sábado, 2 de fevereiro de 2013

Como Cristo pode ser o único caminho para Deus?



WILLIAN LANE CRAIG

Como Cristo pode ser o único caminho para Deus?
William Lane Craig

Recentemente falei em uma grande universidade canadense sobre a existência de Deus. Após a palestra, uma estudante um pouco irada escreveu em seu cartão de comentários: ―estava lhe acompanhando até aquela coisa sobre Jesus. Deus não é o Deus cristão!‖
Atualmente, esta atitude é pervasiva na cultura ocidental. A maioria das pessoas admite de bom grado que Deus existe, mas em uma sociedade pluralista como a nossa, tornou-se politicamente incorreto clamar que Deus se revelou decisivamente em Jesus.
Entretanto isto é exatamente o que o Novo Testamento ensina claramente. Tomemos as cartas do apóstolo Paulo, por exemplo. Ele convida os gentios convertidos a se lembrarem da era pré-cristã: ―naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no mundo‖ (Efésios 2.12)ii. O propósito dos primeiros capítulos das cartas de Paulo aos romanos é justamente mostrar que essa infeliz condição é a situação geral de toda a humanidade. Paulo explica que o poder e a divindade de Deus são conhecidos pela harmonia das coisas criadas que nos cercam e que os homens são indesculpáveis (1.20). Mais que isso, que Deus escreveu Sua lei moral no coração de todo homem, de modo que estes são moralmente responsáveis perante Ele (2.15). Embora Deus ofereça a vida eterna àquele que responder de forma apropriada à revelação de Deus na natureza e consciência, a triste verdade é que as pessoas ignoram Deus e zombam de Sua lei moral (1.21-32), em lugar de adorar e servir o Criador. A conclusão: todo homem está sob o poder do pecado (3.9-12). Pior, Paulo segue explicando que ninguém pode se redimir através de uma vida justa (3.19-20). Felizmente, contudo, Deus forneceu um meio de redenção: Jesus Cristo morreu pelos pecados da humanidade, satisfazendo, portanto, a justiça de Deus e possibilitando a reconciliação com Ele (3.21-6). Através de Sua morte propiciatória a salvação se tornou possível como um dom recebido pela fé.
A lógica do Novo Testamento é clara: a universalidade do pecado e a imparidade da morte propiciatória de Cristo implicam que não há salvação a não ser por Cristo. Como os apóstolos proclamaram, ―E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos‖ (Atos 4.12).
Esta doutrina particularista era tão escandalosa no politeísta Império Romano como o é hoje para a cultura ocidental. Por essa razão, os primeiros cristãos eram frequentemente perseguidos, torturados e mortos, já que eles se recusavam a adotar uma visão pluralista das religiões. Naquele tempo, contudo, à medida que o cristianismo cresceu e suplantou as religiões da Grécia e Roma, vindo a se tornar a religião oficial do Império Romano, o escândalo diminuiu. De fato, para pensadores medievais como Agostinho e Aquino, uma das marcas da verdadeira Igreja era sua catolicidade, isto é, sua universalidade. Para estes, era inconcebível que o grande edifício da Igreja Cristã (que abarcava toda a civilização) fosse fundado em uma mentira.
Essa doutrina desapareceu com a então chamada ―Expansão Marítima‖, que se refere aos três séculos de exploração e descobertas ocorridas entre 1450 e 1750. Através das expedições e viagens
de homens como Marco Polo, Cristóvão Colombo e Fernão de Magalhães, novas civilizações e mundos inteiros que nada sabiam da fé cristã foram descobertos. A percepção de que muito do mundo nunca tivera contato com o cristianismo teve dois grandes impactos sobre o pensamento religioso das pessoas. Primeiro, houve a tentativa de se relativizar as crenças religiosas. Parecia que, longe de ser uma religião universal, o cristianismo estava confinado à Europa ocidental, uma pequena porção do globo. Assim parecia que nenhuma religião particular poderia pretender ser válida universalmente. Cada sociedade parecia ter sua própria religião, adequada às suas próprias necessidades peculiares. Segundo, fez com que a assertiva cristã de que Cristo é o único meio de salvação parecesse limitada e cruel. Racionalistas iluministas como Voltaire insultaram seus coevos cristãos com o cenário de que milhões de chineses teriam ido para o inferno por não terem crido em Cristo, quando nem sequer tinham ouvido sobre Ele. Mesmo hoje, o influxo de imigrantes oriundos de ex-colônias para as nações ocidentais e os avanços nas telecomunicações que tem reduzido o mundo a uma aldeia global tem aumentado nossa percepção da diversidade religiosa da humanidade. Como resultado, o pluralismo religioso é hoje senso comum.
O problema colocado pela diversidade religiosa
Mas qual seria exatamente o problema colocado pela diversidade religiosa da humanidade? E para quem isto seria um problema? Quando alguém lê a literatura a esse respeito, o desafio recorrente parece recair sobre o particularismo cristão. O fenômeno da diversidade religiosa é utilizado para enunciar a verdade do pluralismo e o debate, então, prossegue para qual forma de pluralismo é mais plausível. Mas por que pensar que o particularismo cristão é indefensável em face da diversidade religiosa? Qual seria exatamente o problema?
Quando alguém examina os argumentos a favor do pluralismo, descobre que muitos deles são quase falácias lógicas exemplificadas em manuais. Por exemplo, é frequentemente argumentado que é arrogante e imoral sustentar qualquer doutrina religiosa particularista, porque o crente irá considerar todas as pessoas que discordam de sua própria religião como erradas. Este parece ser um exemplo simplório de falácia lógica conhecido como argumento ad hominem, que tenta invalidar uma posição atacando a pessoa que o defende. Isto é uma falácia porque a verdade de uma proposição independe das qualidades morais daquele que a defende. Mesmo se todos os cristãos particularistas forem arrogantes e imorais, não segue que a visão deles seja falsa. Não apenas isto, por que pensar que arrogância e imoralidade são necessariamente condições de um particularista? Suponhamos que eu tenha feito tudo que podia para descobrir a verdade religiosa sobre a realidade e estou convencido que o cristianismo é verdadeiro e, humildemente, professo a fé cristã como alguém que, sem merecer, recebe um presente de Deus. Sou, portanto, arrogante e imoral por acreditar naquilo que sinceramente penso ser verdade? Finalmente, e ainda mais fundamental, tal objeção é uma espada de dois gumes. Porque o pluralista também acredita que sua visão está certa e que todos os adeptos das tradições particularistas estão errados. Portanto, se sustentar uma visão da qual muitos outros discordam significa arrogância e imoralidade, então o próprio pluralista deveria estar convencido de sua arrogância e imoralidade.
Para dar outro exemplo, é frequentemente alegado que o particularismo cristão não pode estar correto porque religiões são culturalmente relativas. Por exemplo, se um cristão tivesse nascido no Paquistão, ele provavelmente seria muçulmano. Dessa forma, sua crença no cristianismo é falsa ou
injustificada. Mas, novamente, parece que estamos diante de outra falácia de livro-texto, chamada falácia genética. Tenta-se invalidar uma posição criticando o modo pelo qual a pessoa veio a sustentá-la. O fato de que suas crenças dependem de quando e onde você nasceu não tem relevância sobre a verdade da crença. Se você tivesse nascido na Grécia antiga, você provavelmente teria acreditado que o sol orbita a Terra; Isto implica que sua crença de que a Terra orbita o sol é, portanto, falsa ou injustificada? Evidentemente não? E, novamente, o pluralista puxa o tapete de debaixo de seus pés: tivesse o pluralista nascido no Paquistão, ele provavelmente seria um particularista religioso. Então, segundo sua própria análise, seu pluralismo é meramente o produto de ter nascido na sociedade ocidental do século XX e, portanto, falso e injustificado.
Assim, alguns dos argumentos contra o particularismo cristão frequentemente encontrados na literatura são ineficazes. Eles não são realmente o problema. Entretanto, creio que quando essas objeções são respondidas pelos defensores do particularismo cristão, então a real questão tende a emergir. Essa questão, penso, diz respeito ao destino dos incrédulos fora da própria tradição religiosa. O particularismo cristão despacha tais pessoas para o inferno, o que os pluralistas tomam como inescrupuloso.
Mas qual exatamente seria o problema aqui? Qual é a dificuldade em sustentar que salvação somente é possível através de Cristo? Seria simplesmente a alegação de que um Deus de amor não mandaria as pessoas para o inferno? Eu não acho. A Bíblia diz que Deus deseja a salvação de cada ser humano. ―Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento‖ (2Pedro 3.9). Ainda, ―o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade‖ (1Timóteo 2.4). Deus fala através do profeta Ezequiel:
―Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Porque não tenho prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e vivei. Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?‖ (Ez. 18.23,32; 33.11)
Aqui Deus literalmente suplica ao povo para se arrepender do curso de ação autodestrutivo que tomou e seja salvo. Então, de certo modo, o Deus bíblico não manda qualquer pessoa para o inferno. Ele deseja que todos sejam salvos e procura atrair todas as pessoas para Si. Se fizermos uma escolha livre e bem informada de rejeitar o sacrifício de Cristo pelos nossos pecados, então Deus não tem outra escolha senão nos dar o que merecemos. Deus não irá nos mandar para o inferno – mas nós nos mandaremos para lá. Nosso destino eterno está, pois, em nossas mãos. Onde nós passaremos a eternidade é uma questão de livre arbítrio. Os perdidos, assim, se auto-condenam; eles se apartam de Deus apesar do desejo e esforço dEle para os salvar – e Deus se angustia com a perda deles.
Agora o pluralista talvez admita que, dado o livre arbítrio, Deus não pode garantir que todos serão salvos. Algumas pessoas podem livremente se condenar a si mesmas rejeitando a oferta de salvação de Deus. Porém, ele talvez argumente, seria injustiça de Deus condenar tais pessoas eternamente. Porque mesmo terríveis pecados tais como aqueles dos torturadores nazistas nos campos de
concentração merecem apenas uma punição finita. Assim, o inferno, pelo menos, deveria ser uma espécie de purgatório, que duraria um tempo apropriado para cada pessoa até que fosse liberta e admitida no paraíso. Eventualmente o inferno ficaria vazio e o paraíso lotado. Então, ironicamente, o inferno é incompatível não apenas com o amor de Deus, mas com Sua justiça. A objeção assevera que Deus é injusto porque a punição não está de acordo com o crime.
Mas, novamente, isto não me parece ser o verdadeiro problema, porque a objeção falha em, pelo menos, dois aspectosiii:
(1) A objeção confunde cada pecado que nós cometemos com todos os pecados que nós cometemos. Poderíamos admitir que cada pecado individual que uma pessoa comete merece somente uma punição finita. Mas não seguiria daí que todos os pecados de uma pessoa tomados em conjunto implicariam em apenas uma punição finita. Se uma pessoa comete um número infinito de pecados, então a soma total de todos os pecados merece punição infinita. Logicamente ninguém comete um número infinito de pecados na vida terrena. Mas e depois da morte? À medida que os habitantes do inferno continuam odiando e rejeitando Deus, eles continuam pecando, adicionando sobre si mesmos mais culpa e punição; Em um sentido real, então, o inferno se auto perpetuaria. Em tal caso, cada pecado teria uma punição finita, mas porque o pecado seria eterno, assim seria a punição.
(2) Por que pensar que cada pecado tem apenas uma punição finita? Nós poderíamos admitir que pecados como roubar, mentir, adulterar, etc. tem apenas consequências finitas e, portanto, somente merecem uma punição finita. Mas, de certo modo, estes pecados não são o que separa alguém de Deus. Porque Cristo morreu por estes pecados. A pena por estes pecados foi paga. A pessoa tem apenas que aceitar Cristo como salvador para ser completamente livre e limpa destes pecados. Mas a recusa em aceitar Cristo e seu sacrifício parece ser um pecado de ordem completamente diferente. Porque este pecado repudia a providência de Deus para o pecado e decisivamente separa o homem de Deus e de Sua salvação. Rejeitar Cristo é rejeitar o próprio Deus. E à luz de quem Deus é, este é um pecado de gravidade e proporções infinitas e, portanto, plausivelmente merece infinita punição. Desse modo, nós não deveríamos pensar no inferno como sendo primariamente punição pelo conjunto de pecados de consequência finita que nós temos cometido, mas como a justa pena por um pecado de infinita consequência, a saber, a rejeição de Deus.
Mas talvez o problema seja que um Deus de amor não mandaria pessoas para o interno porque elas estavam mal informadas ou desinformadas sobre Jesus. Novamente, esta não me parece ser a raiz do problema. Porque, de acordo com a Bíblia, Deus não julga as pessoas que nunca ouviram sobre Cristo com base se eles colocaram a fé em Cristo. Deus os julga com base na Sua revelação geral na natureza e na consciência que eles tem. A proposta de Romanos 2.7 (―a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade‖) é uma proposta de salvação de boa fé. Isto não diz que as pessoas podem ser salvas à parte de Cristo. Pelo contrário, diz que os benefícios da morte propiciatória de Cristo poderiam ser aplicados a pessoas sem um conhecimento consciente de Cristo. Tais pessoas seriam similares a certas pessoas mencionadas no Velho Testamento, como Jó e Melquisedeque, que não tinham conhecimento consciente de Cristo e não eram sequer membros da aliança de Israel, mas claramente gozaram de um relacionamento pessoal com Deus. Similarmente, poderia haver Jós atualmente vivendo entre aquele percentual da
população do mundo que ainda não ouviu o Evangelho de Cristo.
Infelizmente, como vimos, o testemunho do Novo Testamento é que as pessoas não alcançam nem mesmo padrões muito baixos de revelação geral. Então, há pouco espaço para otimismo sobre existir muitos, ou mesmo um, que será salvo apenas através de sua resposta à revelação geral. Não obstante, resta o ponto de que a salvação é universalmente acessível para qualquer um que nunca ouviu o Evangelho através da revelação geral de Deus na natureza e na consciência. Assim o problema colocado pela diversidade religiosa não pode ser simplesmente que Deus não condenaria pessoas que estão desinformadas ou mal informadas sobre Jesus.
Pelo contrário, parece-me que o problema verdadeiro é esse: se Deus é onisciente, então Ele sabia quem aceitaria livremente o Evangelho e quem o rejeitaria. Mas, então, certamente questões muito difíceis emergem:
(i) Por que Deus não trouxe o Evangelho às pessoas que Ele sabia que iriam aceitar se ouvissem, mesmo tendo essas mesmas pessoas rejeitado a luz de revelação geral que elas tiveram?
