No ano de 1923, o Vasco conquistou o seu primeiro título de Campeão Carioca. Com uma equipe recheada de jogadores das camadas populares, conseguiu desbancar um a um os seus adversários. Fazendo uma campanha espetacular, a equipe vascaína fez história ao conquistar pela primeira vez o campeonato com jogadores negros e brancos de baixa condição social, abalando a estrutura do racismo e do preconceito social vigentes no futebol do Rio de Janeiro, então Capital Federal.
Devemos recordar que no decorrer da Primeira República (1889-1930), o Rio de Janeiro exerceu papel preponderante como capital cultural e local das principais decisões políticas e administrativas do país. Transformado-se no grande centro cosmopolita da nação, os acontecimentos ocorridos no espaço carioca repercutiam a nível nacional e internacional como em nenhum outro local do país.
A façanha vascaína revoltou os clubes que comandavam o futebol da Liga Metropolitana e monopolizavam os títulos de "Campeão da Cidade". Nos primeiros meses de 1924, ocorreu uma cisão que resultou na criação de outra liga, a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), cujos clubes fundadores foram o América FC, o Bangu AC, o Botafogo FC, o CR do Flamengo e o Fluminense FC.
Baseando-se no discurso falacioso da necessidade de se ter maior controle sobre "a moral no esporte" e de se defender um futebol que fosse puramente amador, essas elites visavam encobrir a luta pelo controle de uma entidade que regesse esse esporte e, consequentemente, administrasse os crescentes recursos financeiros mobilizados em torno da sua prática institucionalizada.
A AMEA convidou o Vasco para participar de seu primeiro campeonato, em 1924. Contudo, as condições para a sua participação eram extremamente desfavoráveis. A principal exigência era a exclusão por parte do Clube de 12 jogadores, dentre eles 7 dos que haviam conquistado o campeonato do ano anterior. Esses homens foram apontados pela Sindicância da nova liga como indivíduos despossuídos de condições morais para a prática do futebol, baseando-se no critério do analfabetismo e das condições e natureza das profissões dos jogadores vascaínos.
Os estatutos da AMEA tinham por objetivo impedir que clubes montassem equipes competitivas com jogadores das camadas populares e, consequentemente, tivessem condições de conquistar o campeonato, o que o Vasco havia feito.
Em resposta às exigências preconceituosas da AMEA, o então presidente vascaíno, José Augusto Prestes, emitiu um ofício comunicando que desistiria de fazer parte da associação por "não se conformar com o processo porque foi feita a investigação das posições sociaes desses nossos consócios, investigação levada a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa" (Ofício nº261, 07 de abril de 1924).
A negativa vascaína em 1924 representou o repúdio total da entidade ao racismo e ao preconceito social em voga no futebol da Cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma, os dirigentes vascaínos deixaram claro que, enquanto instituição, o Clube não aceitaria essa situação. O Vasco então, por não acatar as condições que lhe foram impostas, retorna para a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT).
Neste mesmo ano, impulsionados pela tentativa dos ditos "grandes clubes" em enfraquecer o Vasco, os dirigentes vascaínos já debatiam seriamente a compra de um terreno para a construção de um estádio próprio, enxergado como meio de se obter total autonomia para o Clube.
A força da Instituição, baseada no seu corpo associativo e na capacidade do Clube de atrair uma grande massa de torcedores, fazia com que o Vasco não pudesse ser relegado pelos demais. Durante o campeonato de 1924, continuava a levar multidões aos estádios, demonstrando a sua pujança. O Vasco conquistaria de forma invicta o Campeonato Carioca, o primeiro dos seis que ostenta atualmente, sagrando-se Bicampeão (1923-1924).
Os clubes fundadores da AMEA, ao verem que mesmo fora de um campeonato organizado por sua liga o Vasco mantinha-se forte, não encontraram outra solução senão a de ter que convidá-lo novamente para fazer parte dessa associação. Como consequência, o Clube passou a fazer parte da AMEA no ano de 1925, com status de clube fundador e podendo contar com todos os seus jogadores, inclusive, os atletas negros.
Em defesa de sua política de seleção de jogadores sem quaisquer discriminações e no intuito de se ver livre dos onerosos alugueis de estádios, o Vasco adquiriu o terreno para a construção da sua "própria casa", em 28 de março de 1925. Assim, o surgimento de São Januário está intrinsecamente ligado à luta do Vasco em prol de um futebol sem distinção de raça ou condição social. O Estádio Vasco da Gama, inaugurado em 21 de abril de 1927, então o maior estádio da América do Sul, é uma demonstração cristalina da força da Instituição e de seu ímpeto em levar a cabo os seus ideais.
Rio de Janeiro, 7 de Abril de 1924.
Officio No 261
Exmo. Snr. Dr. Arnaldo Guinle,
M. D. Presidente da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos.
As resoluções divulgadas hoje pela Imprensa, tomadas em reunião de hontem pelos altos poderes da Associação a que V. Exa. tão dignamente preside, collocam o Club de Regatas Vasco da Gama numa tal situação de inferioridade, que absolutamente não pode ser justificada, nem pelas defficiencias do nosso campo, nem pela simplicidade da nossa séde, nem pela condição modesta de grande numero dos nossos associados.
Os previlegios concedidos aos cinco clubs fundadores da A.M.E.A., e a forma porque será exercido o direito de discussão a voto, e feitas as futuras classificações, obrigam-nos a lavrar o nosso protesto contra as citadas resoluções.
Quanto á condição de eliminarmos doze dos nossos jogadores das nossas equipes, resolveu por unanimidade a Directoria do C.R. Vasco da Gama não a dever acceitar, por não se conformar com o processo porque foi feita a investigação das posições sociaes desses nossos consocios, investigação levada a um tribunal onde não tiveram nem representação nem defesa.
