terça-feira, 24 de outubro de 2017

Dez argumentos para não abolir a escravidão

Dez argumentos para não abolir a escravidão
A escravidão existiu por milhares de anos, em todos os tipos de sociedade e em todas as partes do mundo.  Imaginar como seria a vida social dos homens sem a escravidão era algo que exigia um esforço extraordinário.  Entretanto, de tempos em tempos, sempre surgiam alguns excêntricos que se opunham a ela, a maioria argumentando que a escravidão era uma monstruosidade moral e que, portanto, as pessoas deveriam aboli-la.  Tais pessoas geralmente provocavam diversas reações, que iam desde a galhofa educada até o escárnio ríspido, chegando até mesmo a agressões violentas.
Quando alguém se dava ao trabalho de fornecer alguns argumentos contra a abolição, várias ideias eram defendidas.  Eis aqui dez ideias desse tipo que encontrei durante minhas leituras.
1. A escravidão é natural.  As pessoas são diferentes, e é natural esperar que aqueles que são de certa forma superiores - por exemplo, em termos de inteligência, moralidade, conhecimento, perícia tecnológica ou capacidade de luta — irão transformar-se em mestres daqueles que são inferiores nesses quesitos.  Abraham Lincoln expressou, em 1858, essa ideia em um de seus famosos debates contra o senador Stephen Douglas: "Há uma diferença física entre as raças branca e negra, diferença essa que, acredito, irá para sempre impedir as duas raças de viverem juntas em termos de igualdade social e política.  E, visto que elas não podem portanto viver juntas, enquanto elas permanecerem juntas é necessário existir a posição do superior e do inferior, e eu, assim como qualquer outro homem, sou a favor de que a posição superior seja exercida pelo homem branco".
2. A escravidão sempre existiu.  Esse motivo exemplifica a falácia lógica do argumentum ad antiquitatem (apelo à tradição).  Não obstante, ele sempre persuadiu as pessoas, especialmente aquelas de tendência conservadora.  Mesmo os não-conservadores podem dar a ele alguma substância lógica baseando-se no fundamento quase-hayekiano de que, embora não entendamos por que uma instituição social persiste, sua persistência pode, todavia, estar baseada numa lógica que ainda não entendemos.
3. Todas as sociedades da terra utilizam a escravidão.  O corolário não-explícito é que todas as sociedades devem recorrer ao trabalho escravo.  A difusão generalizada de uma instituição parece, a muitas pessoas, constituir uma prova convincente e irrefutável de sua necessidade.  Talvez, como defende uma das variáveis dessa corrente, toda sociedade utiliza o trabalho escravo porque certos tipos de trabalho são tão difíceis ou tão degradantes, que nenhuma pessoa livre irá se dispor a fazê-lo — e, portanto, a menos que haja escravos para realizar esses trabalhos, eles não serão realizados.  Como dizia o ditado do sul dos EUA, alguém tinha de se sujar de lama, e as pessoas livres não iriam tolerar exercer essa função.
4. Os escravos não são capazes de cuidar de si próprios.  Essa ideia foi muito popular entre as pessoas que viviam nos EUA do final do século XVIII e início do século XIX, entre elas George Washington e Thomas Jefferson, que, embora considerassem a escravidão algo moralmente repreensível, continuaram mantendo escravos e deles obtendo serviços pessoais e renda dos produtos que esses "servos" (como preferiam se referir a eles) eram forçados a produzir.  Seria cruel e desapiedado libertar pessoas que, uma vez libertadas, iriam, na melhor das hipóteses, infligir a si próprias um padrão de autodestruição e sofrimento desnecessário.
5. Sem mestres, os escravos irão morrer em massa.  Essa ideia nada mais é do que a ideia acima levada ao seu extremo.  Mesmo após a escravidão ter sido abolida nos EUA em 1865, muitas pessoas continuaram expressando essa ideia.  Jornalistas do norte, que viajaram ao sul imediatamente após a Guerra Civil, relataram que, de fato, os negros estavam em processo de extinção em decorrência de sua alta taxa de mortalidade, baixa taxa de natalidade, e miseráveis condições econômicas.  É triste mas é verdade, declararam alguns observadores: as pessoas libertadas eram realmente muito incompetentes, preguiçosas ou imorais para se comportarem de modo consistente com a sobrevivência de seu próprio grupo.
6. Onde as pessoas comuns são livres, elas estão em condições ainda piores que as dos escravos.  Esse argumento se tornou muito popular no sul dos EUA nas décadas anteriores à Guerra de Secessão.  Seu principal defensor era o escritor escravocrata George Fitzhugh, cujos títulos de seus livros falam por si sós: Sociology for the South, or, the Failure of Free Society (Sociologia para o Sul, ou, o Fracasso da Sociedade Livre, de 1854) e Cannibals All!, or, Slaves Without Masters (Todos Canibais!, ou, Escravos sem Senhores, de 1857).
Fitzhugh parece ter copiado muitas das ideias do escritor escocês, reacionário e racista, Thomas Carlyle.  A expressão "escravo do salário" ainda hoje ecoa essa concepção que vigorava antes da Guerra Civil.  Fiel às suas teorias sociológicas, Fitzhugh queria estender a escravidão nos EUA para toda a classe operária branca — para o próprio bem dela!
7. Abolir a escravidão iria ocasionar um grande banho de sangue e outros malefícios.  Nos EUA, muitas pessoas assumiam que os senhores de escravos jamais iriam permitir o término do sistema escravocrata sem recorrer a uma guerra geral para tentar mantê-lo.  Com efeito, quando os onze estados confederados do sul e a União foram à guerra — ignorando-se aqui que a questão imediata não era a abolição da escravidão, mas sim a secessão dos onze estados do sul — um enorme banho de sangue e outras mazelas foram o resultado.  Esses trágicos eventos pareceram, na mente de muitas pessoas, validar os argumentos que elas haviam dado contra a abolição. (Elas evidentemente ignoram que, com a exceção do Haiti, a escravidão foi abolida em todo o Ocidente sem que houvesse violência em grande escala).
8. Com a abolição da escravidão, os ex-escravos irão entrar em frenesi, roubando, estuprando, matando e provocando o caos generalizado.  Para que haja a preservação da ordem social, portanto, a abolição da escravidão deve ser sumariamente rejeitada.  Os sulistas viviam apavorados com a possibilidade de insurreições de escravos.  Os nortistas de meados século XIX já consideravam a situação em sua própria região suficientemente intolerável, culpando o maciço influxo de irlandeses bêbados e brigões nas décadas de 1840 e 1850.  Logo, libertar os negros, de quem os irlandeses geralmente não gostavam, e jogá-los nessa mistura iria praticamente garantir o caos social.
9. Tentar acabar com a escravidão é algo ridiculamente impraticável e utópico; somente um sonhador de cabeça perturbada poderia defender uma proposta tão ridiculamente ilógica e absurda.  Pessoas sérias e sensatas não podem se dar ao luxo de perder tempo considerando ideias tão irrelevantes e parvas.
10. Esqueça a abolição.  Um plano muito melhor é manter os escravos suficientemente bem alimentados, vestidos, acomodados e ocasionalmente entretidos, desviando o foco de suas mentes da exploração de que sofrem e estimulando-os a se concentrar na boa perspectiva de vida que os aguarda daqui pra frente.  Não se pode esperar que haja equidade e justiça nessa vida, porém todos nós, inclusive os escravos, podemos aspirar a uma vida de comodidades e júbilo no Paraíso.
Em um dado momento da história, incontáveis pessoas recorreram com naturalidade a um ou mais dos argumentos acima expostos para fundamentar sua oposição à abolição da escravidão.  Entretanto, quando se analisa em retrospecto, esses argumentos nos parecem extremamente prosaicos — parecem mais racionalizações (ato de se inventar possíveis razões para uma ação, razões essas que não se baseiam nas razões verdadeiras) do que argumentações lógicas.
Atualmente, esses argumentos são muito similares àqueles utilizados pelos oponentes de uma diferente forma de abolicionismo: a proposta de que o governo como o conhecemos — o domínio monopolista e individualmente não consensual exercido por um grupo armado que exige obediência e o pagamento de tributos — seja abolido.  Deixo como exercício para o leitor decidir se os argumentos acima mencionados são mais convincentes em relação a essa proposta do que eram em relação à sugerida abolição da escravidão.
FONTE  http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=681