Para ilustrar: imagine um índio norte americano antes da chegada de missionários cristãos. Vamos chamá-lo de Walking Bear. Vamos considerar que à medida que Walking Bear olha para o céu à noite e vê a beleza da natureza, ele sente que tudo isso foi criado por um Grande Espírito. Além disso, Walking Bear olha para seu próprio coração e sente a lei moral, dizendo a ele que todos os homens são irmãos feitos pelo Grande Espírito. Ele então percebe que nós deveríamos amar uns aos outros. Mas suponhamos que, em lugar de adorar o Grande Espírito e amar seus companheiros, Walking Bear ignora o Grande Espírito e cria totens de outros espíritos. Ao invés de amar seus companheiros, ele vive de forma egoísta e cruel. Em tal caso, Walking Bear seria justamente condenado diante de Deus, com base em sua falha em responder à revelação geral de Deus na consciência e natureza. Mas suponhamos agora que, tivessem os missionários chegado, Walking Bear teria acreditado no Evangelho e sido salvo! Neste caso, sua salvação ou condenação parecem ser o resultado de um azar. Não por sua culpa, ele apenas nasceu em uma época e lugar da história onde o Evangelho não estava disponível. Sua condenação é justa, mas um Deus de amor permitira que o destino eterno das pessoas dependesse de acidentes geográficos e históricos?
(ii) Mais que isso, por que Deus criou o mundo, quando Ele sabia que tantas pessoas não acreditariam no Evangelho e se perderiam?
(iii) Sendo ainda mais radical, por que Deus não criou um mundo no qual todos livremente cressem no Evangelho e fossem salvos?
O que o cristão particularista deveria responder a estas questões? O cristianismo torna Deus cruel e desamoroso?
O problema analisado
A fim de responder a estas questões será necessário examinar mais de perto a estrutura lógica problema em tela. O pluralista parece afirmar que é impossível para Deus ser onipotente e amoroso,
sendo que algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e estão perdidas, ou seja, as seguintes sentenças são logicamente inconsistentes.
1. Deus é onipotente e amoroso.
2. Algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e estão perdidas.
Porém, precisamos nos perguntar, por que pensar que (1) e (2) são logicamente incompatíveis? Afinal de contas, não há contradição explícita entre elas. Todavia, se o pluralista afirma que (1) e (2) são implicitamente contraditórias, ele deve estar assumindo algumas premissas que serviriam para explicitar esta contradição. A questão é, quais são essas premissas ocultas?
3. Se Deus é onipotente, Ele pode criar um mundo no qual todos ouvem o Evangelho e são livremente salvos.
4. Se Deus é amoroso, Ele prefere um mundo no qual todos ouvem o Evangelho e são livremente salvos.
Desde que, conforme (1), Deus é tanto onipotente como amoroso, segue que Ele tanto pode criar um mundo de salvação universal, como prefere tal mundo. Portanto, tal mundo existe, o que contradiz (2).
Condiremos (3). É provavelmente incontroverso que Deus poderia criar um mundo no qual todos ouvissem o Evangelho. Mas, desde que as pessoas sejam livres, não há garantias que todos em tal mundo seriam salvos. De fato, não há razão para pensar que o equilíbrio entre salvos e perdidos em tal mundo seria de alguma forma melhor que a situação no mundo em que vivemos! É possível que em qualquer mundo de pessoas com livre arbítrio que poderia ser criado por Deus algumas pessoas rejeitassem livremente a salvação pela graça e fossem condenadas. Logo, (3) não é necessariamente verdadeira, de modo que o argumento pluralista é falacioso.
Mas, e quanto a (4)? É necessariamente verdadeira? Suponhamos, em favor do argumento, que são viáveis para Deus mundos nos quais cada pessoa ouve o Evangelho e o aceita livremente. O fato de Deus ser amoroso O compele a preferir um destes mundos a um mundo no qual algumas pessoas não são salvas? Não necessariamente; porque mundos envolvendo salvação universal talvez tenham outras deficiências mais sérias que os tornam menos preferíveis. Por exemplo, suponhamos que os únicos mundos nos quais todos acreditam livremente no Evangelho e são salvos são mundos com apenas algumas pessoas – digamos, três ou quatro. Se Deus fosse criar alguma pessoa a mais, então, pelo menos uma delas teria livremente rejeitado Sua graça e estaria perdida. Deus deve preferir um desses mundos esparsamente povoados ao invés de um mundo no qual multidões acreditam no Evangelho e são salvas, ainda que isto implique que outras pessoas livremente rejeitem a graça e sejam condenadas? Isto está longe de ser óbvio. Desde que Deus dê graça suficiente para todas as pessoas que Ele criou, Ele não parece menos amoroso por preferir um mundo mais populoso, mesmo que isto implique que algumas pessoas resistam livremente a todo Seu esforço para salvá-las e sejam condenadas. Assim, a segunda hipótese pluralista também não é necessariamente verdadeira, de modo que o argumento é duplamente falacioso.
Então, nenhuma das suposições pluralistas parece ser necessariamente verdadeira. A menos que o pluralista possa sugerir outras premissas, não temos razão para pensar que (1) e (2) são logicamente incompatíveis.
Mas podemos levar o argumento adiante. Podemos mostrar positivamente que é inteiramente possível que Deus seja onipotente e amoroso e que diversas pessoas nunca ouçam o Evangelho e se percam. Tudo que precisamos fazer é encontrar uma sentença verdadeira que seja compatível com Deus sendo onipotente e amoroso e que compreenda ―algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e estão condenadas‖. Tal sentença pode ser formulada? Vamos ver.
Como um Deus bom e amoroso, Ele quer que o máximo de pessoas possível sejam salvas e o menor número se perca. Seu objetivo, pois, é atingir um equilíbrio ótimo, de modo a não criar mais perdidos que o necessário para alcançar um certo número de salvos. É possível que o mundo em que vivemos (que inclui o futuro, o presente e o passado) tenha tal equilíbrio. É possível que para criar a quantidade de pessoas que serão salvas, Deus também tenha criado uma quantidade de pessoas que estarão perdidas. É possível que Deus tivesse criado um mundo no qual poucas pessoas fossem para o inferno, mas onde poucas pessoas teriam ido para o céu. É possível que, a fim de alcançar uma multidão de santos, Deus tenha aceitado uma multidão de pecadores.
Pode ser objetado que um Deus amoroso não criaria pessoas que Ele sabia que estariam perdidas, mas que teriam sido salvas se elas tivessem ouvido o Evangelho. Mas como sabemos que existem tais pessoas? É razoável presumir que muitas pessoas que nunca ouviram o Evangelho não teriam acreditado no Evangelho, mesmo se tivessem ouvido. Suponhamos, então, que Deus providencialmente organizou o mundo de modo que todas as pessoas que nunca ouviram o Evangelho são precisamente estas pessoas. Neste caso, qualquer pessoa que nunca ouça e seja condenada, teria rejeitado o Evangelho e se perdido mesmo se o ouvisse. Ninguém poderia reclamar perante Deus no Dia do Julgamento ―tudo bem, Deus, não respondi à sua revelação geral na natureza e consciência! Mas se tivesse ouvido o Evangelho, teria acreditado!‖ Ao que Deus responderia ―não; eu sabia que mesmo se você tivesse ouvido o Evangelho, você não teria acreditado. Assim sendo, meu julgamento sobre você com base na natureza e na consciência não é nem injusto nem desamoroso.‖
Então, é possível que:
5. Deus criou um mundo no qual há um equilíbrio ótimo entre salvos e perdidos e aqueles que nunca ouviram o Evangelho e estão perdidos não teriam acreditado, mesmo se tivessem ouvido.
Desde que (5) seja possivelmente verdadeira, temos que não há incompatibilidade entre um Deus onipotente e amoroso e o fato de algumas pessoas nunca ouvirem o Evangelho e estarem condenadas.
Como base nisto, estamos preparados para oferecer possíveis respostas às três questões que levaram a esta investigação. Responderemos na ordem inversa:
(i) Por que Deus não criou um mundo no qual todos livremente cressem no Evangelho e fossem
salvos?
Resposta: Talvez não seja viável para Deus criar tal mundo. Se tal mundo fosse viável, Deus o teria criado. Mas, dado Seu desejo em criar criaturas livres, Deus teve que aceitar que algumas livremente rejeitassem a Ele e a todo Seu esforço para salvá-las e se perdessem.
(ii) Por que Deus criou o mundo, quando Ele sabia que tantas pessoas não acreditariam no Evangelho e se perderiam?
Resposta: Deus queria dividir Seu amor e companhia com as pessoas criadas. Ele sabia que isto significaria que muitos O rejeitariam e estariam perdidas. Mas Ele também sabia que muitos outros receberiam livremente Sua graça e seriam salvos. A felicidade e bem-aventurança daqueles que aceitassem Seu amor não poderia ser excluída por aqueles que livremente O desprezam. Pessoas que livremente rejeitam a Deus e ao Seu amor não seriam permitidas, de fato, a sustentar um poder de veto sobre um mundo que Deus pode livremente criar. Em Sua misericórdia, Deus providencialmente organizou um mundo para atingir um equilíbrio ótimo entre salvos e perdidos, maximizando o número daqueles que O aceitam livremente e minimizando o número daqueles que não.
(iii) Por que Deus não trouxe o Evangelho às pessoas que Ele sabia que iriam aceitar se ouvissem, mesmo tendo essas mesmas pessoas rejeitado a luz de revelação geral que elas tiveram?
Resposta: Não existem tais pessoas. Deus em Sua providência organizou o mundo de tal forma que quem responde ao Evangelho se o ouve, o ouve. O Deus soberano construiu a história humana de modo que o Evangelho se espalhasse a partir da Palestina no primeiro século. Ele colocou pessoas no caminho de quem acreditaria se ouvisse. Uma vez que o Evangelho alcança um povo, Deus providencialmente coloca ali pessoas que Ele sabia que responderiam ao ouvir. Em Seu amor e misericórdia, Deus assegura que ninguém que creria no Evangelho se ouvisse é nascido em um tempo e lugar na história em que não o fosse ouvir. Aqueles que não respondem à revelação geral de Deus na natureza e na consciência e nunca ouviram o Evangelho, não responderiam a ele mesmo se o ouvisse. Portanto, ninguém se perde por causa de fatores históricos ou geográficos. Qualquer que deseja ser salvo é salvo.
Essas são apenas respostas possíveis às questões colocadas. Mas, desde que elas são possíveis, não há incompatibilidade entre Deus ser onipotente e amoroso e algumas pessoas não ouvirem o Evangelho e estarem perdidas. Além disso, essas respostas são atraentes por também terem aparente respaldo bíblico. Em seu discurso aos filósofos atenienses reunidos no Areópago, Paulo declarou:
―O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos‖ (Atos 17.24-27)
Isto parece exatamente com as conclusões a que cheguei a partir de uma reflexão puramente
filosófica da questão!
Agora o pluralista pode conceder que haja compatibilidade lógica entre Deus ser onipotente e amoroso e algumas pessoas nunca ouvirem o Evangelho e estarem perdidas, mas insiste que estes dois fatos são, contudo, improváveis com relação um ao outro. Pessoas, no geral, parecem acreditar na religião da cultura na qual cresceram. Neste caso, o pluralista talvez argumente, é altamente provável que se muitos daqueles que nunca ouviram o Evangelho tivessem sido criados em uma cultura cristã, poderiam ter acreditado no Evangelho e sido salvos. Então, a hipótese que nós oferecemos é altamente improvável.
De fato seria fantasticamente improvável que em virtude apenas de casualidade todos aqueles que nunca ouviram o Evangelho e se perderam não acreditariam no evangelho mesmo se tivessem ouvido. Mas a hipótese não é essa. A hipótese é que um Deus providente é quem organizou o mundo. Dado um Deus dotado de conhecimento acerca de como cada pessoa iria livremente reagir a Sua graça em quaisquer circunstâncias, não é implausível que Deus tenha ordenado o mundo da maneira acima descrita. Tal mundo não teria, aparentemente, qualquer diferença de um mundo no qual as circunstâncias do nascimento de uma pessoa são casuais. O particularista pode concordar que pessoas geralmente adotam a religião de suas culturas e que se muitas das pessoas nascidas em culturas não-cristãs tivessem nascido em uma sociedade cristã, teriam se tornado nominalmente ou culturalmente cristãs. Mas isto não quer dizer que elas seriam salvas. É um simples fato empírico que não existem traçõs sociológicos ou psicológicos distintivos entre pessoas que se tornam cristãos e pessoas que não se tornam. Não há como predizer acuradamente, através de exames, em quais circunstâncias uma pessoa acreditaria em Cristo para se salvar. Desde que um mundo providencialmente ordenado por Deus pareceria exteriormente idêntico a um mundo no qual o nascimento é decorrente de acidentes histórico-geográficos, é difícil perceber como a hipótese que tenho defendido pode ser considerada como improvável sem uma demonstração de que a existência de um Deus dotado de conhecimento para tanto seja implausível. Não conheço tão persuasivas objeções.
A título de conclusão, portanto, pluralistas não tem se mostrado capazes de mostrar qualquer inconsistência lógica no particularismo cristão. Pelo contrário, conseguimos demonstrar que esta posição é logicamente coerente. Mais que isto, penso que tal visão é não apenas possível, mas plausível. Por conseqüência, a diversidade religiosa da humanidade não solapa o Evangelho cristão de que somente há salvação através de Cristo.
De fato, para aqueles de nós que são cristãos, penso que o que disse ajuda a colocar as missões cristãs em uma perspectiva adequada: é nosso dever como cristãos proclamar o Evangelho ao mundo todo, confiando que Deus ordenou providencialmente as coisas, para que, através de nós, as Boas Novas cheguem até as pessoas que Deus sabe que irão aceitá-las se ouvirem. Nossa compaixão para com as outras religiões do mundo é expressa, não fingindo que eles não estão perdidos sem Cristo, mas apoiando e nos esforçando para comunicar a eles a mensagem de vida de Cristo.
E para aqueles de nós que ainda não são Cristãos: você precisa se perguntar ―estou aqui meramente por acidente? É apenas pelo acaso que ouvi essa mensagem? Não há propósito ou razão para eu estar aqui? Ou poderia ser que Deus em Sua providência me atraiu para que eu livremente ouça as
Boas Novas do amor e da misericórdia de Deus, que se chegam até mim através de Cristo? Então, como vou responder? Ele me deu uma oportunidade. Irei me valer dela ou, novamente, virar minhas costas para Ele?‖ A decisão é com você.
Notas do tradutor
i Texto traduzido sem fins comerciais ou acadêmicos. O texto original How can Christ be the only Way to God pode ser acessado gratuitamente em http://www.reasonablefaith.org.
ii Todas as passagens bíblicas foram traduzidas para o português a partir da versão Almeida Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil.
iii A argumentação que se segue poderia ser simplificada se o autor utilizasse o real conceito de Pecado. Considerando-se Pecado como atitude de independência em relação a Deus inerente a todo ser humano, tem-se imediatamente uma transgressão com efeitos eternos. Há que se ressaltar, aquilo que se considera usualmente como pecados, é, neste sentido, apenas resultado da atitude do homem de agir segundo sua corrompida visão de bem e de mal.

