quarta-feira, 5 de abril de 2017

Positivismo


Positivismo

Positivismo

O Positivismo, descendente do Iluminismo, surgiu como reação contra o Idealismo.
O século XIX foi uma época das maiores descobertas no campo empírico, fruto do Positivismo e seus seguidores.
Foi, também, uma época de grande satisfação dos homens do dinheiro e da cultura de época, pois a tecnologia alimentava uma industrialização, ainda que incipiente. 
O Positivismo tentou ser a solução para os problemas socioeconômicos da época. Enfatizava o conhecimento positivo, baseado nos fenômenos naturais e suas propriedades e relações, verificadas pela ciência empírica.
As Ciências exatas eram tomadas como modelo de toda atividade teórica ou prática.
Positivo é:
  • aquilo que é real;
  • aquilo que é 'provado' cientificamente;
  • aquilo que é comprovado com instrumentos, tais como o microscópio, o telescópio e outros;
O Positivismo procurava o como, as leis, não o porquê, as causas filosóficas (Deus, Natureza, etc.) dos fenômenos.
Assim, por exemplo,
  • Aristóteles perguntava-se qual é a causa da queda dos corpos?
  • Galileu perguntava-se qual é a Lei da queda dos corpos?
O Positivismo acreditava na possibilidade da redução de todos os fatos sociais e humanos a leis científicas. Com isso, acreditava na possibilidade de uma síntese de todo o conhecimento humano.
Acreditiva que se poderia ter a Sociedade e a História governadas por Leis científicas. Com isso, o entendimento dessas leis permitiriria um desenvolvimento social e histórico passível de gestão científica.
Por isso, o Positivismo é considerado uma ideologia científica, frequentemente mantida por tecnocratas que crêem no progresso através do avanço da Ciência, que desemboca em concepções morais hedonistas e utilitárias que, geralmente, buscam o desenvolvimento economico como um fim em si.
No entanto, o Positivismo difere do Empirismo porque inclui o conceito de evolução como lei fundamental de todos os fatos humanos e naturais.
Difere, também, do Idealismo por entender a evolução, não como desenvolvimento racional, teológico, mas como um conflito mecânico de seres e de forças, determinando uma seleção natural, visando o bem-estar material.
Sistemas político-econômico-sociais considerados de inspiração positivista
  • Democracia moderna (soberania da massa): vontade popular se manifesta através da contagem dos votos (sufrágio universal).
  • Liberalismo (liberdade do indivíduo): livre concorrência econômica com o conflito material das forças econômicas
  • Socialismo (relações sociais centradas na atividade econômica): história da humanidade acionada por interesses materiais, utilitários, econômicos (materialismo histórico), e não por interesses espirituais, morais e religiosos.

Marxismo

O Marxismo é considerado um sistema positivista, mas este rejeita o Positivismo e o considera um Idealismo subjetivo porque limita-se apenas a fatos e não investiga as causas subjacentes às coisas (em geral, a luta de classes).
Apesar disso, o Positivismo encampou lutas importantes, tais como:
  • Oposição à escravidão e luta abolicionista.
  • Aculturação e elevação da raça escrava.
  • Republicanismo.
  • Pacifismo.
  • Valorização da ordem.
  • Incorporação do Proletariado na classe moderna.
  • Separação do poder temporal e espiritual.

Crítica

A Ciência alcança fielmente a realidade, tal como subentende a própria noção de 'positivo', vista acima?

Declínio

No século XX, a crise interna da ciência mecanicista, ideal e ídolo do positivismo, que desembocou na Mecânica Quântica, na Relatividade, na Teoria do Caos, etc., levou a uma revisão e crítica da ciência e do Positivismo por parte dos cientistas.
“Levada ao paroxismo, a mecânica clássica - que descreve as leis determinísticas que regem o macrocosmo - sugeriu ao pensamento marxista a idéia, tida como inelutável e científica, de que o determinismo histórico regeria as sociedades para formas mais perfeitas de convivência humana. Assim, o materialismo histórico explicaria o avanço do feudalismo ao capitalismo e, deste, ao socialismo, sem indícios de retrocessos substanciais. […] Ora, o Muro de Berlim caiu também sobre essa transposição da mecânica clássica às ciências sociais, soterrando o determinismo histórico e, com ele, os paradigmas que davam uma aparente consistência à modernidade.” (NUNES, 2007)
A partir da ação de grupos contrários (marxistas, comunistas, fascistas, reacionários, católicos, místicos), principalmente pela Escola de Frankfurt (Adorno, Horkheimer, Marcuse, Löwenthal, Habermas, etc.), o Positivismo perdeu influência no século XX.
Mas, no Ensino, ...
... a maioria dos cientistas, professores e livros continua positivista.

Atitude positivista dos cientistas

"Quando você pode medir aquilo de que fala e expressá-lo em números, você sabe alguma coisa sobre isto. Mas quando você não pode medi-lo, quando você não pode expressá-lo em números, o seu conhecimento é limitado e insatisfatório: pode ser o início do conhecimento, mas você, no seu pensamento, avançou muito pouco para o estágio da ciência." (Lord Kelvin) (aula sobre 'Unidades elétricas de medição' (3 Maio 1883), In: Popular Lectures, v. 1, p. 73)
"A Teoria da relatividade é tão inaceitável para mim como, por exemplo, a existência do átomo e outros dogmas." (MACH)

Comte

Positivismo - ComteIsidore Marie Auguste François Xavier Comte (1798-1857), pensador francês, foi o expoente principal do Positivismo.

Filho de pais católicos e monarquistas fervorosos, era, naturalmente, anticlericalista e antimonarquista.

Foi o criador da Sociologia.
Em 1814, rompe com os pais por divergências  e entra para a École Polytechnique em Paris, notável por sua aderência aos ideais republicanos e progressistas.