Os quatro tipos de austeridade - por que o governo cortar gastos é positivo para a economia

Os quatro tipos de austeridade - por que o governo cortar gastos é positivo para a economia
Quem acompanha a situação europeia exclusivamente pela mídia fica com a certeza de que o termo 'austeridade' é uma manifestação explícita do anticristo, e que se trata de uma medida que deve ser evitada de todas as formas.  
A ideia é que reduções nos gastos do governo tiram a sustentação da economia e a empurram para uma interminável espiral depressiva.  Curiosamente, quando a imprensa fala em austeridade, ela menciona em tom crítico apenas uma parte dela, que é o corte de gasto, e nada fala sobre a outra parte, que é o aumento de impostose seus efeitos  genuinamente recessivos.
Quando o governo corta gastos, de fato há quem saia prejudicado.  O exemplo mais claro seria o de funcionários públicos que tivessem seus salários reduzidos.  Isso é muito raro, mas pode ocorrer.  As empresas que possuem como clientes principais um grande número de funcionários públicos seriam atingidas.  Pense em um restaurante chique de Brasília que tem como clientela o pessoal das agências reguladoras.  Se as agências fossem abolidas (sonhemos um pouquinho), as receitas desse restaurante cairiam.  Da mesma forma, se o número de deputados e senadores diminuísse, o Piantella iria à falência.
Esse foi um exemplo visualmente fácil de ser entendido.  Há outros menos claros.  Por exemplo, cortes de gastos do governo irão afetar as várias empresas que só sobrevivem porque possuem contratos de prestação de serviços junto ao governo.  Empresas terceirizadas por estatais e empreiteiras que fazem obras para o governo são os exemplos mais claros.  Há também as várias atividades econômicas que recebem subsídios e que, sem estes subsídios, teriam de se virar, cortar gastos e demitir pessoas. 
O que todas estas atividades têm em comum é que elas só sobrevivem e só são lucrativas com a muleta do governo.  Isso faz com que elas sejam classificadas como atividades econômicas insustentáveis.  São atividades que não dependem da demanda voluntária do consumo privado para sobreviver.  Uma vez cortado o fluxo de dinheiro governamental, elas perdem sustentação e definham.  Elas não necessariamente irão quebrar, pois podem se reestruturar e mudar seu enfoque de mercado.  Mas estão indiscutivelmente sobredimensionadas, e a prova disso é que só mantêm seus atuais lucros com dinheiro repassado pelo governo.  Elas são, portanto, atividades que absorvem recursos e capital da sociedade.  Elas não produzem; elas consomem.
Uma redução nos gastos do governo, portanto, possui este efeito salutar sobre a economia.  Faz com que empresas que consomem recursos e que produzem apenas de acordo com demandas políticas tenham de ser enxugadas.  Empresas que só sobrevivem devido aos gastos do governo não produzem para consumidores privados; elas utilizam o dinheiro dos cidadãos mas produzem para o estado.  Elas não utilizam capital de maneira produtiva, de forma a atender os genuínos anseios dos consumidores privados: ao contrário, elas utilizam capital fornecido pelos pagadores de impostos mas produzem apenas para servir a anseios políticos.  Em suma, não agregam à sociedade.  Por definição, subtraem dela.  
Este tipo de atividade econômica privada que só sobrevive por causa dos gastos do governo é idêntico àquelas outras atividades privadas que só são lucrativas quando está havendo uma forte expansão do crédito.  Quando o crédito é farto e barato, e a demanda por imóveis é crescente, várias construtoras e várias imobiliadoras apresentam lucros estratosféricos.  Porém, quando o crédito encarece — ou quando os consumidores já estão muito endividados — e a demanda cai, os lucros viram prejuízos.  Um corte de gastos do governo gera idêntico efeito sobre empresas que possuem o governo ou funcionários do governo como principal cliente.
E por que isso seria bom?  Porque, ao falirem, essas empresas liberam mão-de-obra e recursos escassos que poderão ser utilizados mais eficientemente por empresas mais produtivas, empresas que estão no mercado para realmente atender às demandas dos consumidores.  Por isso, é essencial que, ao cortar gastos, o governo também reduza impostos.  Isso não apenas irá dar mais poder de compra às pessoas, como também irá permitir que as empresas produtivas tenham mais capital e, consequentemente, possam contratar mais pessoas. 
Tendo estes conceitos em mente, há quatro maneiras de se fazer austeridade:
1) Aumentar impostos e cortar gastos;
2) Aumentar impostos e manter gastos inalterados e;
3) Manter impostos inalterados e cortar gastos;
4) Reduzir impostos, e cortar gastos em uma intensidade maior do que o corte de impostos;
A primeira é a que gera uma recessão mais intensa.  De um lado, o corte de gastos debilita aquelas empresas que dependem do governo, o que é bom; mas, de outro, o aumento de impostos confisca ainda mais capital da sociedade, mais especificamente do setor produtivo, que é justamente quem absorveria a mão-de-obra demitida das empresas que faliram em decorrência dos cortes de gastos do governo.  Você tem, portanto, o pior dos dois mundos.  Aumento do desemprego, população com menor poder de compra, e setor privado sem capital para contratar.  É isso que a Europa está fazendo.
A segunda maneira, ao contrário do que se supõe, é a pior.  O governo aumenta o confisco do capital do setor privado, mas continua dando sustentação às empresas ineficientes, que também consomem capital do setor produtivo.  A recessão neste caso é menos intensa, mas os desequilíbrios de longo prazo não são corrigidos.  A economia fica com menos capital, mas as empresas ineficientes seguem firmes, pois seu cliente é o governo, que continua gastando.  No final, tal medida serviu apenas para aumentar o consumo de capital de toda a sociedade.
A terceira maneira é melhor que a primeira e a segunda.  O governo continua confiscando capital, é verdade, mas ao menos liberou outros recursos por meio da falência de empresas que só sobreviviam em decorrência de seus gastos.  Em termos de recessão, é mais branda que a primeira e semelhante à segunda.
A quarta maneira é a maneira correta de se fazer austeridade.  A redução de gastos do governo faz com que empresas ineficientes que dependem do governo sejam enxugadas (ou quebrem) e liberam mão-de-obra e recursos escassos para empreendimentos produtivos e genuinamente demandados pelos cidadãos.  E as empresas responsáveis por esses empreendimentos produtivos terão mais facilidade para contratar essa mão-de-obra demitida porque, em decorrência da redução nos impostos, elas agora têm mais capital e seus consumidores, mais poder de compra. 
Além de não provocar uma recessão profunda — haverá recessão apenas se o governo impuser medidas que retardem a realocação de mão-de-obra de um setor para o outro (por exemplo, aumentando o seguro-desemprego ou o salário mínimo, ou impondo altos encargos sociais que encareçam o processo de demissão e contratação) —, esta maneira é a única que reduz duplamente o desperdício de capital e, com isso, permite uma maior acumulação de capital.  Maior acumulação de capital significa maior abundância de bens produzidos no futuro.  E maior abundância de bens significa maior qualidade de vida.
Portanto, há austeridade e "austeridades".  A melhor maneira é também a menos indolor e a mais propícia ao enriquecimento futuro de uma sociedade.  É injustificável não adotá-la.