TRADUÇÃO - Leandro Diniz Pereira

FONTE CLICK AQUI

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O Argumento Teleólogico

Ingenuamente algumas pessoas pensam que o ateísmo é uma quetão de ignorância.
Essas pessoas estão erradas e provavelmente não entendem como as coisas acontecem.
Ateus muitas vezes se tornam tais justamente por entender tais coisas.
Porém o crer em Deus está muito longe de ser uma ignorância como alguns ateus apregoam por aí.
Temos também evidências para crer em uma divindade.
Achei este assunto muito bem elaborado no site que segue.
Leiam :




William Lane Craig - parte 5 - O Argumento Teleológico do “Ajuste Fino” PDF Imprimir E-mail
DEFESA DA FÉ
4. O Argumento Teleológico do “Ajuste Fino”
Chegamos agora ao argumento teleológico, ou o argumento para o design. Embora os defensores do chamado movimento Design Inteligente têm continuado a tradição de focar em exemplos de design em sistemas biológicos, o ponto de corte da discussão contemporânea se concentra no extraordinário ajuste fino do cosmo para a existência de vida.
Antes de discutirmos este argumento, é importante entender que por “finamente ajustado”, ninguém não está querendo dizer “projetado” (do contrário o argumento seria obviamente circular). Na verdade, durante os últimos cinquenta anos os cientistas têm descoberto que a existência de vida inteligente depende de um equilíbrio complexo e delicado das condições iniciais simplesmente dadas no próprio Big Bang. Este equilíbrio é conhecido como “ajuste fino” do universo.
O ajuste fino é de dois tipos. Primeiro, quando as leis da natureza são expressas como equações matemáticas você encontrará nelas certas constantes, como a constante que representa a força da gravidade. Estas constantes não são determinadas pelas leis da natureza. As leis da natureza são consistentes com uma ampla gama de valores para estas constantes. Segundo, em adição a estas constantes, existem certas quantidades arbitrárias colocadas como condições iniciais sobre as quais as leis da natureza operam, por exemplo, a quantidade de entropia ou o equilíbrio entre matéria e antimatéria no universo. Agora, todas estas constantes e quantidades arbitrárias se encaixam em uma extraordinária faixa estreita de valores que permitem a existência de vida. Se estas constantes ou quantidades fossem alteradas em menos do que a largura de um fio de cabelo, o equilíbrio que permite a existência de vida seria destruído e nenhum organismo de qualquer espécie poderia existir.[24]
Por exemplo, uma mudança no vigor da força atômica de uma parte em 10(100) teria impedido a existência de vida no universo. A constante cosmológica que conduz a inflação do universo e que é responsável pela recente descoberta aceleração da expansão do universo é inexplicavelmente ajustada para cerca de uma parte em 10(120). Roger Penrose da Universidade de Oxford calculou que as excentricidades da condição de baixa entropia do Big Bang serem por mero acaso são da ordem de uma parte em 10(10)(123). Penrose comenta, “Eu não consigo me lembrar de qualquer outra coisa na física cuja exatidão se aproxime, mesmo que remotamente, de uma parte em 10(10)(123)”[25]. E não se trata de apenas uma constante ou quantidade arbitrária ser requintadamente ajustada para dado valor; as relações das constantes e quantidades umas com as outras precisam de igual modo ser finamente ajustadas. Assim, improbabilidade é multiplicada por improbabilidade até que nossas mentes se percam em números tão incompreensíveis.
Assim, quando os cientistas dizem que o universo é “finamente ajustado” para a existência de vida, eles não querem dizer que ele foi “projetado”; eles querem dizer que pequenos desvios dos valores reais das constantes e quantidades arbitrárias da natureza proibiriam o universo de abrigar vida ou, alternativamente, que a série de valores que permitem vida ao universo é incompreensivelmente estreita em comparação com a quantidade de valores que poderiam ser assumidos. O próprio Dawkins, citando o trabalho do astrônomo real Sir Martin Rees, reconhece que o universo exibe este extraordinário ajuste fino.
Então, aqui está uma formulação simples do argumento teleológico baseado no ajuste fino do universo:
1. O ajuste fino do universo se deve a necessidade física, acaso ou design.
2. Não se deve a necessidade física ou acaso.
3. Logo, o ajuste se deve a design.

