passados devem ser registrados para que não se fique com a impressão de que era bom e ficou ruim. O que está em curso é mais uma tentativa de mentir e enganar"

sexta-feira, 23 de março de 2018

O comunismo dos imbecis

O comunismo dos imbecis

Olavo de Carvalho
Diário do Comércio, 14 de maio de 2015          
Definir o comunismo como “estatização dos meios de produção”, como o fazem o sr. Marco Antonio Villa e seus admiradores, que por incrível que pareça existem, é descrevê-lo pelo sistema econômico ideal que lhe serve de bandeira e slogan, e não pela sua realidade de movimento político e intelectual com um século e meio de uma história tremendamente complexa.
É explicar fatos históricos pela definição de uma palavra no dicionário, procedimento no qual nenhuma pessoa com mais de doze anos de idade tem o direito de confiar.
Procedimento que se revela ainda mais pueril e inaceitável quando a definição é usada como premissa de um raciocínio (ou raciossímio, diria o Reinaldo Azevedo) segundo o qual um partido que não prega ou pratica ostensivamente a estatização dos meios de produção não pode ser comunista de maneira alguma.
Pois, ao longo de toda a sua história, os grandes partidos comunistas do mundo, a começar pelo da própria URSS, preferiram quase sempre deixar essa meta hipotética e longínqua num discreto segundo plano, ou omiti-la completamente, concentrando-se em objetivos concretos mais imediatos que pudessem compartilhar com outros partidos e forças, ampliando a base das suas alianças possíveis.
Característica, nesse sentido, foi a política do Front Popular, que na década de 30 angariou apoio mundial para a URSS na base de um discurso “antifascista”, onde tudo soava como se nenhuma incompatibilidade tivesse existido jamais entre o regime comunista e os interesses da burguesia democrática dos países ocidentais.
O velho Partido Comunista Brasileiro de Luís Carlos Prestes sempre falou muito menos em estatizar a economia do que em “defender os interesses nacionais” e a “burguesia nacional”, supostamente ameaçados pelo capital estrangeiro.
No período da luta contra a ditadura militar, então, não se ouvia um só comunista, fora do meio estudantil enragé ao qual pertencia o sr. Villa, pregando estatização do que quer que fosse: só clamavam por “democracia”.
Mao Dzedong, no início da carreira, falou tanto em patriotismo antijaponês e foi tão discreto no que diz respeito ao fim do livre mercado, que superou Chiang Kai-Shek nas simpatias do governo americano, ante o qual fez fama de “reformador agrário cristão”.
Mesmo quando se fala em estatização, na maior parte dos casos ela é sempre parcial e aplicada de tal modo que não fira indiscriminadamente os interesses da burguesia e o direito a toda propriedade privada dos meios de produção, mas pareça mesmo favorecê-los a título de “aliança entre Estado e iniciativa privada”. Mesmo no Chile de Allende foi assim.
Sendo, malgrado todas as suas mutações e ambiguidades, um movimento organizado de escala mundial, o comunismo sempre comportou uma variedade de subestratégias locais diferenciadas, as quais, não raro, se pareciam tanto com um comunismo de dicionário quanto as intrigas diplomáticas do Vaticano se parecem com a salvação da alma.
A famosa “solidariedade comunista internacional” consiste precisamente numa bem articulada divisão de trabalho, de modo que as ações dos partidos comunistas locais contribuam para o sucesso mundial do movimento pelas vias mais diversas e às vezes até incompatíveis em aparência.
Nos anos 30 do século passado, Stálin ordenou que o Partido Comunista Americano se abstivesse de tentar organizar a militância proletária e, em vez disso, se concentrasse em ganhar o apoio de bilionários, de intelectuais célebres e do beautiful people da mídia e do show business, na base de apelos ao “pacifismo”, aos “direitos humanos” e à “democracia”, de modo que o discurso comunista se tornasse praticamente indistinguível dos ideais formadores do sistema americano.
Nessa perspectiva, arregimentar militantes e intoxicá-los de doutrina marxista era muito menos importante do que seduzir possíveis “companheiros de viagem”, pessoas que, sem ser comunistas nem mesmo em imaginação, pudessem, nos momentos decisivos, colaborar com as iniciativas do Partido e com os interesses da URSS, usando, justamente, da sua boa fama de insuspeitas de comunismo.
Foi por isso que o Partido, na América, sempre foi uma organização minúscula, dotada de um poder de influência desproporcional com o seu tamanho.
O objetivo dessa estratégia era não só criar em torno do comunismo uma aura de humanismo inofensivo, mas também fazer do capitalismo americano a fonte de dinheiro indispensável à sustentação de um movimento político sempre deficitário quase por definição.