Estamos certos que V. Exa. será o primeiro a reconhecer que seria um acto pouco digno da nossa parte, sacrificar ao desejo de fazer parte da A.M.E.A., alguns dos que luctaram para que tivessemos entre outras victorias, a do Campeonato de Foot-Ball da Cidade do Rio de Janeiro de 1923.
São esses doze jogadores, jovens, quasi todos brasileiros, no começo de sua carreira, e o acto publico que os pode macular, nunca será praticado com a solidariedade dos que dirigem a casa que os acolheu, nem sob o pavilhão que elles com tanta galhardia cobriram de glorias.
Nestes termos, sentimos ter que comunicar a V. Exa. que desistimos de fazer parte da A.M.E.A.
Queira V. Exa. acceitar os protestos da maior consideração estima de quem tem a honra de subscrever
Mas, como já está claro, trata-se aqui de uma falsa dicotomia: uma falácia lógica em que dois pontos alternativos, tidos como contrários ou contraditórios, são tomados como únicas opções possíveis. É o caso da perspectiva que busca contrabalancear ética e biologia como duas fontes inconciliáveis.
Sendo assim, por uma questão de empatia para com a intelectualidade de quem leva o mundo a sério, é necessário mostrar que ética e biologia são não apenas conciliáveis, como também a ética só tem a ganhar quando a biologia serve para afirmá-la.
O CÉREBRO DO HOMEM E DA MULHER
VER IMAGEM Á CIMA NI LINK DA FONTE Um dos casos mais polêmicos da neurociência diz respeito ao estudo do cérebro humano. Mais especificamente, diz respeito às diferenças entre cérebros de homens e de mulheres.
Esse tipo de estudo é polêmico porque algumas pessoas entendem que ele se compara, em termos gerais, à frenologia, aquela área que aplicava delimitações entre etnias, baseadas no tamanho do crânio de diferentes tipos de seres humanos – o que dava margem para argumentações supremacistas e preconceituosas.
Porém atualmente sabemos: sim, o sexo importa.
Superado o tabu, pesquisas já demonstraram que os cérebros masculino e feminino apresentam padrões divergentes de interconectividade estrutural, particularmente entre os hemisférios.
Essas diferenças hoje são cruciais para a aplicação de boas condutas na gestão de medicamentos, por exemplo, como é o caso da descoberta de que o ibuprofeno pode tornar os homens mais emocionais, informação que pode ser usada para ajudar os homens a se abrirem mais sentimentalmente e mesmo demonstrar mais empatia – algo com efeitos éticos práticos na sociedade.
Num estudo sobre percepção da dor, em que foram avaliadas diferenças sexuais na dor relatada sobre mais de 250 doenças e condições, entre mais de 11.000 pacientes – um dos maiores estudos na área -, é demonstrado que mulheres sentem dor mais intensamente do que homens, o que torna a atenção às diferenças sexuais necessária na hora de gestar medicamentos para o tratamento de dor – outro ponto com efeitos éticos práticos, pois evitaria danos desnecessários ao indivíduo.
Ainda outro estudo mostra que drogas psicotrópicas afetam homens e mulheres de formas distintas, deixando claro que analgésicos, antidepressivos e outros medicamentos para o cérebro têm efeitos específicos conforme o gênero.
O que está em jogo aqui é a validade da percepção de que diferentes indivíduos devam ser tratados de forma igual pelos sujeitos. Refutar essa percepção não significa, porém, defender que pessoas com determinadas características devam ser subjugadas por outras, mas que a forma com que tratamos diferentes sujeitos deve seguir à risca suas particularidades. E aí está outro ponto ético importante: o princípio da equidade (tratar os desiguais desigualmente na medida de suas desigualdades), o qual assegura o devido tratamento ao indivíduo, respeitando suas particularidades.
Outra questão essencial, em termos tanto éticos quanto científicos, é a derivada de tudo o mais exposto acima: já que há diferenças intrínsecas a homens e mulheres e devemos, portanto, tratar disso com seriedade, por que drogas para mulheres são testadas exclusivamente em homens?
É fato que a pesquisa sobre medicamentos usualmente é feita em homens. Isso ocorre, infelizmente, porque pesquisadores não querem se irritar com a burocracia de justificar politicamente o motivo de fazer o teste em mulheres, dado que há muitos empecilhos e tabus sobre a existência de diferenças sexuais em nível neurológico, ocasionados pela crença pretendidamente ética de que homens e mulheres são, ao fim das contas, “iguais”.
Mas precisamos aceitar que não há como lutar contra a própria natureza. Enquanto as diferenças existirem, qualquer pretensão ética de um mundo melhor que ignore tais características não estará ajudando os indivíduos – pelo contrário, estará os ceifando de si mesmos em prol de ideologias puras.
[optinform]
O CASO DA HOMOSSEXUALIDADE
Infelizmente não trata-se apenas de ceifar o indivíduo de si mesmo, é preciso encaixá-lo em determinada conjunção ideológica. Sobre isso me refiro a algo que pode ser considerado um desserviço às questões LGBT: anular a biologia do campo da discussão em função de alguma argumentação do tipo “tudo é construção social”, como propõe a chamada teoria queer.
Os mais variados gêneros, constructos sociais segundo a teoria queer.