4.1. Premissa 1
A premissa 1 simplesmente lista as três possibilidades para explicar a presença deste incrível ajuste fino no universo: necessidade física, acaso ou design. A primeira alternativa defende que exista alguma “Teoria do Tudo” ainda desconhecida que explicaria a maneira pela qual o universo é. Ele tinha que ser desta forma, e não havia a menor possibilidade do universo não ser como ele é, permitindo a existência de vida. Em contraste, a segunda alternativa estabelece que o fino ajuste se deve inteiramente ao acaso. Trata-se apenas de um acidente o fato do universo permitir a existência de vida, e nós somos os sortudos beneficiários deste acidente. A terceira opção rejeita ambas afirmações anteriores em favor de uma Mente inteligente detrás do cosmo, que projetou o universo para que ele permitisse a existência de vida. A questão é: qual destas alternativas é a melhor explicação?

4.2. Premissa 2
A premissa 2 do argumento responde a esta questão. Considere as três alternativas. A primeira, necessidade física, é extremamente implausível porque, como vimos, as constantes e as quantidades são independentes das leis da natureza. Assim, por exemplo, a candidata mais promissora à Teoria do Tudo até o momento, a Teoria das Super Cordas ou Teoria M, falha em predizer a singularidade do nosso universo. A Teoria das Cordas permite uma “paisagem cósmica” de cerca de 10(500) universos diferentes possíveis governados pelas presentes leis da natureza, assim, nada faz para atribuir necessidade física aos valores e constantes observados. Com respeito a esta primeira alternativa, Dawkins observa que Sir Martin Rees rejeita esta explicação, e Dawkins diz, “acho que concordo com eles [os que rejeitam esta explicação]”[26].
Sendo assim o que podemos dizer da segunda alternativa, de que o ajuste fino do universo se deve ao acaso? O problema com esta alternativa é que os pontos contra a possibilidade do universo permitir vida são tão incompreensivelmente grandes que não podem ser encarados racionalmente. Mesmo que existisse um grande número de universos dentro da paisagem cósmica, mesmo assim o número de mundos que permitiriam a existência de vida seria incomensuravelmente pequeno se comparado à paisagem completa, assim, a existência de um universo que permite a existência de vida é fantasticamente improvável. Estudantes ou leigos que alegremente declaram, “Isto poderia ter ocorrido pelo acaso!” simplesmente não tem idéia da precisão fantástica dos requisitos de ajuste fino para a existência de vida. Eles nunca abraçariam tal hipótese em qualquer outra área de suas vidas – por exemplo, como um carro apareceu em sua garagem da noite para o dia.

4.3. A Defesa do Acaso por Dawkins
A fim de resgatar a alternativa do acaso, seus proponentes têm sido forçados a adotar a hipótese de que existe um número infinito de universos aleatórios compondo um tipo de conjunto de mundos, ou multiverso, do qual o nosso universo é apenas uma parte. Em algum lugar neste conjunto de mundos, universos finamente ajustados para a existência de vida vão aparecer pelo mero acaso, e aconteceu de nós estarmos em um destes mundos. Esta é a explicação que Dawkins considera mais plausível[27].

4.3.1. Um Multiverso é “Não-Parcimonioso”?
Aqui Dawkins é bem sensível em definir a postulação de vários universos existindo como bolhas de sabão, como ele tão gentilmente colocou, um “luxo extravagante”. Mas ele replica, “O multiverso pode parecer extravagante no mero número de universos. Mas, se cada um desses universos for simples em suas leis fundamentais, não estamos postulando nada de muito improvável”.[28]
Esta resposta é multiplamente confusa. Primeiro, cada universo do multiverso não é simples, mas caracterizado por uma multiplicidade de constantes e quantidades independentes. Se cada universo fosse simples, então porque Dawkins sentiria a necessidade de recorrer à hipótese do multiverso em primeiro lugar? Além disto, não se trata da simplicidade das leis fundamentais, porque todos os universos no conjunto de mundos são caracterizados pelas mesmas leis – eles diferem entre si nos valores das constantes e de suas quantidades.
Segundo, Dawkins assume que a simplicidade do todo é uma função da simplicidade das partes. Obviamente isto é um erro. Um mosaico complexo de uma face romana, por exemplo, é construído por um grande número de peças individualmente simples e monocromáticas. Da mesma forma, um conjunto de universos simples continuaria sendo complexo se estes universos variassem nos valores de suas constantes e quantidades, além de todos compartilharem dos mesmos valores.
Terceiro, a Navalha de Ockham nos fala que não devemos multiplicar entidades explicativas além do necessário, mas o número de universos que estão sendo postulados apenas para explicar o ajuste fino do nosso universo é algo extraordinariamente extravagante. Apelar para o multiverso ao explicar a aparência de design do nosso universo é como utilizar uma marreta para quebrar a casca de um amendoim!
Quarto, Dawkins tenta minimizar a extravagância do multiverso afirmando que a despeito dele ter um número extravagante de entidades, tal multiverso não é altamente improvável. Não está claro onde esta resposta se torna relevante ou até mesmo o que ela significa. Pois a objeção que esta sendo considerada não é que o multiverso seja improvável, mas que ele é extravagante e não-parcimonioso. Dizer que o multiverso não é altamente improvável é falhar em comentar a real objeção. E mais, é difícil saber sobre qual probabilidade Dawkins está falando aqui. Parece que ele está falando sobre a probabilidade intrínseca do multiverso, considerada aparte da evidência do ajuste fino. Mas como tal probabilidade pode ser determinada? Pela simplicidade? Mas o problema é que Dawkins não nos mostrou como a hipótese de um conjunto de universos existir possa ser simples.

4.3.2. A Sugestão de Dawkins Sobre um Mecanismo que Gerasse Universos
O que Dawkins parece dizer, ao que me parece, é que o multiverso pode ser simples se existir um mecanismo simples que através de um processo repetitivo gerasse muitos universos. Desta forma o gigantesco número de entidades postuladas não seria um ônus à teoria porque todas as entidades surgiram de um mecanismo simples e fundamental.