O populismo de direita é filho das mentiras que a esquerda populista inventou sobre a globalização

O populismo de direita é filho das mentiras que a esquerda populista inventou sobre a globalização
E os dados empíricos refutam os discursos de ambos
O populismo de esquerda e o populismo de direita mantêm retóricas divergentes: o de esquerda insufla o conflito entre ricos e pobres; o de direita estimula o conflito entre nacionais e estrangeiros (e não só os imigrantes, mas principalmente os produtores de outros países).
Ambos, no entanto, possuem um inimigo em comum: a globalização econômica.
Para o populismo de esquerda, a globalização gera uma oligarquia internacional que acumula "mais-valia" à custa da exploração do Terceiro Mundo. Para o populismo de direita, a globalização empobrece a cultura e a economia nacional ao abri-la à interação com o resto do planeta.
No domingo passado, Alberto Garzón, um dos expoentes mundiais da esquerda populista e principal membro da liga formada por partidos de extrema-esquerda espanhóis, a Unidos Podemos, publicou no portal Eldiario.es um artigo intitulado "A extrema-direita é filha da globalização".
Seu artigo traz uma confissão bastante interessante e inusitada: ele afirma que o processo de globalização econômica vivenciado durante as três últimas décadas beneficiou a maior parte da população do Terceiro Mundo. E beneficiou também os "super-ricos". Já a classe média do primeiro mundo viu sua renda se estancar. E é esse estancamento da renda das classes médias dos países ricos que está alimentando seu rancor à globalização, empurrando essa fatia do eleitorado para a "extrema-direita" nacionalista e protecionista.
Para ilustrar essa tese, Garzón recorre ao mundialmente recém-famoso "gráfico do elefante", elaborado pelo economista sérvio Branko Milanovic. Este gráfico, em forma de elefante, mostra o crescimento da renda per capita durante os últimos 30 anos de todos os percentis de renda. Como se pode observar, todas aquelas pessoas que estão entre os percentis 5 e 65 da distribuição global da renda (ou seja, as pessoas mais pobres do planeta) viram sua renda per capita aumentar entre 60% e 80%. Já as pessoas a partir do 95º percentil da distribuição global da renda (ou seja, os "super-ricos", segundo a esquerda) viram sua renda per capita aumentar de 20% a 60%. Por outro lado, a renda per capita dos cidadãos entre os percentis 75 e 90 (as classes médias do Primeiro Mundo) viram sua renda se estancar radicalmente.



Gráfico 1: crescimento da renda per capital real entre todos os percentis da distribuição global da renda entre 1988 e 2008 (em dólares com poder de compra de 2005)
Segundo Garzón, o erro da "esquerda anticapitalista" perante a globalização econômica das últimas décadas foi o de não saber capitalizar o descontentamento dos perdedores da globalização — as classes médias do Ocidente rico — contra o sistema capitalista. Tal espaço eleitoral, diz ele, acabou sendo ocupado pela extrema-direita.
Mas esse diagnóstico é profundamente errado. O líder da Izquierda Unida está comprando a propaganda falsa capitaneada pela direita populista (ou "extrema-direita", como a esquerda gosta de dizer) porque tal propaganda lhe é também bastante útil: ambas as correntes ideológicas têm o objetivo de desacreditar os benefícios econômicos da liberdade econômica em escala global, pois isso lhes é eleitoralmente interessante.
Como será demonstrado abaixo, o gráfico do elefante de Milanovic não permite subscrever à tese de que os perdedores da globalização foram as classes médias dos países ocidentais ricos. Ao contrário: o gráfico, quando corretamente analisado, mostra que essas classes médias foram notavelmente beneficiadas pela globalização econômica.
Os ganhadores: o Terceiro Mundo e as classes médias ocidentais
Ao analisarmos o gráfico de Milanovic, fica claro que os maiores ganhadores da globalização durante as últimas décadas foram os cidadãos mais pobres do planeta, ou seja, aqueles que estão entre os percentis 5 e 65. 
Estamos falando de pessoas que, em 1988, usufruíam uma renda per capita de algo entre 200 e 1.300 dólares anuais, e que, vinte anos depois, viram essa renda aumentar para algo entre 250 e 2.100 dólares (com valores já corrigidos pela inflação). Tal aumento real pode até não parecer nada espetacular, mas o fato é que, em termos relativos, isso representou a maior redução da pobreza absoluta na história da humanidade. Tenha em mente que, quando se vive com um nível de renda tão baixo, qualquer aumento pode representar a diferença entre comer e não comer, entre usufruir ou não água potável, e entre ter ou não acesso a itens essenciais.
Este acelerado progresso no nível de vida de mais de 4 bilhões de pessoas já deveria, por si só, servir de argumento para a defesa da globalização econômica. Mais ainda: tais dados empíricos, por si sós, já deveriam fazer com que a esquerda, que sempre se disse muito preocupada com a situação dos mais pobres, abraçasse a globalização econômica.
Afinal, se os movimentos de esquerda estão essencialmente preocupados com a situação dos mais pobres, e, como reconhece o próprio líder da Izquierda Unida, a globalização contribuiu para melhorar substantivamente o nível de vida dos mais pobres, então a esquerda deveria ver com bons olhos o processo de globalização econômica.
Com efeito, os últimos 30 anos foram o único período da história, desde o começo do século XIX, em que ocorreu uma redução das desigualdades globais.