VER IMAGEM Á CIMA NI LINK DA FONTE
Para essa teoria, é tida como verdadeira a ideia de que não existem papéis sexuais biologicamente inscritos na natureza humana. Essa perspectiva confronta a biologia evolutiva ao ignorar que somos animais e que dificilmente a seleção natural teria ido apenas até o pescoço, como se características de performatividade de gênero e mesmo de atribuições estéticas não fossem relevantes em termos de procriação e adaptação de nossa espécie ao longo dos milênios (pode-se dizer, creio, que essa teoria é apenas mais uma variação da crítica ao darwinismo social, que torna um estudo sério num grande espantalho e tenta colocar outra perspectiva, desta vez anticientífica, no lugar).
Essa percepção é contestável quando vemos que, por mais diferentes que sejam as mais variadas culturas, não faz sentido aceitar que “sociedades ameríndias e da Oceania, separadas por mais de 50 milênios, tenham construído números similares de gênero por razões puramente culturais”, como demonstra Eli Vieira, geneticista e divulgador científico. O fato é que papel de gênero não é tudo por trás dos gêneros – há um peso biológico e evolutivo sobre a questão.
Porém não é apenas a negação da biologia para pensar as questões LGBT que as atrasam. Muitas vezes, a negação da ciência acaba condizendo com perspectivas ultraconservadoras, as quais estas mesmas minorias sociais dizem combater.
Tal associação de polos dissonantes é entendida como Teoria da Ferradura, uma teoria da ciência política que preconiza que, quanto mais aos extremos determinadas ideologias estejam, mais parecidas, na prática, elas serão.
Para exemplificar, quando uma pessoa defende que gênero é construção social ela dá margem para que líderes conservadores argumentem que, já que é construção social, então trata-se de uma opção. Da mesma forma, quando nega-se a biologia do sujeito para defender a naturalidade de seus comportamentos, Silas Malafaias da vida se apoiam nessa mentira para afirmarem que “não existe gene gay“.
Portanto, a melhor defesa que a comunidade LGBT pode fazer a si mesma é estudar biologia. É entender o que está por trás de seu comportamento, de seu organismo, de sua vida. É aceitar que não há apenas aspectos psico e sociais no sujeito, mas especialmente há aspectos biológicos, os quais são a base de todos os outros.
Uma boa noção sobre a existência de características biológicas na homossexualidade é um ponto positivo pelos direitos sociais desta minoria.
Se há, portanto, uma defesa ética para o respeito e a busca de equidade de tratamento e igualdade de direitos para minorias sociais, ela passa pela biologia.
O QUE ESTÁ POR TRÁS DA ÉTICA
Já demonstrei acima que ética e biologia não se confrontam, pelo contrário: juntas são mais fortes. Agora pretendo fixar o que, ao longo dos anos interessado em éticas das mais variadas (sejam axiológicas, deontológicas ou dos direitos dos animais), boas defesas éticas têm pelo menos duas características: são cumulativas e dizem respeito ao indivíduo.
1 – Cumulativas porque buscam inserir o máximo de seres no escopo ético.
Se na Antiguidade o único ser de direitos, considerado cidadão, era o homem grego acima de 21 anos (em Atenas era assim, sendo mulheres, crianças e escravos como não enquadrados na cidadania e, portanto, sem direitos como ao voto, por exemplo), na Modernidade essa visão passou a ser contestada graças a liberais como John Stuart Mill e Mary Wollstonecraft, fundamentando visões como as que hoje buscam colocar no escopo de direitos mulheres e negros, dentre outras minorias sociais.
Justamente por ser cumulativa é que a ética tem uma natureza de abrangências, em que o maior número de fatores envolvidos para definir o que seja, em termos morais, certo ou errado, terá peso definitivo em nossos julgamentos.
É o caso quando, sobre um mesmo assunto em que buscamos dizer qual é a atitude mais correta a tomarmos, pesamos tanto a dor dos indivíduos envolvidos quanto o custo-benefício social, econômico e ambiental. Já escrevi a respeito em um artigo intitulado Consumismo e Ética Animal, analisando fatores distintos para poder provar um ponto em defesa dos animais.
Portanto, estudar e mesmo defender o estudo da ética passa por defender a necessidade dos fatores somativos que dizem respeito aos indivíduos de direitos. Ontem libertamos escravos, hoje buscamos libertar minorias humanas sociais, amanhã libertaremos os animais. Um dia, quem sabe, passaremos a considerar as plantas – por mais absurdo que isto soe atualmente (pois ter soado absurdo há 300 anos que mulheres pudessem votar não significa que elas realmente não pudessem).
Uma boa ética, portanto, considerará a biologia, uma vez que agregá-la às considerações morais é estar de acordo com a cumulatividade da ética.
2 – Dizem respeito ao indivíduo porque não há sociedade possível, em termos sustentáveis, que negue o indivíduo ou mesmo parte d’ele mesmo.
John Leslie Mackie, um autor que tenho gostado bastante e sobre o qual escreverei em breve aqui no Ano Zero, defende a chamada “Subjetividade de Valores”, uma perspectiva que nega a existência de valores morais absolutos, em termos metafísicos (como poderia querer Immanuel Kant), mas sem negar a objetividade de julgamentos (que ele diz existir em função de “Padrões Avaliativos”), e nesse ínterim acaba mostrando que julgamentos objetivos podem ser totalmente arbitrários.
Porém, segundo Mackie, os melhores julgamentos que possam existir não são meramente arbitrários, mas parcialmente, uma vez que devem considerar o sujeito a ser julgado em suas instâncias mais particulares.
Tome como exemplo um caso de campeonato de cães: um cão que seja premiado em função do gosto do juiz não está sendo justamente premiado, mas um cão que o seja em função da objetividade de sua existência (como sua biologia, levando em consideração sua fisiologia) será melhor julgado e, portanto, haverá mérito de fato no julgamento – o cão, afinal, foi considerado no conjunto de sua obra, e não meramente a partir da ideologia (visão de mundo) do juiz.