Um Modelo Oscilante do Universo
Assim sendo, que mecanismo Dawkins sugere para que se explique o surgimento de um conjunto ordenado, infinito e aleatório de universos. Primeiro, ele sugere um modelo oscilante de universo, no qual
nosso tempo e espaço realmente começaram no nosso big bang, mas foi apenas o mais recente numa longa série de big bangs, cada um iniciado pelo big crunch que encerrou o universo anterior da série. Ninguém entende o que acontece em singularidades como o big bang, portanto é concebível que as leis e as constantes sejam zeradas e tenham novos valores a cada vez. Se os ciclos de bang-expansão-contração-crunch vêm acontecendo deste sempre, como num acordeão cósmico, temos uma versão seriada, e não paralela, de multiverso.[29]
Aparentemente Dawkins não está ciente das muitas dificuldades dos modelos oscilatórios de universo, que têm tornado os cosmólogos contemporâneos céticos em relação a eles. Nos anos 60 e 70, alguns teóricos propuseram modelos de oscilação para o universo em uma tentativa de evitar a singularidade inicial predita pelo modelo padrão. Os prospectos de tais modelos, entretanto, foram severamente esmaecidos em 1970 pela formulação de Stephen Hawkins e Roger Penrose dos teoremas da singularidade, que levaram seus nomes. Os teoremas mostraram que em condições bem gerais, uma singularidade cósmica inicial é inevitável. Uma vez que é impossível estender o espaço-tempo da singularidade para o estado anterior, o teorema Hawking-Penrose da singularidade implica o início absoluto do universo. Refletindo no impacto desta descoberta, Hawking observa que o teorema Hawking-Penrose da singularidade “nos leva a abandonar as tentativas (principalmente dos russos) de argumentar que houve uma fase anterior de contração e um ressalto não-singular para a expansão. Digo isto embora quase todo mundo acredite atualmente que o universo e o próprio tempo tiveram um começo no big bang”.[30] Dawkins aparentemente trabalha sobre a ilusão de que a singularidade não estabelece um limite para espaço e tempo.
Além disto, a evidência da astronomia observacional tem estado constantemente contrária a hipótese de que o universo irá algum dia se recontrair em um Big Chunch. As tentativas de descobrir a massa densa o suficiente para gerar a atração gravitacional requerida para parar e reverter a expansão de forma continua começaram recentemente. Na verdade, as observações recentes de supernovas indicam que – longe de diminuir sua velocidade – a expansão cósmica esta na verdade se acelerando! Existe alguma espécie de “energia negra” misteriosa na forma de campo de energia variável (chamada “quintessência”) ou, mais provavelmente, a constante cosmológica positiva ou a energia do vácuo tem feito com que a expansão acontecesse mais rapidamente. Se a energia negra indica a existência de uma constante cosmológica positiva (como a evidência tem cada vez mais sugerido), então o universo vai expandir para sempre. De acordo com o site da NASA para o Wilkinson Microwave Anisotropy Probe, “Pois a teoria que se encaixa nos nossos dados é que o universo vai se expandir para sempre”.[31]
Além do mais, a parte de todas as dificuldades físicas que confrontam os modelos oscilatórios, as propriedades termodinâmicas de tais modelos implicam o início absoluto do universo que seus proponentes tentam evitar. Pois a entropia é conservada de círculo a círculo nestes modelos, onde possui o efeito de gerar oscilações maiores com cada círculo sucessivo. Como um time de cientistas explica, “O efeito da produção de entropia será de forma a alargar a escala cósmica, de círculo a círculo. [...] Assim, pesquisando de volta no tempo, cada círculo geraria menos entropia, teria um círculo de tempo menor, e teria um menor fator de expansão do que o círculo que seguiu a ele”.[32] Assim, ao traçar as oscilações de volta no tempo, elas ficarão cada vez menores até alcançar uma oscilação primeira e ínfima. Zeldovich e Novikov então concluem, “O modelo do multicírculo possui um futuro infinito, mas um passado finito”.[33] Na verdade, o astrônomo Joseph Silk estima com base nos atuais níveis de entropia que o universo não pode ter tido mais de 100 oscilações anteriores[34]. Isto está longe do necessário para gerar o tipo de multiverso serial imaginado por Dawkins.
Finalmente, mesmo se o universo pudesse ter oscilado de um passado eterno, tal universo requereria um ajuste fino infinito de suas condições iniciais a fim de que ele continuasse existindo após infinitos números de ressaltos sucessivos. Assim, o mecanismo que Dawkins sonha que pudesse gerar seus muitos mundos não é simples, mas o oposto. Além disto, tal universo envolve um ajuste fino de um tipo bastante bizarro, uma vez que suas condições iniciais devem ser ajustadas nas ínfimas partes. Mas como isto pode ser possível se não houve um começo algum?
Voltando para a discussão dos modelos oscilatórios do universo, o cosmólogo quântico Christopher Isham medita,
Talvez o melhor argumento a favor da tese de que o Big Bang suporta o teísmo é o claro desconforto com o que ele é recebido por alguns físicos ateus. Às vezes ela gerou idéias científicas, como a criação contínua ou um universo oscilatório, sendo avançadas com uma tenacidade que excede tanto seus valores intrínsecos que se pode apenas suspeitar da operação de forças psicológicas repousando bem mais profundamente do que o usual desejo acadêmico de um teorista em defender sua teoria.[35]
No caso de Dawkins não é difícil discernir estas forças psicológicas trabalhando.
A Cosmologia Evolucionária de Lee Smolin
O Segundo mecanismo sugerido por Dawkins para a geração do multiverso é a cosmologia evolucionária de Lee Smolin. Smolin imagina um cenário, Dawkins explica, de acordo com o qual
universos-filhos nascem de universos pais, não num big crunch completo, mas de modo mais local, em buracos negros. Smolin acrescenta uma forma de hereditariedade: as constantes fundamentais de um universo-filho são versões ligeiramente “mutadas” das constantes de seu progenitor... Os universos que têm o necessário para “sobreviver” e “reproduzir-se” acabam predominando no multiverso. O “necessário” inclui durar tempo suficiente para se “reproduzir”. Como o ato da reprodução acontece nos buracos negros, os universos bem-sucedidos precisam ter o necessário para criar buracos negros. Essa capacidade exige várias outras propriedades. Por exemplo, a tendência da matéria de se condensar em nuvens e depois em estrelas é um pré-requisito para produzir buracos negros. As estrelas… são precursoras do desenvolvimento de uma química interessante, e portanto da vida. Assim, sugere Smolin, houve uma seleção natural darwiniana de universos no multiverso, favorecendo diretamente a evolução da fecundidade nos buracos negros e indiretamente a produção de vida.[36]
Dawkins reconhece que “nem todos os físicos” estão entusiasmados com o cenário proposto por Smolin. Eufemismo! O cenário de Smolin, a parte de ele ser ad hoc e por se sustentar em conjecturas que já foram descartadas pela ciência, encontra dificuldades insuperáveis.
Primeiro, uma falha fatal no cenário de Smolin é sua pressuposição de que universos ajustados para produção de buracos negros seriam também ajustados para a produção de estrelas estáveis. Na verdade, o exato oposto é verdadeiro: os mais eficientes geradores de buracos negros seriam os universos que gerassem buracos negros primordiais antes da formação das estrelas, sendo assim universos que pudessem gerar vida seriam capinados pelo cenário cosmológico evolucionário de Smolin. Sendo assim, segue que o cenário de Smolin na verdade tornaria ainda mais improvável a existência de um universo que pudesse gerar vida.
Segundo, especulações sobre universos carregando “bebês universos” via buracos negros contradizem o conhecimento estabelecido da física quântica. A conjectura de que buracos negros podem ser portais de wormholes[37] através dos quais bolhas de energia de falso vácuo podem atravessar para criar novos bebês universos foi o assunto de uma aposta entre Stephen Hawking e John Preskill. Em 2004 Hawking finalmente admitiu, em um evento muito comentando pela imprensa, que ele perdeu.[38] A conjectura exige que a informação trancada em um buraco negro se perdesse completamente e para sempre ao escapar para outro universo. Hawking finalmente veio a concordar que a teoria quântica exige que a informação seja preservada na formação e evaporação de um buraco negro. As implicações? “Não existe universo bebê se ramificando, como eu pensava. A informação permanece firmemente em nosso universo. Sinto muito em desapontar os fãs de ficção científica, mas se a informação é preservada, não existe possibilidade de usar buracos negros para viajar para outros universos”.[39] Isto significa que o cenário de Smolin é fisicamente impossível.
Estes foram os únicos mecanismos sugeridos por Dawkins para a geração de universos ordenados e aleatórios. Nenhum deles é sequer defensável, muito menos simples. Dawkins, portanto, falhou ao devolver a objeção de que a postulação de multiversos ordenados e aleatórios é um “luxo extravagante”.

4.3.3. Outras Objeções ao Multiverso
Mas existem ainda objeções formidáveis para a inferência do multiverso, aparentemente desconhecidas a Dawkins. Primeiro, não há nenhuma evidência independente de que o multiverso exista, muito menos que ele seja aleatoriamente ordenado e infinito. Lembre-se que Borde, Guth e Vilenkin provaram que qualquer universo em um estado de total expansão não pode ter um passado infinito. O teorema deles se aplica ao multiverso também. Portanto, uma vez que o passado do multiverso é finito, apenas um número finito de outros mundos pode ter sido gerado até agora, portanto não há garantias de que um mundo finamente ajustado apareceria no multiverso. Em contraste, nós temos evidências independentes para a existência de um Designer cósmico, a saber, os outros argumentos para a existência de Deus que nós discutimos. Desta forma, levando tudo isto em consideração, o teísmo é a melhor explicação.
Segundo, se nosso universo é apenas um membro aleatório dentro de um conjunto de universos, então é infinitamente mais provável que nós deveríamos estar observando um universo muito diferente do que o que nós de fato estamos observando. Roger Penrose apresentou esta objeção com força.[40] Ele calculou que é inconcebivelmente mais provável que um sistema solar completo se forme através de colisões aleatórias de partículas do que que um universo finamente ajustado exista. Portanto, se nosso universo fosse apenas um membro aleatório de um multiverso, então é incalculavelmente mais provável que nós estivéssemos observando um universo não mais ordenado do que nosso sistema solar. Ou ainda, se nosso universo fosse um membro qualquer de um multiverso, então nós deveríamos estar observando eventos extraordinários como cavalos vindo a existir através de colisões de partículas aleatórias ou máquinas de movimento perpétuo, uma vez que tais coisas são muito mais prováveis do que todas as constantes e quantidades do universo encaixando como luva, apenas pelo acaso, com os valores infinitesimais que permitem a existência de vida. Universos observáveis como aqueles seriam muito mais comuns no multiverso do que mundos como o nosso, portanto, deveriam ser observados por nós. Nós não temos tais observações, o que refuta fortemente a hipótese do multiverso. No ateísmo, pelo menos, é mais provável que não exista multiverso.

4.4. Conclusão
O ajuste fino do universo é, portanto, não ocorre por necessidade física nem acaso. Segue-se, portanto, que o ajuste fino é devido ao design, a não ser que a hipótese do design possa ser demonstrada como ainda mais implausível do que seus adversários.