Gráfico 2: evolução do índice de Gini em escala mundial
No entanto, a honestidade intelectual não é exatamente algo muito presente nos debates e embates ideológicos. Para a extrema-esquerda — da qual Garzón é um dos porta-vozes —, a globalização econômica tem de ser combatida por aquele motivo de sempre: os super-ricos formam uma pequena oligarquia que se aproveitou da globalização para se enriquecer de maneira muito mais intensa do que as classes médias.
Mas há dois detalhes que são ignorados: primeiro, de acordo com o próprio gráfico de Milanovic, as pessoas que estão no top 5% da distribuição global da renda enriqueceram quase tanto quanto os cidadãos mais pobres do planeta.
Segundo, o top 5% da população adulta mundial em 2008 representava 250 milhões de pessoas (hoje seriam 275 milhões). Isso é muita gente para tão pouca oligarquia. Com efeito, a renda per capita média dos percentis 95 a 99 era, em 2008, de 26.850 dólares. [À época, algo em torno de R$ 49 mil]. Isso significa que, para a extrema-esquerda, todos aqueles cidadãos que tiveram uma renda anual igual ou maior que 26 mil dólares [49 mil reais] integram a plutocracia global que lucrou com a globalização. Sendo assim, e contrariamente ao que diz Garzón, quase todos os cidadãos do Ocidente rico pertencem a essa categoria.
Os verdadeiros perdedores: os filhotes do socialismo real e o Japão
Portanto, se a imensa maioria dos cidadãos do Ocidente rico está entre os "ganhadores da globalização" dentro do próprio gráfico de Milanovic, quem afinal foram os perdedores? Isto é, quem integra os percentis de 80 a 90, e que viu sua renda se estancar ou mesmo diminuir ao longo do processo globalizador das últimas décadas?
Não foram as classes médias do Ocidente rico, mas sim o grosso da população dos países ex-socialistas e também a fatia mais pobre da população do Japão.
O think tank Resolution Foundation se dedicou a desagregar os dados utilizados por Milanovic para elaborar seu famoso gráfico do elefante e o resultado foi, para dizer o mínimo, bastante chamativo. Se excluirmos o Japão e as economias satélites da URSS, a renda per capita do Ocidente cresceu entre 45% e 70% durante as últimas décadas para todas as faixas de renda. O gráfico abaixo agrupa as rendas mundiais por vintis (e não por percentis), o que significa que ele divide a renda em 20 faixas.
Gráfico 3: no eixo horizontal, as 20 faixas de renda (quanto mais à direita, mais rico é o vintil); no eixo vertical, o crescimento da renda de cada vintil no período 1988-2008; a linha azul mostra o comportamento das 20 faixas de renda nos países avançados excluindo Japão e os satélites bálticos da URSS; a linha laranja mostra o comportamento para o resto do mundo excluindo a China; e a linha vermelha mostra o comportamento do Japão e dos satélites bálticos soviéticos.
O gráfico deixa claro que:





1) absolutamente todas as faixas de renda das economias avançadas (linha azul) e das economias em desenvolvimento (linha laranja) enriqueceram com a globalização.
2) no caso das economias em desenvolvimento, os pobres e a classe média ganharam ainda mais que os ricos (como reconhece a própria extrema-esquerda européia e a direita populista do países desenvolvidos);
3) a população mais pobre do Japão e dos satélites bálticos soviéticos foi a única perdedora.
Consequentemente, o estancamento da renda visto nos percentis de 80 a 90 no gráfico do elefante se deve, acima de tudo, ao fato de que a renda de metade do grupo formado pelas populações de Japão e ex-repúblicas socialistas bálticas entra em queda a partir de 1988, e isso empurra para toda a média para baixo.
Milanovic apresentou os dados agregados. A desagregação destes dados mostra novas realidades.
A questão, logo, passa ser: qual foi a culpa da globalização na débâcle das ex-repúblicas bálticas socialistas e do Japão? Absolutamente nenhuma. O PIB dos antigos países socialistas caiu porque as estatísticas econômicas destes países eram desavergonhadamente manipuladas e superestimadas, o que sobredimensinou sua queda quando esses países se abriram e passaram a divulgar dados mais realistas. Já o PIB do Japão se estancou em decorrência do estouro de uma gigantesca bolha de crédito financiada essencialmente por capitais internos e pela péssima política econômica implantada subsequentemente pelo governo japonês. (Veja todos os detalhes sobre o que aconteceu no Japão neste artigo).
Ou seja, a causa do estancamento de uma faixa da distribuição global da renda durante o período 1988-2008 se deveu exatamente ao torpe e exacerbado intervencionismo estatal, que é justamente a bandeira da extrema-esquerda. Se essa fatia da população representa os "perdedores da globalização" não é porque a globalização os empobreceu, mas sim porque a inépcia de seus políticos e o desastre de suas intervenções econômicas impediram que essas pessoas tirassem todo o proveito possível da globalização.
Conclusão: a esquerda populista fornece o combustível ideológico para a direita populista
Em definitivo, os principais beneficiários da globalização durante as três últimas décadas foram as camadas mais pobres da população mundial. Nas economias em desenvolvimento, todas as classes sociais enriqueceram. Nas economias ricas, a renda da classe média não apenas não se estancou, como também cresceu mais de 45% (quando descontada a influência estatística distorciva dos países bálticos ex-socialistas e do Japão).
Ainda assim, há quem possa dizer que os gráficos acima não dizem muito, pois vão apenas até o ano de 2008, exatamente antes da crise econômica. Porém, se atualizarmos o gráfico até 2011 (momento em que o pior da crise já havia sido superado), o que observamos é que os resultados são ainda mais espetaculares para os mais pobres. Mais ainda: os percentis 80 a 90 ficam ainda melhores do que no gráfico anterior.



Gráfico 4: crescimento da renda per capital real entre todos os percentis da distribuição global da renda entre 1988 e 2011 (em dólares com poder de compra de 2011)
Em ambos os gráficos, o resultado evidente é que os ganhadores da globalização foram os mais pobres do planeta, cuja renda mais do que duplicou durante as últimas décadas. Por sua vez, os cidadãos do Ocidente rico não foram prejudicados em termos gerais, ainda que uma minoria deles — ligada àquelas indústrias mais defasadas e que foram afetadas pela nova concorrência global — de fato possa ter sido.
O ressurgimento do populismo de esquerda e de direita observado durante os últimos anos está muito mais vinculado ao empobrecimento derivado da crise econômica de 2008 (causada pela expansão artificial do crédito comandada pelos Bancos Centrais), à imigração muçulmana e a uma reação à cultura do politicamente correto do que ao processo de globalização econômica das últimas décadas. (Qual era a força desses movimentos populistas em 2007, quando o gráfico do elefante de Milanovic já havia computado todos os efeitos da globalização?).
Por fim, vale apontar uma incoerência da esquerda populista dos países ricos: segundo ela, o processo globalizador, não obstante tenha tirado mais de 4 bilhões de pessoas da pobreza, é algo negativo e deve ser interrompido apenas porque prejudica os ganhos de alguns industriais da classe média dos países ricos.
Felizmente, e como acabamos de demonstrar, nem mesmo este raciocínio procede, uma vez que a renda da classe média dos países ricos ocidentais não apenas não se estancou durante os últimos 30 anos de globalização, como ainda cresceu mais de 40% (gráfico 3).
Era de se esperar que a esquerda defendesse com vigor um processo que, como ela própria reconhece, retirou 4 bilhões de pessoas da pobreza.
Infelizmente, o mundo está ficando cada vez mais dividido entre o socialismo nacionalista e o nacionalismo mercantilista. A direita populista não é filha da globalização: em parte, ela é filha das mentiras que a esquerda populista inventou sobre a globalização.