A operação teve sucesso não só em desviar para a URSS e para o PCUSA quantias vultuosas provenientes das grandes fortunas privadas, mas em transformar o próprio governo americano no principal mantenedor e patrono do regime soviético, que sem isso não teria sobrevivido além dos anos 40.
Quanto a este segundo ponto, é evidente que simples idiotas úteis e agentes de influência não poderiam ter obtido tão esplêndido resultado; eles serviram apenas para dar suporte moral e político à ação de agentes de interferência, profissionais de inteligência altamente treinados, cuja infiltração maciça nos altos postos do governo de Washington, como se sabe hoje, foi muito além do que poderia ter calculado, na época, o infeliz senador Joe McCarthy.
Por todos esses exemplos vê-se como é imbecil esperar que um partido saia pregando a “estatização dos meios de produção” para só então notar que ele é comunista.
O próprio PT já deixou clara, para quem deseje vê-la, a sua quádrupla função e tarefa no movimento comunista internacional:
1. No plano diplomático, alinhar o Brasil com o grande bloco antiocidental encabeçado pela Rússia e pela China. O BRICS não é nada mais que uma extensão embelezada da Organização de Cooperação de Shanghai, que já expliquei aqui em 2006 (leia aqui).
2. Na esfera de ação continental, salvar e fortalecer o movimento comunista, como bem o reconheceram as Farc, mediante a criação do Foro de São Paulo e de um sistema de proteção que permita a transfiguração da narcoguerrilha, ameaçada de extinção no campo militar, em possante e hegemônica força política e econômica.
3. Por meio de empréstimos ilegais e da corrupção, usar os recursos do capitalismo brasileiro para salvar os regimes comunistas economicamente moribundos, como os de Cuba e de Angola.
4. Na política interna, eliminar as oposições, aparelhar o Estado e estabelecer de maneira lenta, discreta e anestésica um poder hegemônico indestrutível.
Quem tem toda essa complexa e portentosa missão a cumprir há de ser louco de sair por aí pregando “estatização dos meios de produção” para assustar e pôr em fuga a burguesia local, sem cuja colaboração o cumprimento da tarefa se torna impossível?
Na perspectiva do sr. Marco Antonio Villa, nada disso é atividade comunista, já que falta “estatizar os meios de produção”.
A desproporção entre a complexidade do fenômeno comunista e a estreiteza mental de um autor de livrinhos compostos de recortes de jornal já é patética por si, sem que ele precise ainda enfatizá-la afetando sua superioridade de portador de um diploma ante os que, sem diploma nenhum, conhecem a matéria porque a estudaram.
Como eu mesmo me incluo entre estes últimos, sendo tão carente de estudos formais quanto Machado de Assis, João Ribeiro, Capistrano de Abreu, Luís da Câmara Cascudo, Manuel Bomfim, José Veríssimo e outros construtores maiores da cultura brasileira, deve parecer mesmo revoltante ao sr. Villa que eu tenha acumulado mais honrarias acadêmicas, prêmios literários, citações em trabalhos universitários e aplausos de grandes intelectuais de três continentes do que ele, com seu canudinho da PUC e seu currículo mirim, poderá angariar em trinta reencarnações, caso existam.
Entre os anos 40-70 do século passado, a idolatria dos diplomas, tão característica da Primeira República e tão bem satirizada nos romances de Lima Barreto, parecia uma doença infantil finalmente superada numa época em que a cultura brasileira ia vencendo o subdesenvolvimento e igualando-se às de países mais ricos.
Um quarto de século de “Nova República”, e sobretudo doze anos de PT no poder, trouxeram-na de volta com força total, numa espécie de compensação ritual que, sentindo vagamente no ar a ausência da alta cultura desfeita em pó, busca apegar-se supersticiosamente aos seus símbolos convencionais, como o viúvo inconsolável que dorme agarrado a um chumaço de cabelos da falecida, para trazê-la de volta.
Não é de todo coincidência que entre os sacerdotes desse culto caquético se destacassem justamente alguns daqueles que minutos antes perguntavam “Diploma para quê? ” e buscavam persuadir a nação de que a fé democrática trazia como corolário a obrigação de eleger um semianalfabeto presidente da República.
Uma vez que o Partido domina as universidades, é indispensável que elas monopolizem a atividade cultural, marginalizando e achincalhando toda criação ou pensamento independente.
Se o sr. Villa colabora gentilmente com esse empreendimento, não há nisso nada de estranho, já que ele se empenha também em acobertar as atividades do Foro de São Paulo, reduzindo todo combate antipetista a uma “luta contra a corrupção” imune ao pecado mortal de anticomunismo.
Qualquer que seja o caso, num país em que cinquenta por cento dos formandos das universidades são comprovadamente analfabetos funcionais, todo portador de um diploma deveria pensar duas vezes antes de exibi-lo como prova de competência, para não falar de superioridade.