Nesse sentido, uma boa defesa ética passa pela consideração plena do indivíduo, o inserindo tal qual ele é em termos biopsicossociais. E boa parte do indivíduo, quer você queira ou não, é sua biologia.
Por outro lado, se tem algo que pode servir muito mais facilmente (e que realmente serve) para atacar minorias são justamente visões éticas. A Sharia e a Lei de Talião são exemplos de éticas aplicadas a determinados contextos que simplesmente destroem o indivíduo em prol de uma visão coletiva sobre o certo e o errado – e, pasme, quando para quem aplica essas éticas é alegado que a biologia fundamenta a existência de homossexuais, eles simplesmente dizem não à biologia, em prol de suas ideologias.
Então não, não dá pra simplesmente anular parte do indivíduo e dizer que se importa com ele. Quem faz isso o está negando, está negando a si mesmo, e isso não é apenas uma ideologia de erros crassos, é também contradição.
Quando aceitarmos nossa condição biopsicossocial, veremos que não há o que sobressaia-se de tal modo que alguma dessas particularidades possa ser chutada para escanteio. A revolução neolítica não veio para transformar nós, primatas, em outros animais, agora tão somente sociais. Dissociar biologia de ética, portanto, é distanciar-se de si mesmo.
Precisamos, por fim, entender duas coisas:
1 – O problema nunca é a coisa em si, mas como a utilizamos. Quando aprendermos isso e deixarmos isso bem fixo em nossas mentes, seremos não apenas mais generosos quanto à interpretação do mundo à nossa volta, veremos também que não é pela possibilidade da biologia ser usada de forma errônea que ela deva ser anulada – e isso serve para qualquer área do conhecimento humano.
2 – As demandas sociais interagem com as ciências naturais. As ciências naturais e as sociais não se excluem mutuamente, portanto quanto maior o conjunto de conhecimentos acerca de um assunto, maior e melhor será a possibilidade de argumentação para transformar essas questões nas instâncias políticas e sociais.
O que eu peço então é simples: sejamos honestos com nós mesmos.
Seja você um justiceiro social, um ultraconservador ou mesmo apenas alguém a quem só interessa uma vida boêmia, bora aceitar que não há nada que possa nos dissociar de nossa própria condição biológica, e que, sim, podemos ser éticos sem mandar longe a nossa biologia.
O biólogo Edward O. Wilson já teve um jarro de água gelada despejado sobre ele numa conferência científica e ouviu mais de uma vez estudantes da Universidade de Harvard berrarem em megafones pela sua demissão – alguns chegando até a levar matracas para fazer barulho em suas palestras. Tudo por ser considerado um dos pioneiros da sociobiologia – a idéia de que é possível compreender o comportamento humano e da sociedade por meio da biologia, tese nada popular entre os cientistas sociais que o acusam de fomentar uma nova versão de darwinismo social (uma mescla de sociologia com biologia que, no século XIX, foi usada para justificar as desigualdades sociais). “O irônico é que a maioria dos cientistas sociais que me criticam cometem os mesmos erros dos darwinistas sociais”, diz Wilson. “Usam a ciência para defender as crenças de uma ideologia política.”
Ele diz que as novas descobertas da neurobiologia sobre a mente humana aproximarão inevitavelmente as ciências humanas das ciências naturais, uma união que ele defende em seu livro Consiliência – A Unidade do Conhecimento (Editora Campus), em que sugere que até a busca de Deus pelo homem não passa de uma herança genética dos nossos antepassados.
Super – Sugerir que até a religião humana está intimamente ligada aos nossos genes não é um excesso de determinismo genético?
Concordo que é difícil as pessoas aceitarem que a predisposição humana para a religião é uma conseqüência normal da evolução genética do cérebro. A ânsia por acreditar em alguma existência transcendental, na imortalidade, faz muito mais sucesso do que a ciência. E esse é um dilema humano: evoluimos geneticamente para aceitar uma verdade e descobrimos outra. Mas temos que ter humildade para reconhecer que nem sempre o que desejamos corresponde à verdade.
E qual seria a origem dessa inclinação para a fé em Deus?
Em primeiro lugar, precisamos concordar que não há nenhuma evidência da existência de uma vida transcendental. Já os estudos sobre o comportamento humano indicam que nossa inclinação para a religião pode ter evoluído do comportamento de submissão animal. Explico: em bandos de macacos rhesus, por exemplo, o macho dominante do grupo caminha firmemente com a cauda e a cabeça erguidas, enquanto os macacos dominados mantêm a cabeça e a cauda baixa, em sinal de respeito ao líder do bando. Estar subordinado a um líder dá a esses animais mais proteção contra os inimigos e garante a eles maior acesso aos alimentos e ao abrigo. Qualquer cientista comportamental que viesse de outro planeta estudar o homem perceberia facilmente a semelhança entre esse comportamento de submissão e a tendência humana de se submeter a um Deus.
Em seu livro Consiliência, você propõe uma fusão das ciências humanas com as ciências naturais. Acha mesmo isso possível?
Não apenas acho possível como considero essa união quase inevitável. Não é aceitável que as ciências humanas permaneçam numa espécie de ilha distante de todas as outras disciplinas, ignorando os avanços da biologia e de suas explicações sobre a natureza humana. As novas descobertas sobre o cérebro e a consciência humana serão decisivas para essa união. E estamos cada vez mais perto de decifrar o cérebro e sua relação com a mente. Quando parte desse mistério for desvendado, ninguém poderá estudar a sociedade e a cultura como antes.
No passado, a união entre as ciências humanas com a biologia foi responsável pelo darwinismo social e pelas teorias racistas. Por que essa união daria certo agora?