4.5. A Crítica de Dawkins ao Design
Dawkins afirma que a alternativa do design é, na verdade, inferior às hipóteses de multiverso. Sumarizando o que ele chama de “argumento central do meu livro”, ele argumenta,
1. Um dos grandes desafios ao intelecto humano vem sendo explicar de onde vem a aparência complexa e improvável de design no universo.
2. A tentação natural é atribuir a aparência de design e um design verdadeiro.
3. A tentação é falsa, porque a hipótese de que haja um projetista suscita imediatamente o problema maior sobre quem projetou o projetista.
4. O guindaste mais engenhoso e poderoso descoberto até agora é a evolução darwiniana, pela seleção natural.
5. Nós não temos ainda um guindaste equivalente para a física.
6. Nós não podemos perder a esperança de que surja um guindaste melhor na física, algo tão poderoso quanto o darwinismo é para a biologia.
7. Portanto, Deus quase com certeza não existe.
Este argumento é incrível porque a conclusão ateísta, “Portanto, Deus quase com certeza não existe” não segue das seis premissas anteriores mesmo que concedamos que cada uma delas seja verdadeira e justificada. No máximo, a conclusão é que nós não podemos inferir a existência de Deus com base a aparência de design no universo. Mas esta conclusão é bem compatível com a existência de Deus e até mesmo com nossa crença em Deus sendo justificada sobre outras bases. A rejeição do argumento do design para a existência de Deus não faz nada para provar que Deus não existe ou até mesmo que a crença em Deus seja injustificada.
De qualquer forma, o argumento de Dawkins tem êxito em minar a alternativa do design? O passo (5) faz alusão ao ajuste fino cósmico que tem sido o foco de nossa discussão. Dawkins mantém a esperança de que “Algum teoria do tipo da do multiverso pode em princípio fazer pela física o mesmo trabalho explanatório que o darwinismo faz pela biologia”[41]. Mas ele admite que nós não temos isto ainda, mas também não lida com os formidáveis problemas de tal explicação do ajuste fino. Portanto, a esperança expressa no passo (6) representa nada mais do a fé de um naturalista. Dawkins insiste que mesmo na ausência de uma explicação “altamente satisfatória” para o ajuste fino, ainda assim as explicações “relativamente fracas” que temos no momento são “obviamente melhores que a hipótese contraproducente de um projetista inteligente.”[42] Sério? Que objeção tão poderosa à hipótese do design é esta que garante esta obviedade interior para a admitida fraca hipótese do multiverso?
A resposta se encontra no passo (3). A objeção de Dawkins aqui é que nós não estamos justificados em inferir o design como a melhor explicação para a ordem complexa do universo porque senão um problema maior vai surgir: quem projetou o projetista? (Uma vez que Dawkins erroneamente pensa que o multiverso é simples, não ocorreu a ele a questão, “Quem projetou o multiverso?”) Esta questão aparentemente é tão esmagadora que compensa todos os problemas relativos à hipótese do multiverso.
A objeção de Dawkins, entretanto, não possui peso algum por duas razões. Primeiro, a fim de reconhecermos uma explicação como melhor, nós não temos que ter uma explicação para a explicação. Este é um ponto elementar na filosofia da ciência. Se um grupo de arqueólogos encontrar durante suas escavações coisas parecidas com flechas e pontas de cerâmica, eles estarão justificados em inferir que estes artefatos não são fruto do acaso por sedimentação e metamorfoses, mas produtos de algum grupo desconhecido de pessoas, mesmo que eles não tenham a melhor ideia sobre quem estas eram pessoas ou de onde eles vieram. De igual modo, se astronautas descobrirem um maquinário no lado escuro da lua, eles estarão justificados em inferir que isto é produto de agentes inteligentes, mesmo que eles não tenham a menor ideia de quem eram estes agentes ou como eles chegaram lá.
Repetindo: a fim de reconhecer uma explicação como melhor, você não precisa de uma explicação para a explicação. Na verdade, tal exigência nos levaria a um regresso infinito de explicações de forma que nada jamais poderia ser explicado, e a ciência seria destruída! Pois antes de qualquer explicação pudesse ser aceitável, você precisaria de uma explicação para ela, e uma explicação para a explicação da explicação, etc. Nada poderia jamais ser explicado.
Portanto, neste caso, a fim de reconhecer que o design inteligente é a melhor explicação para a aparência de design no universo, você não precisa ter uma explicação para o Projetista. A questão se o Projetista tem ou não uma explicação simplesmente será deixada aberta para investigação futura.
Segundo, Dawkins pensa que no caso do Projetista divino para o universo, o Projetista deve ser tão complexo quanto as coisas que estão sendo explicadas, desta forma nenhum avanço explicativo estaria sendo feito ao se postular o Projetista. Esta objeção dispara todo o tipo de perguntas sobre o papel da simplicidade na avaliação de explicações competitivas. Primeiro, Dawkins parece confundir a simplicidade de uma hipótese com a simplicidade da entidade descrita na hipótese.[43] Postular uma causa complexa para explicar algum efeito ainda pode ser uma hipótese simples, especialmente quando comparada com as hipóteses rivais. Pense, por exemplo, em nossos arqueólogos postulando um ser humano para explicar as flechas e as pontas de cerâmica descobertas. Um ser humano é uma entidade infinitamente mais complexa do que uma flecha ou que um pedaço de cerâmica, mas a hipótese de um projetista humano é uma explicação muito mais simples. Certamente é mais simples do que a hipótese de que os artefatos tenham sido resultado não intencionado de, digamos, uma debandada de búfalos que arrancou um pedaço de uma rocha que por acaso se lascou no formato de pontas e flechas. O ponto é que é a hipótese rival que está sendo avaliada pelo critério de simplicidade, não as entidades postuladas.
Segundo, existem muitos outros fatores além de simplicidade que os cientistas pesam ao determinar qual hipótese é a melhor, como poder explanatório, escopo explicativo, etc. Uma hipótese que tenha, por exemplo, um escopo explicativo mais amplo pode ser menos simples do que sua hipótese rival, mas ainda assim ser preferida porque explica mais coisas. Simplicidade não é o único critério, e nem mesmo o mais importante para avaliação de teorias!
Mas deixe todos estes problemas de lado, pois o erro doloroso de Dawkins é sua suposição de que um Projetista divino é uma entidade tão complexa quanto o universo. Como uma consciência ou mente pura sem um corpo, Deus é uma entidade notavelmente simples. Uma mente (ou alma) não é um objeto físico composto de partes. Em contraste com o universo contingente e matizado com todas suas quantidades inexplicáveis e constantes, uma mente divina é surpreendentemente simples. Dawkins protesta, “Um Deus capaz de monitorar e controlar permanentemente o status individual de cada partícula do universo não pode ser simples.”[44] Isto é uma confusão. Certamente uma mente pode ter ideias complexas (ela pode pensar, por exemplo, em um cálculo infinitesimal) e pode ser capaz de fazer tarefas complexas (como controlar a trajetória de cada partícula do universo), mas a mente em si mesma é uma entidade incrivelmente simples e não-física. Dawkins evidentemente confundiu as ideias e os efeitos de uma mente, que podem, de fato, ser complexos, com a própria mente, que é uma entidade incrivelmente simples. Portanto, postular uma mente divina por trás do universo, definitivamente, é um avanço em simplicidade, para tudo que vale.
Em seu livro Dawkins de forma triunfante relata como ele apresentou seu suposto argumento destruidor em uma conferência da Fundação Templeton sobre ciência e religião na Universidade de Cambridge, apenas para ser rejeitado pelos outros participantes, que o disseram que os teólogos sempre consideraram que Deus é simples.[45] Eles estavam corretíssimos. De fato, a atitude presunçosa e auto-exaltativa sobre sua objeção equivocada, sustentada até mesmo em face de repetida correção por parte de teólogos e filósofos proeminentes como Richard Swinburne e Keith Ward, é uma maravilha de se ver.
Portanto, das três alternativas diante de nós – necessidade física, acaso ou design – a mais plausível das três, como explicação para o ajuste fino cósmico, é o design. Desta forma, o argumento teleológico continua robusto atualmente, como sempre foi, defendido de várias formas diferentes por filósofos e cientistas como as Robin Collins, John Leslie, Paul Davies, William Dembski, Michael Denton e outros.[46]

FONTE CLICK AQUI

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

EU E O CRIACIONISMO

Antes de tudo quero esclarecer um ponto de vista equivocado que afirma ser toda a Bíblia  a palavra de Deus. A Bíblia não é a palavra de Deus ela é o livro que CONTÉM a palavra de Deus. Para refutar a ideia de que a Bíblia é a palavra de Deus uso a própria Bíblia na seguinte passagem (poderia usar outras mas vai essa que é contundente  para eu ser mais sucinto)  :
“Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento. Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. “ 1 Coríntios 7:6-8 . 
Veja aí que Paulo fala que é a sua vontade e não a vontade de Deus e isto está na Bíblia, logo ela não é a palavra de Deus , mas sim ela contém a palavra de Deus. Assim  que recebi  Jesus Cristo como o meu Senhor e meu Salvador, sentia uma incoerência pois Deus segundo a interpretação literal de Gênesis, teria criado o Homem a sua imagem e semelhança  e a ciência dizer ser o homem um “produto” da evolução biológica.Comprei um livro chamado a Bíblia e a Ciência (não me lembro o autor) e por um tempo fiquei satisfeito com suas críticas a Teoria da Evolução fazendo essa (teoria) parecer um absurdo sem pé nem cabeça.
Mas como continuava a ver na mídia e em tantos lugares essa teoria divulgada , as dúvidas me vinham a cabeça novamente.
Então comprei 5 fitas chamadas ORIGENS e eram cientistas depondo contra a T E , cientistas que apresentavam-se como graduados em vários ramos  ciência . Fiquei muito feliz no tempo, vi e revi muitas vezes essas fitas e foi para minha pessoa  como uma introdução ao “Criacionismo Científico”.
A partir daí passei a fazer pesquisas na internet  com os ensinamentos criacionistas,comprei livros,adquiri cd’s etc... e passei a ser um dos mais radicais anti-evolucionista da WEB, pensando estar trabalhando para Deus ao estar compartilhando entre os internautas as posições criacionistas.
Cheguei a dar uma aula de criacionismo em um colégio na Tijuca (Deus me perdoe por isso),distribui na palestra uma boa quantidade de apostilas com as ideias criacionistas e as ácidas críticas a TE.
Neste tempo havia muito poucos artigos sobre evolução na internet do Brasil, por tanto fui cada vez mais acreditando nas críticas criacionistas a TE e assim é que fui enganado, atacava uma evolução que só existe na cabeça de alguns  criacionistas e não a evolução tal qual ela ocorre. Nesse tempo fui diagnosticado erroneamente por Bipolar por uma psiquiatra e medicado como tal. Os medicamentos me deixavam em estado de êxtase , de euforia e assim eu entrei em debates em vários fóruns e sites na internet.
Nos debates fui tremendamente refutado, vendo todas as defesas do criacionismo caindo as minhas vistas, mas continuava debatendo mesmo sabendo estar sendo refutado. Neste meu estado de descompensação emocional devido aos medicamentos, ficava rindo muito de ver irritado os evolucionistas com as ideias criacionistas sendo espalhadas por mim nos debate .A  essa altura eu já sabia da fragilidade do criacionismo, mas agi como um bêbado que comete irresponsabilidades sem pensar nas consequências. Hoje se alguém fizer uma pesquisa por Edson Martins Medrado ou emmcri, ou ainda emmmcri (apelidos que usava nos debates), verá meu nome atrelado as sandices e mentiras criacionistas o que lamento muito.
Como está escrito “aquilo que o homem plantar isso ele semeará” aconteceu comigo.
Escrevo estas linhas para me retratar na internet , mas também para evitar que futuros desavisados cometam os mesmos erros por mim cometidos.
Caros amigos/irmãos cristãos e evangélicos , não acreditem em tudo que lêem na internet em sites criacionistas, muitas mentiras estão ali contidas.
O diabo é o Pai da mentira e nós assim como nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo
não temos nada haver com esse infame! 
Propagar mentiras criacionistas pela internet é PECADO !
Se querem atacar a TE ou tentar refuta-la estudem  primeiro .
Comprem livros escritos por cientistas , leiam, vejam na internet ou nos livros quais
são os verdadeiros postulados da TE e assim refutem-a ou critiquem-a se forem capaz.
A TE não é uma conspiração de Ateus para enganar os Cristãos ela é uma teoria fortemente embasada em evidências em vários campos do saber.
Mesmo que alguns Ateus usem a ciência querendo afirmar que Deus não existe , isso não é verdade, a ciência não trata disso.
Quanto a ciência e as hipóteses falsificáveis, a Ciência tem como mãe a Filosofia e toda premissa científica parte de um axioma, ou seja uma ideia pré concebida é testada, e estes testes estão sujeitos verificações que estão sujeitas a capacidade de se verificar e de se interpretar.
Logo a ciência não  é uma fonte de saber neutra, ele se quer é isenta, vista que além de se dá nos pre supostos de sua época, é sujeita a muitas limitações, enfim a ciência não tem nada a dizer sobre Deus, foge a seu escopo. Este debate é filosófico.Quanto a Evolução sim a ciência tem argumentações baseadas em evidências muito consistentes.
Existem Cristão sérios e comprometidos com a palavra de Deus que são evolucionistas , procurem, pesquisem e encontrarão.
Quanto a mim continuo criacionista 100% criacionista, mas aí no campo da fé e da revelação !
Não preciso de certificados da ciência para acreditar na Palavra de Deus.
“ O justo viverá por fé ” ( Rm 1:16-17 )
Sei que dirão que é incoerente , mas lembrem-se que Deus quer ser encontrado/experimentado pela
fé e revelação ! Lembrem-se que a fé é loucura !
Leiam :
“O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura” “Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos , poder de Deus”. ( 1Co 1:18 )
Ainda através das palavras do apóstolo Paulo aos Coríntios , conforme se vê:... “ mas nós pregamos a Cristo crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios...” (1 Co 1:23). Portanto, chegamos a conclusão, que o Evangelho é visto como loucura para uns, enquanto salvação para o crente."
A Bíblia é uma verdade religiosa revelada de forma sobrenatural por Deus e nos propõe a ler a crer . É um revelação sobre natural , a ciência lida como o que é natural. 