Lá, em 1817, torna-se secretário e amigo de Henri de Saint-Simon, expoente do socialismo utópico. Concebe a criação de uma ciência social e de uma política científica.
Em 1824, rompe com Saint-Simon por divergências.
Em 1826, revoltado por a École não ter aceito conceder-lhe uma cátedra de 'Filosofia Positiva', abre em casa um Curso de Filosofia Positiva.
Em 1826, é hospitalizado com colapso nervoso, de onde saiu em 1829, sem alta, apenas estabilizado por Caroline Massin, para trabalhar em seu (modesto) Plano de Reorganização da Sociedade e no Ensino.
De 1830 a 1842,  publica os seis volumes de seu Curso de Filosofia Positiva. Em 1831, abre curso público e gratuito de 'Astronomia elementar' para os 'operários de Paris', que serve, naturalmente, de fachada para a pregação de sua Filosofia Positiva.
Em 1842, por seu ativismo e rebeldia, perde o emprego de pesquisador na Politécnica por divergências com os superiores e começa a ser ajudado por admiradores, tais como como o pensador inglês John Stuart Mill. No mesmo ano, divorcia-se de Massin.
Em 1844, envolve-se com Clotilde de Vaux, irmã de um de seus alunos, escritora, e esposa abandonada de um cobrador de impostos que, por problemas financeiros, exilara-se na Bélgica. No entanto, Clotilde só lhe oferece amizade e a relação permanece platônica.
Em 1846, Clotilde morre e, de platônica, a paixão torna-se quase religiosa.
Em 1847, Comte se vê como fundador e profeta de uma nova e científica 'Religião da Humanidade' e institui o Calendário Positivista que veremos em seguida.
De 1851 a 1854, publica os enormes volumes do seu Tratado de sociologia que institui a religião da humanidade.
Em 1852, publica seu Catecismo Positivista.
Desta forma, Comte partiu de uma crítica científica da teologia para terminar como profeta!
Seu discípulo Littré, entre outros, contestou a unidade de sua doutrina. Littré aceitou o que ele chamou a primeira filosofia de Augusto Comte e viu na segunda uma espécie de "delírio político-religioso", inspirado pelo amor platônico do filósofo por Clotilde.

Idéias políticas

O Positivismo de Comte rejeitou a Democracia, a Monarquia e a Igreja, enfatizando a hierarquia e a obediência.
Pregava um governo ideal formado por uma elite intelectual.
Propôs uma sociologia 'científica'.
Tinha a moralidade e o progresso moral como objetivos centrais do conhecimento e esforço humano

Lei dos Três Estágios

  1. Estágio teológico: explicações em termos mágicos, deuses, etc.
  2. Estágio metafísico: explicações em termos de essências, causas finais, entidades abstratas e hipotéticas, tais como 'o Éter', 'o Povo', 'o Mercado financeiro', etc.
  3. Estágio positivo: tudo é explicado por pesquisas científicas sobre evidências concretas que levam a leis científicas.
No indivíduo
  • a criança dá explicações teológicas, busca o Absoluto
  • o adolescente é metafísico, busca as 'causas' e os 'porquês'
  • o adulto chega a uma concepção "positivista" das coisas; busca-se apenas o observável e o concreto
Pode-se, assim pensar que, nessa ótica, quem não aceita o Positivismo é infantil?

Sequência das Ciências

  • a Matemática, desde a Antiguidade, é disciplina positiva
  • a Astronomia também bem cedo descobre suas primeiras leis positivas
  • a Física espera o século XVII (com Galileu e Newton) para tornar-se positiva
  • a Química torna-se no século XVIII (com Lavoisier)
  • a Biologia torna-se no século XIX, (com as Leis da Evolução de Darwin)
  • na virada do século XIX, Comte acredita coroar o edifício científico criando a Sociologia
  • a Psicologia seria repartida sem prejuízo entre a Biologia e a Sociologia

Lei Enciclopédica

Matemática abstração sem observação, mera ferramenta de cálculo
Astronomia observações puramente visuais + princípios
Física + experimentos
Química + classificação = complexa
Biologia + comparações = concreta
Sociologia + método histórico = soma total!

 cada vez mais humana
Cada ciência depende da precedente.
A Sociologia seria a sexta ciência fundamental, a mais concreta e complexa, cujo objeto de estudo é a 'humanidade'.
Comte se opõe ao reducionismo, à "explicação do superior pelo inferior". Para ele, os fenômenos psicoquímicos condicionam os fenômenos biológicos, mas a biologia não é uma química orgânica.
A Sociologia transformar-se-ia na política que guiaria as outras ciências, regenerando-as(!) 
A Sociologia regeria (!) todas as Ciências, em nome da 'Humanidade', proibindo as pesquisas inúteis:
Por exemplo, um astrônomo deve estudar somente o Sol e a Lua, pois estes têm influência sobre a Terra e sobre a humanidade, e evitar os estudos politicamente estéreis (!) dos corpos celestes mais afastados!!

Evolução da sociedade

  • ordem intelectual: do estado teológico ao estado positivo
  • ordem prática: do estado militar ao estado industrial
  • ordem afetiva: do estado de egoísmo ao estado de altruísmo

Sociedade positiva

  • poder temporal: os industriais e os banqueiros
  • poder espiritual: os sábios, principalmente, os sociólogos
  • papa positivista: o Grão-Sacerdote da Humanidade (o próprio Augusto Comte, modestamente).
O Positivismo pretendia substituir a especulação racional das filosofias pelos dados positivos da pesquisa científica. Com isso, abriu campanha contra a Filosofia Pura.
Propunha uma coletânea de ciências cobrindo todo o saber humano.
Tinha por Lema: "Nada de filosofia, nada de pura especulação e sim, sistematização e metodologia das ciências".

Direitos humanos

Comte rejeita a doutrina dos direitos do homem e da liberdade como metafísica (primitiva)
Argumentava que, assim como "não há liberdade de consciência em astronomia", uma política verdadeiramente científica pode impor suas conclusões.
Pregava que aqueles que não compreenderem a Filosofia Positiva terão que se lhe submeter cegamente (o equivalente da fé na religião positivista).