É preciso deixar claro que o darwinismo social e as teorias racistas não eram teorias científicas de verdade, nem tinham o objetivo de unir áreas da ciência. Essas teorias tentaram aplicar uma ideologia a um modelo científico. E esse continua sendo o principal problema das ciências humanas: estudar a sociedade com o viés de uma ideologia. E esse erro não foi apenas das teorias que serviram de base para o nazismo. Os regimes totalitários de esquerda também usaram a ciência para legitimar uma idéia de homem e da sociedade ideal. Ou seja: tão pernicioso quanto as teorias do determinismo biológico para justificar as desigualdades sociais foi a adoção do marxismo-leninismo pelos cientistas sociais. A verdadeira ciência não pode ser vinculada aos interesses de nenhuma ideologia política. Isso é a morte da ciência, em qualquer área.
Mas se os genes nos programaram para diversos traços do nosso comportamento, alguém não poderia usar essa tese para justificar uma ideologia?
Poderia. Mas não faria nenhum sentido do ponto de vista científico. A constatação de que, em interação com o ambiente, nossos genes têm um papel fundamental na natureza humana não significa que certo comportamento seja necessariamente bom ou ruim. Você não pode atribuir valor a um traço genético apenas pelo fato de que ele é genético. Seria o mesmo que argumentar que um comportamento é mais ético que outro só porque ele está mais próximo da natureza. Seguindo essa premissa, alguém poderia justificar atrocidades dizendo que a violência está em nossos genes. É claro que a violência faz parte dos homens. Mas a capacidade de escolher também é um dos mais importantes traços humanos.
Poderemos, no futuro, eliminar alguns traços indesejáveis do homem – da mesma forma como erradicaremos algumas doenças genéticas?
Isso será possível e não tenho dúvidas de que, nesse momento, a humanidade terá que fazer sua escolha ética mais importante: devemos continuar vivendo da forma como os nossos genes nos montaram, ou devemos eliminar traços indesejáveis como a agressividade? Eu tenho uma posição firme sobre o assunto: acredito que a natureza humana deve ser preservada. Afinal, uma aparente imperfeição como a inclinação para a violência de um adolescente pode ser a mesma fonte do espírito que leva os exploradores a escalarem montanhas. São faces da mesma moeda. Se não tivermos cuidado, poderemos transformar os seres humanos em animais apáticos, uma espécie de autômato domesticável.
Quando você começou a defender a biodiversidade, essa palavra fazia parte apenas do jargão dos biólogos. Como você avalia as políticas ambientais do Brasil e de outros países?
A maioria dos países, incluindo o Brasil, ainda não se conscientizaram da riqueza que possuem. A verdadeira nova economia não será baseada em computadores, mas no uso das informações que as diversas espécies de vida no planeta carregam dentro de si. Mesmo depois da Eco-92, os economistas continuam fazendo recomendações como se o meio ambiente simplesmente não existisse. Acho que precisamos com urgência incluir o mundo natural e o bem-estar humano entre os indicadores de riqueza dos países. Com esses novos critérios de classificação, o destaque do Brasil seria ainda maior. Pelo menos enquanto conseguir preservar suas reservas de florestas tropicais .
Escrito por Heitor De Paola
| 22 Maio 2012
Artigos -
Cultura
Um
povo que durante milênios foi afastado de sua terra, rapidamente
mostrou que mesmo em diáspora continuou sendo uma poderosa nação.
Foi demais para Stalin – e continua sendo para supostos aliados ocidentais.
Com
as declaradas intenções nazistas de exterminar os judeus, Stalin, ele
mesmo antissemita, aproveitou para mostrar-se como campeão da defesa dos
judeus e outras minorias. A fábrica de mentiras comunista criou o mito
de que o Pacto Molotov-Ribbentropp era uma saída stalinista para salvar a
URSS e o comunismo da “reação capitalista antirrevolucionária
representada pelo nazismo”, e não o que realmente era: a continuação
lógica da aliança com a Alemanha na conquista e destruição dos países
livres da Europa ocidental (1). Hitler seria apenas a ponta de lança da
ofensiva e para tal Stalin implicitamente endossou a política de
extermínio judaico. Substituiu Máxim Lítvinov, nascido Meir Henoch
Mojszewicz Wallach-Finkelstein, um judeu de rica família de banqueiros
de Bialystock, da função de Comissário do Povo para Assuntos Exteriores,
que exercia desde 1930, por Vyácheslav Mikháilovich Mólotov.
Este
não era judeu e não ofenderia aos aliados nazistas que dificilmente
aceitariam um como negociador. Mólotov foi um dos signatários da
resolução do Politbüro autorizando o massacre de Katyn
(atribuindo posteriormente as mortes aos nazistas) e liderou
pessoalmente a Comissão Extraordinária para a Expropriação de Grãos na
Ucrânia, que se apossou de 4,2 milhões de toneladas, levando os
camponeses ucranianos à escassez abrupta e à fome (conhecido como Holodomor, o Holocausto Ucraniano).
Na
época do Holodomor a NKVD (antecessora do KGB) possuía 40% de judeus
entre seus membros, sendo que mais da metade - 54% - dos generais (2).
Os judeus eram a única minoria étnica super-representada na NKVD ao
final do Grande Terror. Em 1936 a representação dos judeus no aparato
central da NKVD em Moscou era de 64% e na Ucrânia Soviética 67%.
A
possível explicação para isto eram os pogroms do período tzarista,
principalmente por parte dos kossacos na Ucrânia, e durante a guerra
civil o fato de que o exército Branco era ostensivamente judeofóbico
enquanto o Vermelho era comandado por um judeu, Leon Trotsky, nascido
Lev Davidóvitch Bronstein. Era natural que os judeus vissem o estado
soviético como protetor.