A diferença básica entre globalismo e globalização econômica: um é o oposto do outro

A diferença básica entre globalismo e globalização econômica: um é o oposto do outro
Defender o segundo não implica defender o primeiro
Com a ascensão do populismo nos países desenvolvidos, a globalização econômica caiu em descrédito. Cada vez mais pessoas estão rejeitando a globalização com o argumento de que ela não apenas é injusta como também representa a fonte de todos os males — sendo inclusive a fonte de crises econômicas e imigrações em massa.
Esse tipo de condenação generalizada e abrangente da globalização, porém, apresenta dois erros graves: ela não só é factualmente errada — a globalização econômica comprovadamente aumentou o padrão de vida da população mundial — como também é conceitualmente errada.
Existe o globalismo e existe a globalização. O globalismo é um conceito político. Já a globalização é um conceito econômico.
Globalização econômica
A globalização econômica significa "divisão do trabalho em nível mundial".
A população de cada país se especializa naquilo em que é boa, adquirindo assim uma vantagem comparativa em relação às outras: faço aquilo em que sou melhor que os outros e vendo para eles; e compro dos outros aquilo que eles fazem melhor do que eu. Todas essas transações econômicas devem ser feitas o mais livremente possível, sem a intervenção de governos na forma de tarifas protecionistas e de outras barreiras alfandegárias. (Veja aqui um exemplo prático).
A consequência deste arranjo foi, é e sempre será um aumento no padrão de vida de todos os envolvidos.
Hoje, nenhum país é capaz de viver em autarquia, produzindo absolutamente tudo de que sua população necessita para viver decentemente. Caso um país realmente tentasse produzir tudo o que consome, isso não apenas seria um monumental desperdício de recursos escassos, como também levaria a custos de produção e, consequentemente, preços exorbitantes, afetando drasticamente o padrão de vida da população.
Pense em uma simples camisa. Fabricada na Malásia utilizando máquinas feitas na Alemanha, algodão proveniente da Índia, forros de colarinho do Brasil, e tecido de Portugal, em seguida sendo vendida no varejo em Sidney, em Montreal e em várias cidades dos países em desenvolvimento (ao menos naqueles que são mais abertos ao comércio exterior), a camisa típica da atualidade é o produto dos esforços de diversas pessoas ao redor do mundo.  E, notavelmente, o custo de uma camisa típica é equivalente aos rendimentos de apenas umas poucas horas de trabalho de um cidadão comum do mundo industrializado.
Obviamente, o que é verdadeiro para uma camisa vale também para incontáveis produtos disponíveis à venda nos países capitalistas modernos.
Como é possível que, atualmente, um trabalhador comum seja capaz de adquirir facilmente uma ampla variedade de bens e serviços, cuja produção requer os esforços coordenados de milhões de trabalhadores? A resposta é que cada um desses trabalhadores faz parte de um mercado tão vasto e abrangente, que faz com que seja vantajoso para muitos empreendedores e investidores ao redor do mundo organizarem operações de produção altamente especializadas, as quais são lucrativas somente porque o mercado para seus produtos é de escala global.
Esta especialização tanto do trabalho quanto da produção, ao longo de diferentes setores industriais ao redor do mundo, é exatamente o fenômeno da globalização econômica.
(Recentemente, um homem resolveu fabricar, do zero, um simples sanduíche. Ele plantou o trigo para fazer o pão, retirou o sal da água do mar, ordenhou uma vaca para fazer o queijo e a manteiga, matou uma galinha para retirar o filé de frango, fez o próprio picles e teve até de extrair o mel do favo. Seis meses e US$ 1.500 depois, o sanduíche ficou pronto. E, a julgar pela reação dele próprio, a qualidade do produto final foi medíocre).
O fato é que, hoje, nenhum país produz apenas para satisfazer suas próprias necessidades, mas também para atender a produtores e consumidores de outros países. E cada país se especializa naquilo que sabe fazer melhor.
A globalização econômica, com o livre comércio sendo seu componente natural, aumenta a produtividade de todos os envolvidos. E, consequentemente, aumenta também o padrão de vida de todos. Sem a globalização econômica, a pobreza neste planeta não teria sido reduzida com a intensidade em que foi nas últimas décadas.
Por fim, vale ressaltar que todo e qualquer indivíduo é, em si mesmo, um defensor árduo da globalização econômica, mesmo que ele não saiba disso. As pessoas acordam cedo e vão trabalhar exatamente para ganhar dinheiro e, com isso, poderem consumir o que quiserem. As pessoas trabalham e produzem para poder consumir produtos bons e baratos, independentemente de sua procedência. Eles podem ser oriundos de qualquer parte do mundo; o que interessa é que sejam bons e baratos. Isso é globalização econômica.
Impor obstáculos a esse consumo — isto é, restringir a globalização econômica — significa restringir a maneira como as pessoas trabalhadoras podem usufruir os frutos do seu trabalho. No mínimo, isso é imoral e anti-humano.
Globalismo
Logo de início, é fácil ver que o globalismo — que também pode ser chamado de globalização política — não tem absolutamente nada a ver com a globalização econômica.
Globalização econômica significa livre comércio e livre mercado. Trata-se de um arranjo que não apenas não necessita da intervenção de governos e burocratas, como funciona muito melhor sem eles. Indo mais além, trata-se de um arranjo que surge naturalmente quando não há políticos e burocratas impondo obstáculos às transações humanas.
Já o globalismo é o exato oposto: trata-se de um arranjo que só existe por causa de políticos e burocratas. Seria impossível haver globalismo se não houvesse políticos e burocratas.
O globalismo é uma política internacionalista, implantada por burocratas, que vê o mundo inteiro como uma esfera propícia para sua influência política. O objetivo do globalismo é determinar, dirigir e controlar todas as relações entre os cidadãos de vários continentes por meio de intervenções e decretos autoritários.
Eis o argumento central do globalismo: lidar com os problemas cada vez mais complexos deste mundo — que vão desde crises econômicas até a proteção do ambiente — requer um processo centralizado de tomada de decisões, em nível mundial. Consequentemente, leis sociais e regulamentações econômicas devem ser "harmonizadas" ao redor do mundo por um corpo burocrático supranacional, com a imposição de legislações sociais uniformes e políticas específicas para cada setor da economia de cada país.
O estado-nação — na condição de representante soberano do povo — se tornou obsoleto e deve ser substituído por um poder político transnacional, globalmente ativo e imune aos desejos do povo.
Obviamente, a filosofia por trás dessa mentalidade é puramente socialista-coletivista.
Representa também o pilar da União Europeia (UE). Em última instância, o objetivo da UE é criar um super-estado europeu, no qual as nações-estado da Europa irão se dissolver como cubos de açúcar em uma xícara quente de chá. Foi majoritariamente disso que os britânicos quiseram fugir.
Ao menos para o futuro próximo, este sonho burocrático chegou ao fim. O desejo de impor uma uniformidade afundou em meio a uma dura e difícil realidade política e econômica. A UE está passando por mudanças radicais — culminando com a decisão dos britânicos de sair dela — e pode até mesmo entrar em colapso dependendo dos resultados eleitorais em alguns importantes países europeus (França, Holanda, Alemanha e possivelmente Itália) neste ano de 2017.
Com Donald Trump na presidência americana não há mais qualquer apoio intelectual dos EUA ao projeto de unificação européia. A mudança de poder e de direção em Washington diminuiu o poder de influência dos globalistas — o que permite alguma esperança de que a futura política externa americana seja menos agressiva em termos militares. Trump — ao contrário de seus antecessores — ao menos não parece querer impingir uma nova ordem mundial.
Por outro lado, os defensores da globalização econômica têm motivos para estar preocupados. O governo Trump vem ameaçando utilizar medidas protecionistas — majoritariamente na forma de tarifas de importação — para supostamente estimular o emprego e a produção nos EUA, mesmo com toda a teoria e realidade econômicas demonstrando que o efeito será o oposto.
Tamanha interferência na globalização econômica, o que representaria um retrocesso no tempo, não apenas seria um ataque à prosperidade, como também pode se degenerar em conflitos políticos, reacendendo antigas rixas e contendas. Não precisaria ser assim.
Para atacar e até mesmo aniquilar o globalismo não é necessário atacar e fazer retroceder a globalização econômica.
A globalização é Steve Jobs, Jeff Bezos e Michael Dell; o globalismo é George Soros, o CFR, a Comissão Trilateral, os Rockefeller, os Rothschilds e a ONU.
Conclusão
Ao passo que o globalismo representa o autoritarismo e a centralização do poder político em escala mundial, a globalização econômica — que nada mais é do que a divisão do trabalho e o livre comércio — representa a descentralização e a liberdade, promovendo uma produtiva e, ainda mais importante, pacífica cooperação além fronteiras.
A restrição à globalização econômica — ou seja, o protecionismo — nada mais é do que o medo dos incapazes perante a inteligência e as habilidades alheias. Tal postura, além de moralmente condenável, por ser covarde, é também extremamente perigosa. Como já alertava Bastiat, se, em vez de nos permitirmos os benefícios da livre concorrência e do livre comércio, começarmos a atuar incisivamente para impedir o progresso de outras nações, não deveríamos nos surpreender caso boa parte daquela inteligência e habilidade que combatemos por meio de tarifas e restrições de importações acabe se voltando contra nós no futuro, produzindo armas para guerras em vez de mais e melhores bens de consumo que eles querem e podem produzir, e os quais nós queremos voluntariamente consumir.
Como também disse Bastiat, quando bens param de cruzar fronteiras, os exércitos o fazem. 
Por isso é de extrema importância preservarmos a globalização econômica.