Calendário positivista

O Calendário positivista foi proposto por Comte em 1849.
Era formado por 13 meses de 28 dias, cada, com um dia adicional comemorativo ao final, perfazendo 365 dias, com início em 1789, ano da Revolução Francesa.
1 Moisés (Teocracia inicial) 8 Dante (poesia épica moderna)
2 Homero (Poesia antiga) 9 Gutenberg (indústria moderna)
3 Aristóteles (Filosofia antiga) 10 Shakespeare (drama moderno)
4 Arquimedes (Ciência antiga) 11 Descartes (filosofia moderna)
5 César (civilização militar) 12 Frederico II (política moderna)
6 S. Paulo (Catolicismo) 13 Bichat (Ciência moderna)
7 Carlos Magno (civilização feudal)
Era tal que o primeiro dia de cada mês era sempre uma segunda-feira e cada dia homenageia alguma pessoa ilustre relativa ao mês.
Por exemplo, hoje (22/08/2011) seria 12 (dia dedicado o escritor Schiller) do mês de Shakespeare (que homenagiea o Drama moderno) do ano 223 após a Revolução.
O site The Positivist Calendar permite calcular qualquer data correspondente no calendário positivista.
No entanto...
1845: tentou transformar-se em religião(!)
1847: Comte intitulou-se "Sumo Sacerdote da Humanidade"
Comte diz que teve duas carreiras em sua vida: foi Aristóteles e seria São Paulo

Religião positiva

A Religião Positivista é agnóstica, sem Deus, pois substitui Deus pela Humanidade (Grande-Ser)
Presta culto ao gênio de seus grandes homens e sábios, Comte fala em "imortalidade subjetiva", isto é, eles serão imortais na memória da cultura.
Admitia a terra, que chamou de "o Grande-Fetiche", e o ar como objetos de culto.
Não repudiava mas transpunha as ideias e até a linguagem da crenças anteriores.

Potência superior

"Muito embora o positivismo rejeite toda crença sobrenatural, é, no entanto, a única religião cujos dogmas são verdadeiramente universais, como universal é a existência natural dos instintos benévolos, a solidariedade e a continuidade humana, a escala enciclopédica de sete graus, a ordem e o progresso e o anseio de harmonia e de construção pacifica e industrial, em substituição à guerra. […] A ‘Potência superior’ que sempre se sentiu e que nossos antepassados explicavam pela existência de vontades divinas, explica-se hoje pela existência da Ordem Natural, cuja consciência nos vem da apreciação do conjunto das concepções humanas que constitui a escala enciclopédica de sete graus."
"Quanto à ‘Providência Divina’, que o espírito teológico atribui a seres com poderes sobrenaturais, e a quem dirige suas súplicas, o positivismo demonstra, irrefutavelmente, a existência, não sobrenatural, ou fictícia, mas natural e real, proveniente da solidariedade e continuidade humana, na forma de um crescente tesouro de conquistas teóricas e práticas que a espécie acumula, a duras penas, e lega de geração a geração. […] Subjetivamente podemos sentir a presença de todos aqueles a cujos esforços devemos o estagio do presente. E essa presença subjetiva estende-se para o futuro onde nos vemos e nos sentimos num eterno evoluir regido pela ordem natural."

Invocação Positivista

Tens Senhora, tão grande potestade
Que quem a graça quer e a Ti não corre
Sem asas voar lhe quer a vontade.
A tua benignidade não socorre,
A quem T'implora só; com caridade
Frequentemente à suplica percorre.
Em Ti misericórdia; Em ti piedade;
Em Ti magnificência;
Em Ti concorre
Tudo quanto no mundo
Há de bondade
Oh! Virgem-Mãe e Filha do teu filho!
A Ti, mais do que a nós mesmos,
Amemos sem cessar;
E a nós somente
O puro amor de Ti
Nos faça amar.

Esteve à procura de uma 'divindade': rejeitou Deus, considerou a Virgem-mãe (Clotilde), optou pela 'Humanidade' e decidiu pela Ciência.

Positivismo no Brasil

O Positivismo no Brasil foi mais doutrinário e menos reflexivo.
O princípio positivista: "O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim" inspirou o lema "Ordem e progresso" da nossa bandeira (parece que esqueceramo o 'amor').

Clima

Questão religiosa
  • discussão de temas de ordem "abstrata" demais ou movida a egolatria nas Academias e no Parlamento (Escolasticismo)
  • monarca com poder virtual sobre a Igreja  bispo que reclamava o poder e autonomia nos quais foi investido pelo Papa
  • padres políticos e até maçons

Questão militar

  • fim da Guerra do Paraguai: militares perderam seu prestígio, receberam incumbências indignas para a imagem da corporação (caçar escravos fugitivos)
  • jovens militares em formação aproximam-se das Ciências Exatas na Escola Politécnica e na Escola Militar
  • ser bom militar era ser mau positivista e vice-versa

Adeptos ilustres:

Tendências

positivismo ortodoxo
  • mais forte ao sul
  • mais conhecido
  • herdeiro da mística Religião da Humanidade (que se espraiou entre os militares)
  • apoiado pelo discípulo Pierre Laffitte
positivismo heterodoxo
  • mais forte no Norte
  • mais próximo dos estudos primeiros de Augusto Comte que criaram a disciplina da Sociologia
  • apoiado pelo discípulo Émile Littré.

Igreja Positivista do Brasil

Rio de Janeiro

Templo Positivista do Rio de Janeiro
Foi o primeiro edifício, no mundo, construído em 8 de Abril de 1876 para "difundir a Religião da Humanidade".
A disposição interna faz lembrar uma igreja convencional
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Templo Positivista do Rio de Janeiro
No 'altar', como não podia deixar de ser, há um busto de Comte.
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Nas laterais, há nichos contendo bustos das 13 personalidades homenageadas nos 13 meses do calendário positivista.
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Num nicho especial, beatíficas imagens femininas, homenageando o 'princípio feminino', na figura de não outra senão Clotilde de Vaux.
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Há, também um quadro em que Clotilde aparece num vestido branco como de uma noiva ou de uma vestal, ou, talvez, de uma deusa Diana.
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Em outro quadro, Clotilde aparece em posição sofredora e lamentante num vestido escuro, como uma Mater dolorosa católica, sendo confortada por alguma entidade espiritual misteriosa.
Templo Positivista do Rio de Janeiro
Há, também, templos em Curitiba e em Porto Alegre, este na Avenida João Pessoa, no centro, próximo ao Brique da Redenção.
Templo Positivista de Porto Alegre

Referências


Veja aqui minha aula sobre Racionalismo e Empirismo

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Citar esta página:
dos SANTOS, Renato P. Filosofia da Ciência - Positivismo. In Física Interessante. 17 Nov. 2014. Disponível em: <http://www.fisica-interessante.com/filosofia-da-ciencia-positivismo.html>. Acesso em: 05 de abr. 2017.