A
URSS se beneficiou enormemente das violências públicas na Alemanha
nazista encorajando a Frente Popular, comandada pelo Partido Comunista
(KPD - Kommunist Partei Deutschland) e o Front Populaire francêsa mostrá-la como protetora das minorias étnicas europeias.
O
Grande Terror foi uma terceira revolução soviética: a de 17 mudou o
sistema político, a coletivização forçada pós 1930 mudou o sistema
econômico e o Terror de 37-38 significou uma revolução mental,
destruindo grande parte das teorias marxistas e leninistas.
Stalin
se aproveitou desta grande participação judaica para por a culpa nos
judeus. Ao final do Grande Terror, em 1938, apenas 20% da NKVD eram da
minoria judaica e um ano depois não mais de 4%. Todos foram mortos a
começar pelos líderes Izrail Leplevskii, Lev Raikhman e Boris Berman.
Stalin
começava a mostrar suas garras antissemitas que o levariam a novos
expurgos. Mas a hipocrisia ainda não chegara ao seu fim...
Stalin e as repercussões de Yom HaAtzmaut (3) “Él
término anti-semitismo fué acuñado por el pensador alemán Wilhelm Marr
para amparar uma ideologia que propugna la inferioridad y malignidad de
los judíos.” Sergio Vich Sáez, Las semillas del ódio – Europa desata el terror, Revista Historia y Vida, nº 520.
O final da guerra e o conhecimento do horror do Holocausto judeu (Shoah)
fez renascer esperanças, mas a volta dos sobreviventes aos seus antigos
lares não foi fácil. A judeofobia continuava dominante em muitos
países, como na URSS e na Polônia. Seus bens tinham agora novos donos
que resistiram a lhes devolver, provocando longos e penosos processos
judiciais geralmente mal resolvidos para os judeus. Para muitos a opção
sionista esboçada de forma ambígua por Lord Balfour, por insistência de
Theodor Herzl, parecia a mais viável. A Declaração Balfour não falava da
criação de uma pátria judia, mas sim de um lugar onde poderiam regular
sua convivência com as comunidades não-judias da área.
A
ambigüidade levou a que as próprias autoridades britânicas, signatárias
do Tratado se Sèvres, impedissem o desembarque de navios de refugiados
que eram internados em campos provisórios no Chipre, numa forma mais
benigna, mas não menos humilhantes que os campos de concentração.
Em
mais uma medida obscura, a resolução da ONU ordenou a partição da
região de um estado judeu e outro árabe, reforçando o anti-semitismo
muçulmano. Os árabes trataram logo de mandar contingentes de egípcios,
jordanianos, libaneses e outros para ocupar a terra, criando do nada um
mitológico povo “palestino” que juraram defender contra a “entidade
sionista”. Até hoje este é o nome oficioso de Israel para os muçulmanos,
e grande parte culpa vem da ambiguidade e obscuridade das declarações e
resoluções mencionadas acima.
Stalin
percebeu a chance de se opor ao imperialismo britânico na região
criando um estado comunista. Certamente a maioria dos primeiros colonos
judeus era socialista e se dedicaram a incrementar um sistema que já
existia há décadas nas áreas rurais, uma economia baseada exclusivamente
no cooperativismo e na divisão igualitária do trabalho e dos bens: os kibutzim.
Estes
primeiros colonizadores acreditavam ter uma grande gratidão com a
liberdade com que exerceram suas atividades na URSS, inclusive com o
apoio dado por Stalin ao Comitê Judeu Anti-Fascista e o grande número de
judeus aceitos em altos cargos soviéticos, inclusive na NKVD, como
vimos. O segundo homem do regime, considerado por anos como o virtual
sucessor de Stalin, Lázar Káganovitch, conhecido com “o lobo do Kremlin”
ou “Lázar de ferro”, era judeu. Participara, junto com Mólotov na
Conferência do Partido para Toda a Ucrânia em 1930, na qual se
determinaram as tarefas de implementação da política de coletivização
forçada (1932-33) que causou o Holodomor. Supervisionou pessoalmente o
confisco de grãos. Políticas similares foram infligidas às Repúblicas
Centrais Soviéticas, como o Cazaquistão, Kuban, Criméia e baixo Volga.
A
participação de judeus até no Comitê Central (5 de 210 membros) e a
ajuda inicial da URSS na fundação do Estado de Israel, o treinamento de
soldados na Polônia comunista, o envio de armas tchecas para a lutar
contra os invasores árabes e o fornecimento de víveres enganou os
primeiros colonizadores de ter na URSS e nos seus satélites da Cortina
de Ferro amigos fiéis e duráveis. Não se deram conta de que Stalin
apenas perseguia uma estratégia de dominação do Oriente Médio, pois
inicialmente os países árabes recém-descolonizados foram dirigidos por
governos títeres do Ocidente.
Naqueles
tempos iniciais mais judeus viviam na URSS do que em Israel. Os russos,
judeus ou não, parecem ter adorado a carismática embaixadora Golda
Meir, nascida em Kiev. O Rosh Hashanah foi naquele ano uma das
festas mais concorridas de Moscou nos últimos vinte anos. Polina
Zhiemchuzhina, mulher de Mólotov encorajou Golda a voltar a frequentar a
sinagoga e as tradições religiosas e, falando em iídichesugeriu a unidade nacional judia sem fronteiras.Ekatierina Gorbman, mulher de Klímient Voróshilov exclamou: “Agora nós também temos nossa própria Terra Natal”.