O populismo radical foi rechaçado na Argentina. O grande risco atual é o conformismo e a inércia

O populismo radical foi rechaçado na Argentina. O grande risco atual é o conformismo e a inércia
Para Mauricio Macri realmente vencer, ele tem de liberar a economia



O presidente Mauricio Macri foi o grande vencedor das eleições legislativas que ocorreram neste domingo, na Argentina. A vitória foi acima das expectativas: Macri ganhou em 15 das 23 províncias do país, incluindo Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Santa Fe e o distrito federal da capital.
Com o resultado, sua coalizão, a Cambiemos (Mudemos), se tornou o centro do poder no país, podendo até mesmo vir a substituir o peronismo como eixo central da política argentina.
As vitórias nestes cinco grandes distritos colocam Macri em uma posição de poder inédita desde 1985, a última vez que um não-peronista, Raúl Alfonsín, conseguiu resultado arrasador nas eleições legislativas de meio mandato. A vitória do Cambiemos em Buenos Aires foi especialmente significativa, pois foi ali que a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner se apresentou como candidata ao Senado. Embora ela tenha conseguido uma vaga para o Senado, perdeu a disputa para o candidato apoiado por Macri.
O grande risco desta vitória acachapante é que ela seja interpretada por Macri como uma aprovação ao seu gradualismo. O grande risco é que o presidente interprete sua aprovação popular como um sinal de que ele deve simplesmente manter tudo como está, ou seja, continuar com suas medidas extremamente tímidas e gradualistas em vez de aprofundar e acelerar as tão necessárias reformas econômicas.
Sua vitória já havia sido antecipada pelos mercados financeiros. Após as primárias de 13 de agosto (quando os eleitores votaram para definir as candidaturas das eleições de ontem), a bolsa de valores da Argentina (Índice Merval, linha preta, coluna da direita) apresentou um furioso "rali" ao mesmo tempo em que o Risco País (linha amarela, coluna da esquerda) caía ao menor valor em uma década. O fim do populismo radical kirchnerista foi motivo de alegria para os investidores.

Portanto, dado que o governo alcançou este grau de aprovação política e esta euforia econômica com sua estratégia "gradualista", cabe perguntar: passadas as eleições, haverá maiores reformas econômicas, ou tudo seguirá igual?
A herança maldita
Durante a segunda metade do período kirchnerista, as contas do governo argentino ficaram no vermelho. O déficit orçamentário foi crescendo aceleradamente até chegar ao insustentável valor de 7% do PIB em 2015.
Tendo decretado moratória no início da década de 2000 (e reincidido em 2014), o governo não conseguia se financiar facilmente via empréstimos no mercado financeiro.  Consequentemente, teve de recorrer à inflação monetária — isto é, colocar o Banco Central para imprimir dinheiro — para financiar seus déficits. 
A criação de dinheiro — principalmente a partir de 2009 — ocorreu a uma velocidade espantosa.