Caros irmãos em Cristo pensem um pouco, a maioria absurda dos cientistas são evolucionistas .
Os sites criacionistas tratam tais pessoas como desonestas,como se estivessem defendendo a
evolução por razões filosóficas e usando assim de desonestidade.
.Cientistas são pessoas que muitas das vezes perdem horas e dias para se dedicar a ciência
em prol da humanidade.É certo acusar tais pessoas como um Diísta conhecido na Web
que os acusa de cometerem um 171 epistêmico ?
Ou outro que fala o seguinte absurdo aqui:
http://darwinismo.wordpress.com/2012/12/13/porque-e-que-quase-todas-as-culturas-mundiais-possuem-uma-tradicao-em-torno-dum-diluvio-global/
Meu Irmão, Em primeiro lugar, para resoluçãoste problema, NUNCA, repito,
 NUNCA confie nos ARGUMENTOS E FONTES de crentes Naturalistas. Sempre
que fizerem alguma afirmação, citando as fontes, CONFIRA.
Eles costumam por diversas vezes MENTIR (até mesmo porque são desonestos)"
Ou ainda isso aqui :
"Por isso é que é bom levar em conta uma coisa: sempre que nós discutimos com um evolucionista, estamos a discutir com uma pessoa desonesta; o nosso propósito não é só mostrar que o evolucionista está errado, mas também que ele é um ideólogo, falso, provavelmente mentiroso, e um indivíduo mascarado de  “pessoa de mente aberta” quando na verdade é uma pessoa fortemente intolerante dos factos que perturbam o seu frágil edifício ateu." http://darwinismo.wordpress.com/page/7/
Percebem o mal testemunho aqui ??
É certo isso meus irmãos ? Devemos apoiar tais atos ?
Claro que não ! Um sonoro não !
Hora, se Deus quisesse ser achado através da ciência ao apontarmos um
telescópio para o espaço ele não estaria acenado pra nós e dizendo eu estou aqui ?
Aprouve a ele que nos acheguemos por fé ! Que nele creiamos pela loucura da Fé!!
Ele decidiu isso, quem somos nós para questiona-lo?
Por favor parem de maltratar os cientistas !
A mistura religião com ciência quase nunca deu certo.

Quero deixar claro que nem todos os criacionistas são mentirosos.Creio que alguns acreditam mesmo nas coisas que propagam, fechando os olhos para as evidências, eu não consegui permanecer desta forma..
Assim me retrato.

Também Aqui : http://edsonmartinsmedrado2014.blogspot.com.br/2014/ 
http://edsonmartinsmedrado2014.blogspot.com.br/2014/
http://edsonmedrado.blogspot.com.br/ 
http://meretratando.blogspot.com.br/


Edson Martins Medrado
Cel :99896 3827

domingo, 6 de janeiro de 2013

SÍNDROME DO PÂNICO PARTE 1

Como estou me tratando, achei um artigo para ajudar aqueles que como eu estão passando por tal.


VÍDEO CLICK AQUI


FONTE CLICK AQUI



Artur Scarpato : Psicólogo Clínico (PUC SP). Mestre em Psicologia Clínica (PUC SP). Especialista  em Psicologia Hospitalar em Reabilitação pelo Hospital das Clínicas da USP e em Cinesiologia Psicológica pelo Instituto Sedes Sapientiae. Especialista no tratamento de Transtornos de Ansiedade como Síndrome do Pânico, Fobia Social e Estresse Pós Traumático. Atende em consultório desde 1993.  


Artur Scarpato - Psicologia Clínica

Rua Artur de Azevedo, 1767

Pinheiros  São Paulo SP

(Próx. da Av. Rebouças e da R. dos Pinheiros)

Fone (0xx11) 3067 5967




Apresentação do SitePsicoterapiaTratamento para Síndrome do PânicoArtigos de Psicologia e Áreas de PesquisaEscreva, pergunte !

SÍNDROME DO PÂNICO

TRANSTORNO DO PÂNICO

O psicólogo Artur Scarpato participou do programa Alternativa Saúde do canal GNT falando sobre Ansiedade e Transtorno do Pânico.
Assista agora os melhores momentos do programa.

"Desenvolvo um tratamento especializado para pessoas com Transtorno do Pânico desde 1995. Um tratamento eficaz vai além de controlar as crises de pânico, mas implica em agir sobre os processos responsáveis pelo início, manutenção e recaída no Pânico. A pessoa fica livre dos ataques de pânico e aprende a lidar com os estados de vulnerabilidade e desamparo originais sem reagir com novos picos de ansiedade. Este é o diferencial de uma abordagem especializada".  Artur Scarpato
Veja também o nosso Blog da Ansiedade e do Pânico


ILUSTRANDO: COMO É A SÍNDROME DO PÂNICO

Você pode imaginar o que é sentir isto ?

"De repente os olhos embaçaram, eu fiquei tonto, não conseguia respirar, me sentia fora da realidade, comecei a ficar com pavor daquele estado, eu não sabia aonde ia parar, nem o que estava acontecendo..."

" ...era uma coisa que parecia sem fim, as pernas tremiam, eu não conseguia engolir, o coração batendo forte, eu estava ficando cada vez mais ansiosa, o corpo estava incontrolável, eu comecei a transpirar, foi horrível..."

"Depois da primeira vez eu comecei a temer que acontecesse de novo, cada coisa diferente que eu sentia e eu já esperava... ficava com medo, não conseguia mais me concentrar em nada... deixei de sair de casa, eu não conseguia nem ir trabalhar."

"Quando começa eu já espero o pior, "aquilo" é muito maior do que eu, o caos toma conta de mim, é como uma tempestade que passa e deixa vários estragos... principalmente eu me sinto arrasada. Eu sempre fico com muito medo de que aquilo ocorra de novo... minha vida virou um inferno."

Por estes relatos, que poderiam ser de diferentes pessoas que sofrem de Síndrome  do Pânico, é possível identificar o grau de sofrimento e impotência que estas pessoas sentem ao passar pelas crises. 

A pessoa sente como se estivesse algo muito errado em seu corpo, que se comporta de modo muito "estranho", "louco". Porém os exames clínicos não detectam nada de anormal com seu organismo.

Como entender? 

No Pânico o corpo reage como se estivesse frente a um perigo, porém não há nada visível que possa justificar esta reação.

A pessoa reage com ansiedade frente às sensações de seu próprio corpo, há um estranhamento e um grande susto em relação ao que é sentido dentro da pele. No Pânico o perigo vem de dentro.

É comum a pessoa passar a restringir a sua vida a um mínimo, limitando toda forma de estimulação para tentar evitar que  "aquilo volte". Assim a pessoa pode evitar sair de casa, ir a lugares específicos, evitar algumas atividades, privando-se de muitas experiências, o que começa a comprometer a sua vida pessoal e profissional.

Vamos compreender o que acontece com a pessoa e como ela pode sair desta armadilha.


O QUE É SÍNDROME DO PÂNICO OU TRANSTORNO DO PÂNICO ?

A Síndrome do Pânico é um transtorno psicológico caracterizada pela ocorrência de inesperadas crises de pânico e por uma expectativa ansiosa de ter novas crises.

As crises de pânico - ou ataques de pânico - consistem em períodos de intensa ansiedade, geralmente com início súbito e acompanhados por uma sensação de catástrofe iminente. A freqüência das crises varia de pessoa para pessoa e sua duração é variável, geralmente durando alguns minutos. 

No geral, as crises de pânico apresentam pelo menos quatro dos sintomas abaixo:

Taquicardia, falta de ar, dor ou desconforto no peito, formigamento,  tontura, tremores, náusea ou desconforto abdominal, embaçamento da visão, boca seca, dificuldade de engolir, sudorese, ondas de calor ou frio, sensação de irrealidade, despersonalização, sensação de iminência da morte.

Há crises de pânico mais completas e outras menores, com poucos sintomas.



Geralmente as crises de pânico se iniciam com o disparo de  uma reação inicial de ansiedade, que logo ativa um medo em relação às reações que começam a ocorrer no corpo. Durante a crise surgem na mente da pessoa uma série de interpretações  negativas sobre o que está ocorrendo, sendo muito comuns quatro tipos de pensamentos catastróficos: de que a pessoa está perdendo o controle, que vai desmaiar, que está enlouquecendo ou que vai morrer.

No intervalo entre as crises a pessoa costuma viver na expectativa de ter uma nova crise. Este processo, denominado ansiedade antecipatória, leva muitas pessoas a evitarem certas situações e a restringirem suas vidas.

A Classificação Diagnóstica

O Transtorno do Pânico é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) constando da Classificação Internacional de Doenças (CID 10), na classe dos Transtornos Mentais. E aparece no DSM IV-R (Diagnostic and Statistical of Mental Disorders, 4rd Edition Revised) da Associação Americana de Psiquiatria.
O Pânico faz parte dos denominados transtornos de ansiedade juntamente com as fobias (fobia simples e fobia social), o estresse pós-traumático, o transtorno obsessivo-compulsivo e o transtorno de ansiedade generalizada.
Enquanto nas Fobias Simples a pessoa teme uma situação ou um objeto específico fora dela, como  fobia de altura, por exemplo; no Pânico a pessoa teme o que ocorre no seu próprio corpo; é para essas reações que se volta a atenção, como se estas fossem perigosas. 
Há uma classificação da Síndrome do Pânico com agorafobia e sem agorafobia. A agorafobia é um estado de ansiedade relacionado a estar em locais ou situações onde escapar ou obter ajuda poderia ser difícil, caso a pessoa tivesse um ataque de pânico. Pode incluir  situações como estar sozinho, estar no meio de multidão, estar preso no trânsito, dentro do metrô, num shopping, etc.
As pessoas que desenvolvem Pânico com agorafobia, geralmente se sentem mais seguras com a companhia de alguém de sua confiança e acabam elegendo alguém como companhia preferencial. Este acompanhante funciona como um "regulador externo", ajudando a pessoa a se sentir menos vulnerável a uma crise de pânico.
 