A
pergunta que Stalin se fez era se devia continuar apoiando Israel
contra o Ocidente, ou se o estabelecimento de uma pátria para ser
considerada sua colocava em risco a lealdade dos judeus soviéticos para
com a URSS, e deveria ser não apoiada, mas temida. No final de 1948
decidiu que os judeus estavam influenciando mais o estado Soviético do
que este conseguia influenciar o estado judeu.
Em 1948 e início
de 49 começaram as medidas antissemitas na URSS: acabara-se o efeito da
hipocrisia stalinista, veio a decepção e, como não poderia deixar de
ser numa personalidade cruel e totalitária, que não aceitava decepções
mesmo de seus mais próximos colaboradores (por isso os grandes expurgos
na cúpula civil e militar dos anos 30), surgiu a vingança.
Decepção e vingança: a repressão interna e o antissionismo “A
lo largo de los siglos, aquellas antiguas tribus hebreas iban a
resisitirse a todo intento foráneo de asimilación. Su obstinación les
granjeó muchos enemigos”. Sergio Vich Sáez, Las semillas del ódio – Europa desata el terror, Revista Historia y Vida, nº 520
Não
obstante tenha havido – e ainda haja - coincidência ideológica de
muitos judeus com o comunismo, mais uma vez as “tribos hebréias” não se
deixaram assimilar pelo stalinismo. E agora tinham uma terra para
orgulhosamente chamar de sua! Às identidades étnicas, culturais e
religiosas, somava-se agora a identidade pátria. Não só identidades, mas
principalmente solidariedades e sentimento de irmandade. Um povo que
durante milênios foi afastado de sua terra, rapidamente mostrou que
mesmo em diáspora continuou sendo uma poderosa nação.
Foi demais para Stalin – e continua sendo para supostos aliados ocidentais.
Na verdade, a repressão stalinista começou antes da fundação de Israel. Já em janeiro de 48, Solomon Mikhoels, chairman
do Comitê Judeu Antifascista e Diretor do Teatro Yiddish de Moscou, foi
brutalmente assassinado em Minsk por ordem direta de Stalin (4) a
Lavrienty Tsárvana, chefe da polícia bielorrussa. Mikhoels estava lá
para julgar uma peça para o Prêmio Stalin de Teatro. Como ele escrevia
uma história dos partisans judeus que lutaram contra a Wermacht e o Livro Negro do Judaísmo Soviético,
ambos sumiram. Os judeus foram sem dúvida os que mais sofreram em Minsk
durante a guerra, mas a liberação pelos comunistas não terminou com
seus sofrimentos e isto não poderia ser mostrado.
Retroativamente
Viktor Abákumov, chefe do então MVD, concluiu em março que Mikhoels era
um perigoso nacionalista judeu a serviço dos Estados Unidos.
O
Holocausto não podia fazer parte da história oficial soviética, pois
esta teria que admitir sua cumplicidade: implícita, pela aliança com a
Alemanha até 41 e dissolvida por Hitler, não por nenhuma ação soviética
explícita, já que muitos russos se apresentaram à polícia como
voluntários para tomar conta dos guetos e guarnecer os campos de
Treblinka, Sobibór e Bełżec. Tal colaboração, maciça em alguns lugares,
minava a crença no mito de uma população soviética unida na defesa da
honra da Rodina (5)na resistência ao odiado invasor fascista. Portanto, o extermínio em massa dos judeus tinha que ser esquecido. Uma
distorção mais profunda da história, especialidade marxista, já estava
em andamento: a mudança da própria data do início da guerra. Esta não
poderia ser admitida como tendo começado em 1939 com a invasão e
participação conjunta germano-soviética na divisão e destruição da Polônia derivada do Pacto Mólotov-Ribbentropp(6),mas sim pela invasão alemã em 1941. Tomou forma a história oficial soviética: a Grande Guerra Patriótica é confundida como sendo uma versão russa do nome do conflito em substituição ao consagrado II Guerra Mundial, quando não é: é
a total distorção da verdade histórica para livrar a URSS e Stalin do
fato de terem sido co-partipantes, e até mesmo a verdadeira raíz da
guerra contra a Polônia e o Ocidente. Assim, os territórios absorvidos
através da agressão soviética passaram a “ser” partes da Rússia desde sempre, e
o morticínio soviético no leste polonês, igual ou mais brutal ainda que
o germânico a Oeste, foi disfarçado de baixas soviéticas causadas pelos
alemães. No número “oficial” de baixas soviéticas estão incluídos
poloneses, ucranianos, lituanos, bielorrussos e de outras regiões, que
foram na verdade, assassinados pelos russos durante o Grande Terror, na
coletivização forçada ou em atos de guerra. Assim se faz a história
segundo os cânones da distorcida dialética marxista (7). Uma
das mais absurdas distorções foi a aplicação ao levante do gueto de
Varsóvia em 1943, uma luta desesperada dos judeus que acabou numa das
maiores tragédias da guerra, onde inúmeros judeus demonstraram um
heroísmo ímpar ao enfrentar a morte inevitável.
Pode-se notar neste feito comunista um exemplo do que recentemente fazia furor no Brasil e na França, o desconstrucionismo e a “construção” de uma mentira em seu lugar: o
levante foi descrito pelo judeu polonês comunista Hersh Smólar segundo a
fórmula “dialética” de Andréi Zhdánov segundo a qual existiam dentro do
gueto dois grupos: o progressista e o reacionário. Este último era
constituído pelos sionistas de esquerda ou direita e o Bund, União
Judaica Trabalhista, o primeiro pelos comunistas. Segundo a fábula de
Smólar só os comunistas lutaram contra as tropas nazistas: “Toda a
resistência contra o fascismo era, por definição, comandada por
comunistas, caso contrário não seria resistência” (8).