Como consequência, os preços se descontrolaram, com a carestia chegando a alcançar os níveis mais altos do ranking mundial. No entanto, dado que, em 2012, o governo decretou que era crime divulgar as taxas reais de inflação, ninguém realmente sabia qual era a verdadeira taxa de inflação de preços no país.
Para culminar, o governo Kirchner fechou a economia ao comércio internacional e adotou um discurso mais alinhado ao governo venezuelano do que ao dos países desenvolvidos.
Os resultados foram lamentáveis: 2,3 milhões pessoas caíram na pobreza durante o último mandato de Cristina Fernández de Kirchner, com a pobreza geral alcançando 30% da população. Já segundo a Unicef, havia quatro milhões de crianças na pobreza, sendo que 1,1 milhão estava na pobreza extrema. Já nos últimos seis anos do kirchnerismo, o número de pobres aumentou 5 milhões.
E, segundo um estudo feito conjuntamente pela Universidade de Buenos Aires com a Universidade de Harvard, os argentinos estavam mais pobres em 2014 do que eram em 1998, graças à desvalorização do peso e a um crescimento econômico muito inferior às estatísticas oficiais divulgadas pelo governo.
Uma das grandes causas do desarranjo da economia argentina durante o período Kirchner foi a política de congelamento dos preços dos setores de energia, de transporte e de água — que são popularmente chamadas de "tarifas de serviços públicos".
O sistema de tarifas congeladas predominou durante os últimos 14 anos e, como não poderia deixar de ser, exigiu que o governo transferisse uma enorme quantidade de recursos para as empresas produtoras para cobrir a diferença entre receitas (congeladas) e custos (em acelerado crescimento por causa da inflação monetária).
Em 2015, somente em subsídios com energia, foram gastos 170,3 bilhões de pesos, um aumento de 4.123% em relação ao ano de 2006. Em termos do PIB, os subsídios à energia, à água e ao transporte chegaram a 5% em 2014.


Isso gerou um ciclo vicioso. Quanto mais o governo imprimia dinheiro, mais os custos operacionais das empresas aumentavam. E como os preços estavam congelados, suas receitas não subiam. Consequentemente, mais subsídios o governo tinha de dar às empresas. Só que os subsídios aumentavam os déficits orçamentários do governo, os quais eram então financiados com mais impressão de dinheiro. 
Essa ciranda resultou em uma das maiores carestias do planeta.
E, como sempre ocorre com os controles de preços, o congelamento tarifário gerou um enorme incremento do consumo (aumentou a demanda), o qual não foi acompanhado por um aumento da produção (pois as receitas estavam congeladas). Como consequência, a oferta desses serviços se deteriorou, não conseguindo suprir a demanda. 
Em um informe publicado em dezembro de 2015, foi relatado que, de 2003 a 2015, o consumo de gás natural aumentou 41%, o de energia elétrica, 58%, e o de gasolina, 153%. No entanto, com preços congelados, a oferta não acompanhou a demanda. Consequentemente, perdeu-se um estoque de reservas equivalente a quase dois anos de produção de petróleo e a mais de nove anos de produção de gás. 
Isso gerou uma deterioração dos serviços: os cortes na oferta de gás para as indústrias, que apresentaram uma taxa de 3% em julho de 2003, subiram para 17% em julho de 2015.
Na região metropolitana de Buenos Aires, as residências ficaram, em média, 32,5 horas sem luz apenas em 2015. Em 2003, a média de horas de apagão era de 8,3. Ou seja, os blecautes quadruplicaram em 12 anos.
Por fim, também segundo os dados oficiais, de 2001 a 2012, o congelamento das tarifas fez com que o gasto total com eletricidade caísse 80% em termos reais (quando se considera toda a inflação de preços). Ou seja, na prática, o kirchnerismo praticamente obrigou as empresas a distribuir luz de brinde para os usuários.
As medidas de Macri
O governo Macri, acertadamente, decidiu abolir essa política de controle de preços, a qual estava afetando severamente os investimentos nesses setores. Além da abolição do congelamento, foi anunciada também a intenção de se acabar com os subsídios.
Consequentemente, houve um reajuste tarifário que doeu no bolso dos argentinos: após a liberação das tarifas, a inflação de preços disparou e, no início de 2016, chegou a 40% no acumulado de 12 meses.
Vale ressaltar que não foram a desvalorização cambial e o aumento das tarifas dos serviços públicos o que causou essa disparada na inflação de preços, mas sim exatamente o contrário: foi o aumento de preços gerado pelo aumento excessivo da oferta monetária, que triplicou em pouco mais de 3 anos (aumento esse feito pelo governo Kirchner para cobrir os déficits orçamentários do governo), o que desarranjou toda a economia, levando à necessidade de um realinhamento do câmbio e das tarifas dos serviços públicos.
Por algum tempo, o governo Kirchner conseguiu recorrer a medidas populistas e evitar que esse efeito chegasse a todas as áreas da economia impondo controles ad hoc. Foi isso o que o governo Kirchner fez ao criar uma taxa oficial artificial para o câmbio (o "cepo" cambial), ao congelar as tarifas dos serviços públicos, e ao determinar — por meio do programa Precios Cuidados — que os supermercados não aumentassem os preços.
No entanto, o que tais programas intervencionistas realmente conseguiram lograr foi reduzir drasticamente as exportações, desestimular investimentos e acabar com os incentivos para que as empresas produzissem cada vez mais e melhores bens e serviços.
Também no front fiscal, o governo argentino eliminou as "retenções" (taxação média de 30% das exportações) para a indústria e para os produtos agropecuários, exceto a soja, cuja tarifa de exportação foi reduzida de 35 para 30%.
Tais medidas foram feitas com o intuito de recuperar as economias regionais melhorando os incentivos à produção, tanto pela redução da carga tributária que incidia sobre o setor quanto pela abolição do "cepo cambiário".[1]
Ambas as medidas — eliminação das retenções e fim do cepo cambiário — incentivaram os produtores a desestocar seus produtos e a vendê-los maciçamente para o mercado externo, trazendo dólares para o país e, com isso, trazendo alívio para as então debilitadas reservas internacionais do Banco Central argentino, que estavam em contínuo declínio desde 2011 e que voltaram a subir, pela primeira vez desde então, em 2016. Hoje, já estão no maior nível desde 2008.
Gradualismo, nadismo ou profundismo?
Por causa destas medidas de liberação de algumas tarifas de serviços públicos, eliminação das retenções, e fim do cepo cambiário, Macri foi acusado de "neoliberal selvagem", "ajustador brutal e insensível", "inimigo do povo" e outros epítetos. Só que os críticos se esquecem de que só há ajuste porque antes houve um desajuste.
Só que tudo o que foi feito ainda é muito pouco. Todas essas medidas tomadas ainda são muito pequenas quando se considera todo o fenomenal desequilíbrio feito na economia pelos Kirchner.
Logo de início, o próprio Macri anunciou que, para evitar custos sociais e políticos, as mudanças ocorreriam de maneira gradual. E assim está sendo. Há vários desajustes que nem sequer foram atacados.
Por exemplo, apesar de ter havido um recente reajuste, a tarifa de ônibus na cidade de Buenos Aires (a mais rica do país) custa apenas 34 centavos de dólar. Isso graças aos 40 bilhões de pesos (R$ 7,2 bilhões) que todos os argentinos pagam de subsídios. Qual a necessidade de manter esse esquema?
Mas o problema não se restringiu apenas às tarifas dos serviços públicos. A companhia aérea estatal Aerolíneas Argentinas dá um prejuízo ao Tesouro de 2 milhões de dólares por dia.  Os grupos de interesse e os sindicatos não aceitam sua privatização. Igualmente, a estatal petrolífera YPF registra prejuízos trimestrais milionários, e nada de o governo se desfazer dela.
O governo, com efeito, tomou nota dessas reclamações e, para ficar politicamente de bem com todos, anunciou aumentos para os aposentados e para os salários dos professores. E nenhuma reforma do setor público.
E foi exatamente no setor púbico que o gradualismo do governo consistiu em simplesmente não fazer nada ou até mesmo em aprofundar os problemas. O déficit fiscal hoje é maior que o deixado por Cristina Kirchner; a quantidade de funcionários públicos também (há 4 milhões de funcionários públicos na Argentina, sendo que aproximadamente 280 mil são fantasmas); os gastos do governo não caem; a dívida pública não dá sinais de estabilização; a inflação monetária segue alta; a economia segue fechada; a rigidez trabalhista segue intocada; e as dificuldades para empreender seguem as mesmas (o país está na 116ª posição no ranking de facilidade empreendedorial).
Que tipo de mudança Cambiemos propõe?
Se tudo se mantiver assim, rapidamente a acabará o combustível para o otimismo econômico e para a recuperação da atividade. Pior: poderá haver brechas para um novo estancamento ou para uma eventual crise por excesso de gasto e endividamento, como o país já viveu no passado.
É por isso que é de crucial importância ver como o governo irá interpretar a mensagem das eleições. Interpretará como um apoio para avançar as reformas estruturais ou verá como um pedido de mais gradualismo e nadismo?
A Argentina tem hoje cerca de 30% da população na pobreza, 34% na informalidade e apenas 25% do PIB per capita dos países ricos. É evidente que ainda há muito a ser feito. Para começar, a economia tem de crescer de maneira sólida e fundamentada.
E uma maneira de fazer isso é melhorando a competitividade do país.
De acordo com o Foro Econômico Mundial, os pontos fracos da Argentina no que tange à sua competitividade são o ambiente macroeconômico, o desenvolvimento financeiro, a eficiência do mercado de trabalho e a eficiência do mercado de bens.
Quando o país é comparado ao Chile e à Austrália, estes são os pontos em que o país tem de melhorar com mais urgência.