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segunda-feira, 27 de março de 2017

Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão

Como Franklin Roosevelt piorou a Depressão
Franklin Delano Roosevelt "realmente nos tirou da Depressão", disse o líder republicano Newt Gingrich a um grupo de republicanos após as eleições parlamentares de 1994, e isso faz de FDR "a maior figura do século XX". Como retórica política, seria mais provável que a declaração acima tivesse vindo de alguém que não apóia a economia de mercado. Afinal, o New Deal representou a maior expansão do poder do governo federal em tempos de paz em todo o século XX. Mais ainda, a visão de Gingrich de que FDR salvou os EUA da Depressão é indefensável; as políticas de Roosevelt prolongaram e aprofundaram a depressão.
Não há duvidas de que Roosevelt mudou as feições do governo americano - para pior. Muitas das reformas da década de 1930 permanecem entranhadas nas políticas atuais: distribuição arbitrária de terras, subvenção de preços e controles de mercado para a agricultura, ampla regulação de títulos privados, intromissão federal sobre as relações entre sindicatos e empregadores, governo fazendo empréstimos e atividades seguradoras, o salário mínimo, seguro-desemprego nacional, Previdência Social e pagamentos assistencialistas, produção e venda de energia elétrica pelo governo federal, papel-moeda de curso forçado - a lista é infindável.
A revolução de Roosevelt começou já com seu discurso de inauguração, que não deixou dúvidas sobre suas intenções de se aproveitar e se apoderar do momento para proveito próprio. Sempre lembrado por sua evidentemente falsa declaração de que "a única coisa da qual devemos ter medo é o próprio medo", Roosevelt também, nesse discurso, já clamava por extraordinários poderes governamentais que ele considerava emergenciais.
No dia seguinte à posse de FDR, ele emitiu uma proclamação na qual convocava o Congresso para uma sessão extraordinária. Antes que essa sessão ocorresse, ele decretou um feriado bancário nacional - uma atitude que ele se recusou a endossar quando Hoover a havia sugerido apenas três dias antes.
Invocando o decreto Trading with the Enemy[1], de 1917, Roosevelt declarou que "todas as transações bancárias deveriam ser suspensas". Os bancos só poderiam reabrir após uma minuciosa inspeção seguida de uma aprovação do governo, um procedimento que se arrastava por meses. Essa ação intensificou no público a sensação de crise e permitiu que Roosevelt ignorasse as tradicionais restrições sobre o poder do governo central.
Roosevelt e seus assessores econômicos entenderam a Depressão de maneira completamente equivocada, invertendo as relações de causa e efeito. Eles não entenderam que os preços haviam caído por causa da Depressão; eles acreditavam que a Depressão era o resultado da queda dos preços. Assim sendo, o remédio óbvio - pensaram eles - seria aumentar os preços, o que eles decidiram fazer através da criação artificial de escassez em vários setores da economia. Consequentemente, um compêndio de políticas malucas foi surgindo com o intuito de curar a Depressão através da redução da produção. O esquema era tão evidentemente auto-destrutivo que é difícil crer que alguém acreditava piamente que ele iria funcionar.
A aplicação mais idiota da teoria tinha a ver com o preço do ouro. Começando com o feriado bancário e prosseguindo até um maciço programa de compra de ouro, Roosevelt abandonou o padrão-ouro, que é a base fundamental para se restringir a inflação e o crescimento estatal. Ele nacionalizou o estoque monetário de ouro, proibiu sua posse privada (exceto para jóias, para uso científico e industrial, e para pagamentos externos), e anulou todos os contratos - públicos ou privados, antigos ou futuros - que demandavam pagamento em ouro.
Além de ser um roubo simples e direto, o confisco do ouro não funcionou. Seu preço aumentou de $20,67 para $35 por onça, um aumento de 69%, mas o nível dos preços domésticos aumentou apenas 7% entre 1933 e 1934; e até o final da década o nível de preços sequer chegou a aumentar. A desvalorização provocada por FDR levou a retaliações por parte dos outros países, sufocando ainda mais o comércio internacional, intensificando a depressão nas economias ao redor do mundo.
Após ter aleijado o sistema bancário e destruído o padrão-ouro, Roosevelt voltou-se para a agricultura. Trabalhando com o politicamente influente Farm Bureau[2] e com a gangue de Bernard Baruch[3], Roosevelt decretou o Agricultural Adjustment Act, em 1933. Ele estipulava controles sobre a produção e sobre o tamanho das terras, restringia acordos até então feitos livremente no mercado e regulamentava licenças para produtores e negociantes com o objetivo de "eliminar práticas e custos injustos"; autorizava novos empréstimos governamentais, taxava processadores de commodities agrícolas e recompensava agricultores que reduzissem a produção.
O objetivo era aumentar os preços das commodities agrícolas até que eles atingissem um nível de "paridade" muito maior. Os milhões que mal podiam alimentar e vestir suas famílias devem ser perdoados por questionarem a nobreza de um programa planejado para tornar os alimentos e os produtos têxteis mais caros. Apesar de essa ter sido chamada de "medida de emergência", nenhum presidente americano desde então resolveu declarar que a emergência está findada.
A indústria foi praticamente nacionalizada pelo decreto National Industrial Recovery Act, assinado por Roosevelt em 1933. Como a maioria das legislações do New Deal, esse decreto foi o resultado de um acordo conciliatório entre vários grupos de interesses: empresários querendo preços mais altos e mais barreiras à concorrência, sindicalistas buscando proteção e patrocínio governamental, assistentes sociais querendo controlar as condições de trabalho e proibir o trabalho infantil, e os habituais proponentes de gastos maciços em obras públicas.