A oficialização do antissemitismo
A jornal do Partido, Pravda (A
Verdade) sempre foi o veículo que anunciava a “nova linha” decidida
pelo Politbüro. A população soviética aos poucos se acostumou a modular
suas opiniões pelas mudanças ideológicas expressadas em suas páginas,
não apenas nos editoriais como também no próprio tom das notícias,
inclusive, no que viria a ser consagrado como Ministério da Verdade, por Orwell, às súbitas mudanças no teor das mesmas, dando início ao que hoje chamamos de politicamente correto. Em 28 de janeiro de 1949, um ano após a morte de Mikhoels, o Pravda publicou
um artigo sobre “críticos teatrais não patriotas”, defensores do
“cosmopolitismo apátrida” iniciando uma campanha de denúncia de judeus
em todas as áreas profissionais. Em março o Pravda dispensou
todos os colaboradores judeus, assim como o Exército Vermelho e o
próprio Partido Comunista. O Comitê Judaico Anti-Fascista foi dissolvido
em novembro por ter se tornado uma “agência a serviço do imperialismo
americano”. Mais
uma vez a “dialética” marxista conseguia acusar os judeus
simultaneamente de nacionalistas e cosmopolitas. Abákumov desencadeou
uma verdadeira caça aos judeus nas mais altas posições no Estado e no
Partido. Stalin, por razões políticas, não permitiu que Káganovitch, o
único judeu ainda no Politbüro, fosse preso, mas a mulher de Mólotov,
Polina Zhemchuzhima, foi presa, seu marido vergonhosamente se divorciou e
ela foi exilada para o Kazaquistão. De nada adiantou: Mólotov foi
expurgado do Partido pouco depois. Stalin
havia justificado o Grande Terror para remover qualquer ameaça em
potencial contra a URSS antes de dar início à guerra em 1939. Depois
desta, Stalin estava convencido de que uma terceira grande guerra contra
o Ocidente seria inevitável e precisava se livrar dos judeus
soviéticos, supostamente espiões americanos. Em 1951, Stalin, já
fisicamente doente, inventou que havia uma conspiração de médicos judeus
para matar os líderes soviéticos e declarou que “todo judeu é um
nacionalista e agente da inteligência americana”. Em 30 de janeiro o Pravda anunciou oficialmente o complô.
Na Polônia comunista o antissemitismo se estabeleceu com a mesma
incongruência “dialética”: os judeus foram divididos em duas classes, os
“sionistas” eram a favor do Estado de Israel e os “cosmopolitas”
tendiam a favorecer os Estados Unidos, mas ambos os grupos eram aliados
do imperialismo e, portanto, inimigos do Estado. A liderança comunista
polonesa identificava Israel com a Alemanha Nazista e o sionismo com o
nacional-socialismo. Israel representava o campo reacionário: judeus
milionários ligados aos monopólios americanos. É
impressionante como esta interpretação, simplória e idiota, ainda é a
dominante na esquerda, inclusive judia, sessenta anos depois!
Notas: 1
- A aliança soviética com as forças armadas alemãs começou em 1922,
corroborando a oferta de Erich von Ludendorff, chefe do Estado-Maior na
Frente Oriental, de transportar Lenin da Suíça para Petrogrado e
declarar a paz em separado (Tratado de Brest-Litovski) eliminando a frente oriental da I Guerra Mundial. Ver: The Red Army and the Wehrmacht: How the Soviets Militarized Germany, 1922-33, and Paved the Way for Fascism, the Secret Archives of the Former Soviet Union, de Yuri Dyakov & Tatyana Bushuyeva, Prometheus Books, 1995. 2 - Todas as informações desde que não sejam referidas a outras fontes, são do livro Bloodlands: Europe Between Hitler and Stalin, de Timothy Snyder, Basic Books, 2010.
3
- Yom HaAtzmaut (do hebraico יום העצמאות) é o Dia da Independência de
Israel, e cujo feriado ocorre no dia 5 de Iyar, que correspondeu a 14 de
Maio de 1948, dia no qual David Ben-Gurion declarou o fim do Mandato
Britânico da Palestina e a fundação do Estado de Israel.
4 -
Segundo testemunho de sua filha Sviétlana Allíuieva, Stalin
pessoalmente sugeriu que o assassinato fosse disfarçado de “acidente de
carro”.
5 - (РОДИНА), a palavra russa para a Mãe-Pátria, não confundir com a atual partido político ultra-nacionalista com o mesmo nome.
6 -
Até a estratégia tinha sido previamente combinada: em primeiro lugar
nazistas e comunistas deviam eliminar todos os intelectuais poloneses,
tarefa não muito fácil, pois a Polônia era dos países com mais
intelectuais de primeira grandeza do que os russos e alemães somados. 7 - Certamente a mesma que está orientando a Comissão “da Verdade” aqui no Brasil. 8 -
Esta mesma fórmula já tinha sido empregada na Guerra Civil espanhola,
negando ter havido resistência a Franco por parte de inúmeros liberais,
como Miguel de Unamuno, e outras forças de esquerda, anarquistas,
trotskystas, independentes e outros. O próprio Federico Garcia Lorca,
republicano com vagas idéias humanitárias confusamente socialistas, foi
transformado em comunista post mortem. As demais forças de
esquerda foram dizimadas pelo comunistas por ordem expressa de Stalin e
endossadas até a morte por canalhas do tipo Pablo Picasso. Depois da
guerra a fórmula foi tentada na França: só os comunistas lutaram de
verdade na Resistánce, os demais movimentos nada fizeram. Assim os comunistas são sempre os únicos heróis e as únicas vítimas.