Evidentemente, isso exige reformas estruturais, o que tem de ser feito agora, após essas eleições.
Para melhorar a "macro", é crucial colocar a inflação sob controle (uma verdadeira chaga na Argentina) e começar a reduzir o déficit fiscal por meio do corte de gastos, reformando o inchado setor público. Uma inflação menor e uma carga tributária mais baixa (possibilitada pela reforma do setor público) darão a estabilidade necessária para que o mercado interno e o mercado financeiro se desenvolvam.
Para melhorar a eficiência do mercado de trabalho e de bens, a reforma trabalhista é crucial. É imprescindível liberar o mercado de trabalho para facilitar a contratação e aumentar a demanda por mão-de-obra. Apenas assim os salários podem subir sem mágicas e artificialismos. Igualmente importante, como já dito, é reduzir os impostos, pois com uma carga tributária que é a mais alta da América Latina e que está entre as mais altas do mundo, poucos terão estímulos para investir e produzir com qualidade.
Conclusão
O governo argentino saiu fortalecido politicamente das eleições deste domingo. A dúvida é se aproveitará esta maior força para encarar as reformas liberalizantes ou se acreditará que o resultado eleitoral foi uma sinalização de que o que foi feito até aqui já é o suficiente.
Que não durmam sobre os louros.


[1] O cepo cambiário implantado pelos Kirchner consistia no controle do mercado de dólares pelo governo, que dificultava a compra de dólares para importações e obrigava os exportadores a converter os dólares de suas exportações em pesos a uma taxa artificialmente valorizada, o que diminuía as receitas em peso; o Banco Central pagava aos exportadores somente 63% do valor de seus produtos vendidos para o exterior. A inevitável consequência dessa medida foi estimular os produtores a estocar sua produção e vendê-la no mercado paralelo.

FONTE  http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2787

Empreendedorismo: nem espiritual, nem carnal


Empreendedorismo: nem espiritual, nem carnal
Gosto de muito do que o Leandro Karnal fala, mas nesta ácida crítica ao empreendedorismo ele errou feio.
Ele critica o empreendedorismo por ser uma 'religião'; diz que a busca pelo êxito junto ao mercado (isto é, o êxito em bem servir, atender e saciar as necessidades e desejos de terceiros, de modo a assim também alcançarmos nossos objetivos pessoais) é uma frustrante busca de felicidade.
Karnal critica metas, critica a livre associação de pessoas em torno de um objetivo comum, e critica a busca por resultados.
Voltando um pouco aos fundamentos: empresa e empreender vêm do latim impresa e imprendere, que significam 'ver', 'perceber', 'descobrir'. O empreendedor empreende para alcançar objetivos. Na vida, temos de agregar valor a outras pessoas de tal forma que consigamos, por meio de trocas voluntárias com essas pessoas, obter bens essenciais para nossa sobrevivência e prosperidade.
Um empreendedor percebe algo e utiliza seus talentos, trabalho e recursos — em condições de risco e incerteza — para oferecer um bem ou serviço e, em contrapartida, obter dinheiro. Esse dinheiro será então convertido nos bens importantes que deseja obter para si.
Sem empreendedor não há economia de mercado, não há empresas, não há empregos, não há renda; o empreendedor é a força vital do mercado.
Cada troca efetuada entre o empreendedor e seu cliente melhora a situação de ambos. Ambos estarão em melhor situação após a troca — caso contrário, não a fariam. Quanto mais trocas, quanto mais empreendedorismo, maior a felicidade. Ao contrário do que Karnal defende.
Não resta dúvida que nem todos têm vocação e propensão a serem bons empreendedores. Para tal, é preciso uma certa personalidade; é preciso vigilância e estado de alerta ao que se passa ao redor, aos desejos dos demais. Adicionalmente, é preciso ter propensão ao risco, e também haver nutrido, provavelmente desde a infância, hábitos que auxiliem a tornar-se um empreendedor.
O curioso é que Karnal contradiz em seus atos aquilo que ele próprio defende. Em sua carreira, e notadamente neste vídeo, Karnal é um empreendedor, ainda que de uma pessoa só. Por definição, ao se preparar, Karnal observou o prazo final (data) para a palestra (uma meta), e se preparou para falar por determinado tempo a pedido dos seus clientes (outra meta); adicionalmente, ganhou bastante dinheiro ao oferecer ao público presente algo que eles gostariam de ouvir, ou seja, sua palestra (o serviço prestado).
Karnal é um exímio empreendedor. Rivaliza no competitivo mercado de palestras com vários outros palestrantes, e tem êxito em seu empreendimento, exatamente o que ele critica.
Será que Karnal não está feliz em realizar seu potencial ao empreender e obter dinheiro? Será que ele não se regozija ao perceber oportunidades, e entregar de forma exemplar resultados que a maioria dos demais não consegue? Duvido.
O fato é que aparentemente Karnal não percebeu que ele próprio é um grande empreendedor (seu sucesso confirma isso). Talvez ele prefira se considerar apenas um "intelectual iluminado".