A legislação permitiu que o presidente Roosevelt tivesse a autoridade para licenciar empresas ou controlar importações com o intuito de atingir objetivos vagamente definidos pelo decreto. Todas as indústrias tinham de seguir normas de "concorrência justa". Essas normas continham cláusulas que determinavam as horas máximas de trabalho, o salário mínimo e as condições "decentes" de trabalho. Toda a política se baseava na dúbia noção de que tudo o que o país mais precisava eram cartéis, preços altos, menos trabalho e custos trabalhistas exorbitantes.
Para administrar esse decreto, Roosevelt criou a National Recovery Administration e indicou o General Hugh Johnson, um amigo íntimo de Baruch e um ex-recrutador militar, como diretor. Johnson adotou o famoso emblema da "Águia Azul" e obrigou todos os estabelecimentos a exibi-lo, bem como a aceitar as leis e regulamentos da NRA. Havia desfiles, cartazes, pôsteres, outdoors, bottons e anúncios de rádio, todos feitos para silenciar aqueles que questionavam as políticas adotadas. Desde a Primeira Guerra Mundial não havia nada parecido com essa efusão de publicidade espalhafatosa e coerção. Diminuir preços foi considerado "trapaça", algo equivalente a uma traição. Toda essa política foi reforçada por um vasto sistema de agentes e informantes.
No final, a NRA aprovou 557 leis básicas e 189 suplementares, cobrindo quase 95% de todos os empregados industriais. Grandes empresários controlavam a criação e a execução dos documentos. Eles geralmente almejavam suprimir a concorrência. Figurando proeminentemente nesse empenho estavam quesitos como preços mínimos aceitáveis, conluio de preços oligopolísticos, padronização de produtos e serviços, e notificação antecipada de intenção de se alterar preços. Tendo ganho o comprometimento do governo em pacificar a concorrência, os magnatas simplesmente se puseram a desfrutar de um sossego lucrativo.
Mas o entusiasmo inicial se evaporou quando a NRA não cumpriu sua promessa, e por razões óbvias. Mesmo seus apoiadores do mundo corporativo começaram a se opor aos maciços controles governamentais que ela requeria. Já em 1935, quando a Suprema Corte invalidou todo o empreendimento, a maioria dos defensores da NRA já tinha perdido o ânimo com a empreitada.
Ao revogar a NRA, o juiz da Suprema Corte Evans Hughes escreveu que "condições extraordinárias não criam ou ampliam poderes constitucionais". O Congresso "não pode delegar poder legislativo ao Presidente de modo que ele tenha irrestrita liberdade de ação para criar quaisquer leis que pense ser necessárias".
Apesar dessa decisão judicial, o "método NRA" não desapareceu por completo. Uma enxurrada de decretos intervencionistas surgiu logo após sua extinção. Por exemplo, a lógica econômica da NRA reapareceu no National Labor Relations Act, de 1935, restabelecendo privilégios sindicais, e no Fair Labor Standards Act, de 1938, estipulando regulamentações para salários e horas de trabalho. O Bituminous Coal Act, de 1937, reinstalou leis típicas da NRA para a indústria carvoeira, incluindo congelamento de preços. A Works Progress Administration transformou o governo no empregador de última instância. Utilizando o Connally Act, de 1935, Roosevelt cartelizou a indústria petrolífera. No fim, é claro, a Suprema Corte acabou mudando de idéia e se integrou ao jeito Roosevelt de pensar.
Mesmo depois de tudo isso, a grande promessa do fim do sofrimento nunca se concretizou. À medida que o setor estatal foi drenando o setor privado, controlando-o em detalhes alarmantemente minuciosos, a economia foi chafurdando na depressão. O impacto conjunto das intervenções de Herbert Hoover e de Roosevelt sobre a economia foi fatal, pois o governo em momento algum deixou o mercado se corrigir a si próprio. Longe de ter tirado os EUA da Depressão, FDR não só a prolongou como também a aprofundou, levando um sofrimento desnecessário para milhões.
Ainda mais trágico é o duradouro legado de Roosevelt. O comprometimento que tanto as massas como as elites tinham com o individualismo, o livre mercado e um governo limitado sofreu um golpe súbito na década de 1930, golpe do qual o país ainda tem que se recuperar por completo. A teoria da economia mista, na qual o estado controla a economia de mercado, ainda é a ideologia dominante que sustenta todas as políticas governamentais. Em lugar da velha crença na liberdade, temos hoje uma tolerância maior com - e até mesmo uma demanda por - esquemas coletivistas que prometem seguridade social, proteção contra os rigores da concorrência de mercado e alguma coisa em troca de nada.
"Nunca é possível estudar Franklin Delano Roosevelt em excesso", disse Gingrich. Mas se estudarmos FDR com reverência, a lição que aprenderemos será essa: o governo é um meio imensamente útil para quem quiser atingir suas aspirações particulares, e recorrer a esse reservatório de benefícios potencialmente apropriáveis é perfeitamente legítimo.
Uma coisa que devemos definitivamente temer é o político que acredita nisso.
_______________________________
[1] Lei federal para restringir o comércio dos EUA com países que lhes são hostis. Essa lei dá ao presidente americano o poder para supervisionar ou restringir todas as transações comerciais entre os EUA e países inimigos em tempos de guerra. [N. do T.]
[2] Organização lobista que representa os agricultores e fazendeiros dos EUA. [N. do T.]
[3] Bernard Baruch foi um financista, especulador da bolsa, ocupante de cargos públicos e conselheiro presidencial. Foi após ter obtido sucesso nos negócios que ele se tornou o mentor de presidentes democratas - como Woodrow Wilson, além do próprio Roosevelt - para assuntos econômicos. Foi um dos criadores da idéia de que, durante uma guerra, o estado deve controlar todos os aspectos da economia, e pouco espaço deve ser dado à iniciativa privada. [N. do T.]