QUESTÕES ESSENCIAIS
Início das Crises de Pânico
A ansiedade é uma reação emocional natural que ocorre quando nos sentimos vulneráveis e na expectativa de um perigo. Quando a resposta emocional de ansiedade é muito intensa e repentina temos uma crise de pânico, que na verdade é um ataque agudo de ansiedade. Numa crise de pânico sofremos muito, achando que algo catastrófico pode nos acontecer a qualquer momento.
Todos estamos sujeitos a ter uma eventual crise de pânico quando expostos a um estresse muito alto, quando inundados por emoções ou em situações que nos levam a um estado extremo de vulnerabilidade e desamparo. Esta é uma reação que faz parte do espectro normal de reações emocionais, apesar de pouco freqüente e muito desconfortável.
Pesquisas mostram que eventos que ocorreram nos últimos dois anos da vida da pessoa podem contribuir para uma pessoa chegar ao estado de vulnerabilidade que vai desencadear uma crise de pânico. Os eventos podem ser de vários tipos como separação, doença, morte de alguém próximo, vivências traumáticas, crises existenciais, crises profissionais, mudanças importantes na vida etc.
Estes fatores aumentam significativamente o nível de estresse e podem levar a pessoa a um grau de vulnerabilidade que vai disparar uma crise de pânico em algum momento.
O que caracteriza a Síndrome do Pânico é que estas crises passam a se repetir. A partir de uma crise inicial a pessoa começa a apresentar crises repetidas, sentindo-se insegura, esperando ansiosamente por uma nova crise que pode ocorrer a qualquer momento.
Há alguns fatores que levam uma pessoa a desenvolver este padrão repetitivo de crises que caracteriza a Síndrome do Pânico.
Uma das razões é que geralmente as primeiras crises acabam sendo vividas como uma experiência traumática. Quando dizemos que uma experiência foi traumática, significa que ela fica registrada num circuito específico de "memória emocional" que passa a disparar a mesma reação emocional automaticamente, sem a participação da consciência. Sempre que aparecem algumas reações parecidas no corpo inicia-se uma nova crise de pânico.
Outros fatores anteriores podem tornar uma pessoa vulnerável a desenvolver um Transtorno de Pânico, como ter um temperamento mais ansioso, ter vivido ansiedade de separação na infância, ter sido criado por pais ansiosos, etc. Um fator importante que contribui para o desenvolvimento do Pânico é que estas pessoas geralmente têm falhas no processo de auto-regulação emocional, ficando ansiosas e não sabendo como se acalmar. Todos estes fatores, combinados ou não, contribuem para que uma pessoa venha a desenvolver Síndrome do Pânico.
O Medo das Reações do Corpo
Na Síndrome do Pânico, várias sensações do corpo acabam se associando às crises e passam a ser interpretados como um sinal de perigo iminente, do início de uma possível crise. Sinais tão diversos como a tensão decorrente de uma resposta de raiva, o enjôo de algo que não caiu bem no estômago, o cansaço de uma noite mal dormida, a tristeza de alguma perda, enfim todo o espectro das sensações e sentimentos pode ser equivocadamente interpretado como indício de uma crise de pânico, levando a pessoa a se assustar e assim, com medo do medo, iniciar uma crise.

A pessoa faz constantes interpretações equivocadas e catastróficas de suas reações e sensações corporais,  achando que vai ter um ataque cardíaco, que está doente, que vai desmaiar, que vai morrer, etc. É comum a pessoa viver ansiosamente o que poderia ser vivido como sentimentos diferenciados. Numa situação que poderia despertar alegria, a pessoa se sente ansiosa; numa situação que provocaria raiva ela também se sente ansiosa. Qualquer reação interna ou sentimento mais intenso pode disparar reações de ansiedade.

Esta perda de discriminação da paisagem interna compromete seriamente a vida da pessoa, pois esta se sente ameaçada constantemente por suas próprias sensações corporais. O corpo passa a ser a maior fonte de ameaça. Perder a confiança no próprio corpo leva a uma experiência de extrema fragilidade.

Geralmente algumas das reações corporais que estavam presentes na primeira crise ficam associadas a perigo e passam, a partir daí, a funcionar como disparadores de novas crises. Sempre que estas reações aparecem dispara-se uma resposta automática de ansiedade, o que inicia uma crise de pânico.

As crises de pânico se iniciam geralmente a partir de um susto - consciente ou não - em relação a algumas reações do corpo. As reações disparadoras podem ser variadas, desde uma alteração nos batimentos cardíacos, uma sensação de tontura, falta de ar, enjôo, palpitação, tremor, etc.

Numa crise de pânico a pessoa reage frente aquilo que seu cérebro interpreta como um perigo. Não há um perigo real, apenas uma hiperativação do circuito do medo que dispara um alarme na presença de algumas reações corporais. A presença destes gatilhos corporais pode disparar ansiedade mesmo quando a pessoa não tem consciência deles. Pesquisas apontam, por exemplo, que numa crise de pânico noturna, reações corporais que ficaram associadas a perigo surgem com a pessoa ainda dormindo, e disparam uma reação de ansiedade que acorda a pessoa, muitas vezes já tendo uma crise. Enfraquecer esta associação reações do corpo-perigo, que dispara uma crise de pânico é um dos focos do tratamento.


O Curto-circuito Corpo-Emoção-Pensamento
Podemos identificar a emoção de medo/ansiedade ocorrendo em três níveis: como reações fisiológicas (alterações na pressão sanguínea, nos batimentos cardíacos, piloereção, suor, hiperventilação etc), como reações afetivas (sentimentos de apreensão, desamparo,  ansiedade, desespero etc) e como reações cognitivas (preocupação, pensamentos catastróficos, ruminações etc)
A ansiedade produz reações fisiológicas que são naturais desta emoção, como taquicardia e respiração curta. A pessoa com Pânico tende a interpretar estas reações como se fossem perigosas - sinal de doença, de catástrofe iminente, etc. Estas interpretações, na forma de pensamentos catastróficos, acabam por produzir mais ansiedade, o que por sua vez aumenta ainda mais as reações fisiológicas .... reforçando assim os pensamentos catastróficos.
Cria-se assim um circuito infindável onde as reações fisiológicas naturais da emoção de medo/ansiedade são interpretadas equivocadamente como perigosas em si, o que acaba por produzir mais ansiedade, que por sua vez alimenta os pensamentos catastróficos, num processo sem fim. Enquanto a pessoa não interromper este curto-circuito ela não consegue se livrar das crises de pânico.
Expectativa Constante de Perigo
O estado de ansiedade leva a automatismos no processo de atenção e pensamento. A atenção passa a se deslocar descontroladamente, monitorando o corpo em busca de algo que possa representar perigo. O enfraquecimento da capacidade de controle voluntário da atenção está relacionado à dificuldade de concentração frequentemente relatada pelas pessoas ansiosas.
Sob ansiedade a consciência é tomada por um fluxo de preocupações, pensamentos e ruminações e a pessoa sente que tem pouco domínio de sua mente. Surgem interpretações equivocadas das reações corporais, pensamentos automáticos catastróficos, onde a pessoa passa a esperar sempre pelo pior.
A ansiedade é a emoção típica da expectativa de perigo, ela ocorre quando a pessoa se projeta numa situação futura sentida como ameaçadora: "e se... eu vou... vai acontecer... vou passar mal...".
A pessoa vive a maior parte do tempo tomada por graus variados de ansiedade e tem dificuldade de se sentir presente e inteira no momento atual, vivendo como "prisioneira do futuro". Criar presença e fortalecer a atenção são focos importantes no tratamento.
Os Dois Processos de Regulação Emocional
O ser humano dispõe de dois processos básicos de regulação emocional: auto-regulação e regulação pelo vínculo.
Através do processo de auto-regulação emocional podemos regular o nosso próprio estado interno, nos acalmando, nos contendo, nos motivando etc.
Através do processo de  regulação pelos vínculos, podemos influenciar reciprocamente a fisiologia e os afetos um do outro e assim podemos nos acalmar e nos regular nos relacionamentos com pessoas de nossa  confiança. Os dois processos são normais, necessários e importantes ao longo da vida.
Nas pessoas que desenvolvem Síndrome do Pânico encontramos problemas nestes dois processos, tanto uma precária capacidade de auto-regulação como um enfraquecimento nos processos de regulação pelos vínculos, muitas vezes decorrentes de  traumas de relacionamentos e ansiedades infantis que se reatualizam.
Tomada pela ansiedade nas crises, mas também num grau menor no período entre as crises, a pessoa com pânico não sabe como apagar o fogo que arde dentro de si. Daí a importância de desenvolver bem os processos de auto-regulação e de regulação pelo vínculo.
Processos de Auto-Regulação
A qualidade da relação com a própria excitação interna começa a se moldar nas experiências precoces de vida. Inicialmente a mãe ajuda a regular o corpo da criança até que o corpo um pouco mais maduro possa se auto-regular. Observa-se que nas pessoas com Síndrome do Pânico esta função não está bem desenvolvida e a pessoa sente-se facilmente ansiosa e vulnerável frente as reações que dominam o seu corpo.
É comum, por exemplo, as pessoas que desenvolvem algum transtorno de ansiedade terem tido mães ansiosas, emocionalmente hiper-reativas, que ao invés de acalmarem a criança, a deixavam mais assustadas a cada pequeno incidente, como um tropeção ou um simples resfriado.
Experiências de vida desde a infância precoce podem atrapalhar o desenvolvimento da capacidade de auto-regulação, tornando uma pessoa com baixa tolerância à excitação interna. Isto aumenta a vulnerabilidade da pessoa aos transtornos ansiosos como a Síndrome do Pânico.
Muitas pessoas com Pânico costumam solicitar a presença constante de alguém para que se sintam mais seguras. Buscam compensar a sua dificuldade de auto-regulação através de uma regulação pelo vínculo.
 Dois Níveis do Vínculo: Contato e Conexão
Quando duas pessoas estão conversando, elas estão em contato, mas não necessariamente em conexão. Contato é uma interação de presença, que pode ser superficial, enquanto conexão é uma ligação profunda que ocorre mesmo quando as pessoas estão distantes. Duas pessoas podem estar em contato, conversando, mas com baixíssima conexão, como numa situação social formal. Por outro lado, duas pessoas podem estar fisicamente distantes, e portanto sem contato, mas se sentirem conectadas.
Esta distinção entre contato e conexão é muito importante para compreender o que ocorre na situação que produz as crises de pânico.
Muitas pessoas relatam não ter crises de Pânico enquanto estão acompanhadas de alguém confiável. Porém, isto é verdadeiro enquanto elas se sentem conectadas com esta pessoa. Quando a outra pessoa está ao lado - portanto em  contato - mas sem conexão emocionala crise de Pânico pode se instalar com mais probabilidade. Algumas pessoas chegam a relatar a sensação de perda a conexão com o outro antes de uma crise de pânico eclodir.
A pessoa com pânico geralmente conhece a sensação de "estar ausente", desconectada, se sentindo distante mesmo de quem está ao seu lado.
A conexão com o outro parece prevenir crises de ansiedade por oferecer uma proteção através do vínculo, uma garantia que protege da sensação de desamparo e vulnerabilidade. Nesta situação, o corpo da pessoa confiável funciona como um "assegurador do funcionamento normal do corpo" da pessoa com pânico. Na ausência da conexão com o outro, o corpo poderia se desregular e a sensação de pânico aparecer.