O New Deal ridicularizado (novamente)

O New Deal ridicularizado (novamente)
Criadores de modelos macroeconômicos finalmente descobriram aquilo que Henry Hazlitt e John T. Flynn (entre outros) já sabiam desde os anos 1930: o New Deal de Franklin Delano Roosevelt (FDR) alongou e aprofundou a Grande Depressão. Não passa de mito a tese de que FDR "nos tirou da Depressão" e "salvou o capitalismo de si próprio", como tem sido ensinado a gerações de americanos (e, conseqüentemente, ao resto do mundo) em todas as instituições educacionais estatais.
A descoberta de tal fato da parte dos macroeconomistas vem na forma de um artigo, de agosto de 2004, no Journal of Political Economy intitulado "New Deal Policies and the Persistence of the Great Depression:  A General Equilibrium Analysis", pelos economistas Harold L. Cole e Lee E. Ohanian, ambos da UCLA. E isso é de grande importância, dado que o JPE é tido como o periódico acadêmico mais importante do mundo econômico.
"O produto interno bruto real por adulto, que estava 39 por cento abaixo da média histórica no auge da Depressão em 1933, permaneceu 27 por cento abaixo dessa mesma média histórica em 1939", escrevem os autores. E "De maneira similar, as horas de trabalho na iniciativa privada estavam 27 por cento abaixo da média em 1933 e permaneceram 21 por cento abaixo da média em 1939".
Isso não deve ser nenhuma surpresa para qualquer um que tenha estudado a realidade da Grande Depressão, já que as estatísticas do U.S. Census Bureau mostram que a taxa oficial de desemprego ainda era de 17,2 por cento em 1939, não obstante os sete anos de "salvação econômica" implementados pela administração Roosevelt (a taxa de desemprego normal, antes da Depressão, era de aproximadamente 3 por cento). O PIB per capita era menor em 1939 do que em 1929 ($847 vs. $857), bem como os gastos pessoais em consumo ($67,6 bilhões vs. $78,9 bilhões), tudo de acordo com os dados do Census Bureau. O investimento privado líquido no período de 1930-1940 foi negativo, de -$3,1 bilhões.
Cole e Ohanian escrevem como se estivessem muito surpresos - até mesmo chocados - em descobrir esses fatos; não porque se sentissem enganados pelo Mito do New Deal, mas por causa de sua devoção irrestrita aos "modelos neoclássicos" em oposição ao mero estudo daquilo que verdadeiramente constitui a realidade econômica. Eles consideram "surpreendente" o fato de que a recuperação da Grande Depressão foi "muito fraca" (uma declaração dramaticamente suavizada). E por que é tão surpreendente? Porque "esses dados se contrastam fortemente com a teoria neoclássica . . ."
A teoria neoclássica sobre depressões pode muito bem ser pensada como uma teoria Frankenstein. De acordo com Cole e Ohanian, "Essa fraca recuperação é algo enigmática porque os grandes choques negativos que segundo alguns economistas causaram a recessão de 1929-1933 - incluindo os choques monetários, os choques de produtividade e os choques do sistema bancário - se tornaram positivos após 1933". Assim, de acordo com a teoria neoclássica, a economia durante uma depressão é como se fosse um Frankenstein debilitado, com os economistas atuando no papel dos cientistas loucos que aplicam choques na besta até que ela se torne um ser vivo novamente. Eles fazem isso com várias "injeções" de gastos governamentais e crédito fácil que supostamente irão provocar uma estrondosa recuperação (assim como a besta rejuvenescida urrou quando deixou o laboratório para ir aterrorizar os habitantes da cidade no filme "O Jovem Frankenstein", comédia de Mel Brooks.)
"A base monetária aumentou mais de 100 por cento entre 1933 e 1939", escrevem os autores, argumentando que tal "choque monetário" deveria ter devolvido a economia à sua normalidade. Eles invocam a autoridade de macroeconomistas famosos como Robert Lucas e Leonard Rapping, que certa vez proclamou que "choques monetários positivos deveriam ter produzido uma forte recuperação, e o emprego deveria ter retornado ao seu nível normal até 1936".
Mas como Murray Rothbard mostrou em sua obra America's Great Depression, foram as políticas de crédito fácil do início e meados dos anos 1920 que criaram todos os maus investimentos que provocaram a Grande Depressão. A única atitude correta teria sido permitir a liquidação de centenas de negócios sobrecapitalizados. Ao invés disso, o banco central (Federal Reserve) aumentou a base monetária em 100 por cento em um período de cinco anos, causando mais dos mesmos problemas de sobrecapitalização que foram justamente as causas do problema.
Para complementar tudo isso, praticamente cada uma das políticas do New Deal de FDR apenas piorou as coisas e prolongou ainda mais a Depressão. Os economistas austríacos já sabem disso há décadas, mas ao menos parece que os modeladores neoclássicos finalmente perceberam o óbvio - pelo menos é o que se espera.
Cole e Ohanian aparentemente emergiram daquele rarefeito mundo das modelagens macroeconômicas por um período suficiente para descobrir que o chamado Primeiro New Deal (1933-1934) foi um gigantesco esquema de cartel, pelo meio do qual o governo tentou impor uma cartelização dos preços e uma redução do nível de produção em centenas de indústrias e na agricultura. Obviamente isso já foi bem documentado no livro de John T. Flynn, The Roosevelt Myth, publicado inicialmente em 1948. Henry Hazlitt também já havia escrito sobre isso 15 anos antes. "As políticas de cartelização do New Deal são um fator chave por trás da fraca recuperação, sendo responsáveis por aproximadamente 60 por cento da diferença entre o nível de produção da época e a média histórica", escrevem os autores.
Que tenha demorado tanto para que o "mainstream" da economia neoclássica reconhecesse este fato é realmente assombroso. Por várias gerações seus próprios livros-textos vêm ensinando que cartéis "restringem a produção" para poder aumentar os preços. Também nunca foi nenhum segredo o fato de que a essência do Primeiro New Deal se baseava no uso dos poderes coercivos do governo para se elevar salários e preços através da cartelização de toda a economia.
FDR e seus conselheiros erroneamente acreditavam que a Depressão foi causada por uma queda nos preços; sendo assim, preços mais altos - sustentados por ameaças de violência, coerção e intimidação pelo estado - seriam a "solução". Além do mais, não é nenhum mistério que, se houver menos produção, será necessário um número menor de trabalhadores, o que, consequentemente, levará a uma alta do desemprego. Assim, a teoria econômica neoclássica padrão já deveria há muito ter percebido que o Primeiro New Deal nada mais foi do que um colossal esquema produtor de desemprego.
A triplicação de impostos feita por FDR, sua regulamentação dos negócios, e sua implacável propaganda anti-iniciativa privada também contribuíram para piorar a Grande Depressão, mas nada supera suas políticas trabalhistas, que provavelmente foram as mais danosas para as perspectivas de emprego dos trabalhadores americanos. Sob esse aspecto, a parte mais desapontadora do artigo de Cole e Ohanian é que eles sequer citam o trabalho pioneiro de Richard Vedder e Lowell Gallaway, Out of Work: Unemployment and Government in Twentieth Century America, publicado em 1993.
E é realmente vergonhoso que eles não mencionem esse renomado trabalho ao mesmo tempo em que usam essencialmente os mesmos argumentos de Vedder e Gallaway. Eles recitam muitos dos mesmos fatos sobre política trabalhista: leis do NIRA (National Industrial Recovery Act) que estabeleceram salários mínimos similares tanto para os trabalhadores pouco qualificados como para os de alta qualificação; os empregadores que receberam ordens de negociar coletivamente com os sindicatos, aos quais foram dados uma miríade de vantagens legislativas nos processos de acordos trabalhistas, todos reforçados pela recém criada NLRB (National Labor Relations Board). Todas estas políticas encareceram a mão-de-obra. Conseqüentemente, como a lei econômica da demanda já nos ensinou, o inevitável resultado só poderia ser o aumento do desemprego.
Entre 1936 e 1937, as atividades grevistas dobraram. Em 1936 ocorreram greves equivalentes a uma perda de 14 milhões de dias de trabalho, valor esse que apenas um ano depois dobrou para 28 milhões. E somente em 1937 os salários subiram quase 15 por cento. A diferença salarial entre trabalhadores sindicalizados e não-sindicalizados, que era de 5 por cento em 1933, foi para 23 por cento em 1940. A recém-criada Previdência Social, bem como outros impostos sobre a folha de pagamento criados para bancar o seguro-desemprego, encareceram ainda mais o custo de se empregar alguém. O que tudo isso mostra é que durante um período de fraca e declinante demanda por trabalho, as políticas do governo empurraram significativamente para o alto os custos da mão-de-obra, fazendo com que os empregadores a demandassem cada vez menos.
Vedder e Gallaway conduziram uma avaliação econométrica dessas custosas políticas trabalhistas e concluíram que grande parte do desemprego anormal ocorrido nessa década de 30 não teria ocorrido não fossem essas políticas governamentais. Eles estimaram que em 1940 a taxa de desemprego foi oito pontos percentuais mais alta do que teria sido caso não tivesse havido esse crescimento do sindicalismo, induzido pelas legislações criadas, e caso não houvesse esses custos trabalhistas recém ordenados pelo governo. Eles então concluem que "A Grande Depressão foi significativamente prolongada, tanto em sua duração como em sua magnitude, pelo impacto dos programas do New Deal" (pág. 141).
Cole e Ohanian chegaram exatamente às mesmas conclusões, mas expressaram-nas naquele linguajar tipicamente convoluto que sempre é utilizado nos "principais periódicos econômicos": "As políticas industriais e trabalhistas do New Deal não tiraram a economia da Depressão . . . . Ao contrário, as políticas coligadas de aumento do poder de barganha da mão-de-obra e da articulação de conluios com o pagamento de maiores salários impediram que houvesse uma recuperação normal, criando-se cismas e um ineficiente atrito entre os que estavam dentro dos sindicatos com os que estavam fora, o que levou a um aumento significativo dos salários e a uma restrição do emprego . . . .  o abandono dessas políticas coincidiu com a forte recuperação econômica da década de 1940".
Esta última conclusão - que o abandono das políticas de FDR "coincidiu" com a recuperação dos anos 40 - foi muito bem documentada por um outro autor que também foi ignorado por Cole e Ohanian: Robert Higgs. Em "Regime Uncertainty:  Why the Great Depression Lasted So Long and Why Prosperity Resumed after the War" (Independent Review, 1997), Higgs mostrou que foi a relativa esterilização das políticas do New Deal, junto com uma redução (em dólares absolutos) do orçamento federal de $98,4 bilhões em 1945 para $33 bilhões em 1948, que permitiu a recuperação econômica. A produção do setor privado aumentou quase um terço apenas no ano de 1946, o que fez com que o investimento do capital privado aumentasse pela primeira vez em dezoito anos.
Em resumo: foi o capitalismo que realmente encerrou a Grande Depressão, não a cartelização desmiolada promovida por FDR, seus aumentos salariais, sua sindicalização maciça, e suas políticas de expansão do assistencialismo. É bom ver que o Journal of Political Economy, a Universidade de Chicago e a UCLA estão finalmente abraçando a erudição libertária de Richard Vedder, Lowell Gallaway, Robert Higgs, Jim Powell (autor de FDR's Folly) e os predecessores destes, tais como Henry Hazlitt, John T. Flynn, Murray Rothbard,  F.A. Hayek, William H. Hutt, Benjamin Anderson, e outros associados à Escola Austríaca.
Antes tarde do que nunca.

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Hoover e a fraudulenta história da Grande Depressão

Hoover e a fraudulenta história da Grande Depressão

Desde o final de 2007, mais e mais comentaristas econômicos vêm delineando paralelos entre a atual crise financeira e a Grande Depressão.  Prêmios Nobel e conselheiros presidenciais confiantemente proclamam que foi Herbert Hoover e sua frugalidade laissez-faire que exacerbaram a Depressão, e que a economia americana foi salva somente depois que Franklin Delano Roosevelt ousadamente gerou vários déficits orçamentários para lutar contra os nazistas.  Mas como documentado em meu novo livro, The Politically Incorrect Guide to the Great Depression and the New Deal, essa história oficial é totalmente falsa.
Primeiro vamos falar claramente sobre as políticas fiscais de Herbert Hoover.  Contrariamente ao que você ouviu na escola ou tem lido recentemente, Hoover adotou um comportamento típico de um livro-texto keynesiano após a queda da bolsa de valores.  Ele imediatamente cortou as alíquotas do imposto de renda em 1% (válida para o ano fiscal de 1929) e começou a ampliar os gastos federais, aumentando-os em 42% entre os anos ficais de 1930 e 1932.
Mas para que realmente avaliemos as credenciais genuinamente keynesianas de Hoover, vale lembrar que esse imenso aumento dos gastos ocorreu em simultâneo a um colapso das receitas de impostos, decorrentes tanto do declínio da atividade econômica quanto da deflação de preços do início da década de 30.  Essa combinação fez com que a administração Hoover gerasse um nível de déficits até então sem precedentes na história americana, para períodos de paz.  E o que é mais interessante: a plataforma da campanha presidencial de Roosevelt atacava justamente esses feitos de Hoover!
Quão grandes foram os déficits de Hoover?  Bem, seu antecessor, Calvin Coolidge, havia gerado superávits em absolutamente todos os seis anos de sua presidência, e ele foi capaz de manter o orçamento federal praticamente em níveis constantes, não obstante toda a prosperidade (e o consequente aumento da arrecadação) dos anos 20.  Contrariamente a Coolidge - que realmente foi um presidente que prezava um estado pequeno - Herbert Hoover conseguiu transformar um superávit inicial de $700 milhões em um déficit de $2,6 bilhões já em 1932.  E exatamente esses anos de forte aumento de gastos e déficits, foram os anos em que o desemprego mais subiu.
É verdade que, pelas cifras atuais, esses números não parecem grande coisa; durante o último ano do governo Bush, o Secretário do Tesouro Henry Paulson dava valores muito maiores aos banqueiros - durante o café de manhã.  Mas tenha em mente algo muito importante: o déficit de $2,6 bilhões ocorreu porque Hoover gastou $4,6 bilhões ao mesmo tempo em que coletou $2,6 bilhões de impostos.  Ou seja: como porcentagem do orçamento total, esse déficit de 1932 foi algo estarrecedor - mais de 56% do orçamento.  Seria o equivalente aos EUA terem tido um déficit de $3.3 trilhões em 2007 (quando o déficit naquele ano foi de $162 bilhões).  Em termos do PIB, o déficit de 1932 foi o equivalente a 4%, o que dificilmente classificaria Hoover como um 'desalmado' cortador de gastos.
O real motivo de o desemprego ter explodido durante o mandato de Hoover não foi seu 'aversão' a déficits ou sua 'paixão' pelo padrão-ouro.  Não.  A conduta que distanciou Hoover de todos os presidentes americanos anteriores foi a sua insistência de que as grandes empresas não diminuíssem os salários como resposta ao colapso econômico.  Hoover tinha a errônea noção de que o poder de compra dos trabalhadores era a fonte de solidez de uma economia, e que, portanto, haveria um ciclo vicioso se as empresas começassem a demitir empregados e a cortar salários em decorrência de uma queda na demanda.
Os resultados falam por si sós.  Durante a cruel e insensível era "liquidacionista", antes de Hoover, as depressões (ou "pânicos") regularmente acabavam em menos de dois anos.  Sim, certamente não era nada divertido para os trabalhadores ver seus contracheques encolhendo rapidamente.  Porém isso assegurava uma rápida recuperação - e, em todo caso, o impacto era amortecido porque os preços também caíam.
Assim, qual foi o destino dos trabalhadores durante a presumivelmente compassiva era Hoover, quando os 'esclarecidos' líderes empresariais mantiveram inalterados os salários em meio a uma forte queda nos preços e lucros?  Bom, a economia básica nos ensina que preços mais altos fazem com que uma menor quantidade de algo seja comprada.  E como o "salário real" (isto é, o valor nominal ajustado pela deflação nos preços) dos trabalhadores aumentou mais rapidamente nos início dos anos 30 do que havia aumentado até mesmo durantes os "Vibrantes anos 20", as empresas não podiam bancar a contratação de mais gente.  Não havia recursos para tal.  Foi por isso que o desemprego disparou para inimagináveis 28% em março de 1933.
"Isso tudo é muito interessante", o leitor cético pode dizer, "mas é inegável que a enorme gastança da Segunda Guerra Mundial tirou os EUA da Depressão.  Portanto, é óbvio que Herbert Hoover não gastou o suficiente."
Ah, agora chegamos a um dos maiores mitos da história econômica, o suposto "fato" de que os gastos militares americanos salvaram a economia.  Em meu livro, baseei-me enormemente no trabalho pioneiro e revisionista de Bob Higgs, que mostrou em vários artigos e livros que a economia americana estava atolada na depressão até 1946, sendo este o ano em que o governo federal finalmente relaxou seu controle sobre a economia, liberando os recursos e trabalhadores do país.  Foi esse o ano em que o governo federal cortou nada menos que 33% de seu orçamento, liberando recursos para o setor produtivo da economia.
Para uma completa exposição, você terá (naturalmente) de comprar meu livro.  Mas aqui vai um rápido resumo: é óbvio que as taxas de desemprego caíram acentuadamente depois que os EUA começaram a recrutar compulsoriamente homens para as forças armadas.  Isso não deveria ser nada surpreendente.  Da mesma forma, se Obama quiser reduzir o desemprego americano hoje, basta ele pegar dois milhões de trabalhadores demitidos, equipá-los com armas e botes infláveis, e mandá-los para combater piratas.  Voilà!  A taxa de desemprego cairia.
As medidas oficiais do governo americano, que mostram um PIB crescente durante os anos da guerra, também são enganosas.  Os números do PIB incluem o gasto governamental, o que faz com que os magnânimos dispêndios militares sejam considerados globalmente.  Porém sabemos que $1 milhão gasto em tanques dificilmente representa a mesma genuína produção econômica decorrente de $1 milhão gasto pelas famílias na compra de carros, por exemplo.
Além dessa distorção, Higgs nos lembra que o governo americano instituiu controle de preços durante a guerra.  Se o Banco Central imprime muito dinheiro para possibilitar ao governo comprar enormes quantidades de bens (tais como munições e bombardeiros, neste caso), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) vai disparar.  Assim, quando os estatísticos econômicos forem calcular os números do PIB nominal, eles terão de ajustá-los para baixo por causa do forte aumento ocorrido no custo de vida, o que fará com que o PIB "ajustado pela inflação" (real) não pareça tão impressivo.  Mas esse ajuste não pôde ocorrer à época, pois o governo proibiu que o IPC aumentasse.  Portanto, os números oficiais que mostram o "PIB real" americano aumentando durante a Segunda Guerra Mundial são tão falsos quanto os anúncios da União Soviética sobre suas façanhas industriais.
Nesse artigo, tratei apenas superficialmente todos os mitos que permeiam a Grande Depressão e o New Deal.  Por exemplo, também nos é dito constantemente - dessa vez pelos economistas de Chicago, e não pelos keynesianos - que "aprendemos durante a Depressão" que o Banco Central precisa expandir rapidamente a base monetária para evitar o desastre.  Oops, mais uma fraude.  A base monetária aumentou 31% do final de 1930 até o início de 1933, ano dos piores números.  Mas você terá de comprar meu livro para entender melhor.

N. do T.: O livro anterior de Murphy, The Politically Incorrect Guide to Capitalism, foi traduzido pela editora Saraiva sob o título (ruim) de Pecados do Capital.  A tradução, porém, tem erros graves.  Um trecho em que Murphy fala claramente que o padrão-ouro funcionaria no mundo atual foi traduzido como 'não funcionaria'.  Sugerimos ao leitor fluente em inglês optar pela edição original.  
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