
WILLIAN LANE CRAIG
Como Cristo pode ser o único caminho para Deus?
William Lane Craig
Recentemente
falei em uma grande universidade canadense sobre a existência de Deus.
Após a palestra, uma estudante um pouco irada escreveu em seu cartão de
comentários: ―estava lhe acompanhando até aquela coisa sobre Jesus. Deus
não é o Deus cristão!‖
Atualmente, esta atitude é pervasiva na
cultura ocidental. A maioria das pessoas admite de bom grado que Deus
existe, mas em uma sociedade pluralista como a nossa, tornou-se
politicamente incorreto clamar que Deus se revelou decisivamente em
Jesus.
Entretanto isto é exatamente o que o Novo Testamento ensina
claramente. Tomemos as cartas do apóstolo Paulo, por exemplo. Ele
convida os gentios convertidos a se lembrarem da era pré-cristã:
―naquele tempo, estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel e
estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança e sem Deus no
mundo‖ (Efésios 2.12)ii. O propósito dos primeiros capítulos das cartas
de Paulo aos romanos é justamente mostrar que essa infeliz condição é a
situação geral de toda a humanidade. Paulo explica que o poder e a
divindade de Deus são conhecidos pela harmonia das coisas criadas que
nos cercam e que os homens são indesculpáveis (1.20). Mais que isso, que
Deus escreveu Sua lei moral no coração de todo homem, de modo que estes
são moralmente responsáveis perante Ele (2.15). Embora Deus ofereça a
vida eterna àquele que responder de forma apropriada à revelação de Deus
na natureza e consciência, a triste verdade é que as pessoas ignoram
Deus e zombam de Sua lei moral (1.21-32), em lugar de adorar e servir o
Criador. A conclusão: todo homem está sob o poder do pecado (3.9-12).
Pior, Paulo segue explicando que ninguém pode se redimir através de uma
vida justa (3.19-20). Felizmente, contudo, Deus forneceu um meio de
redenção: Jesus Cristo morreu pelos pecados da humanidade, satisfazendo,
portanto, a justiça de Deus e possibilitando a reconciliação com Ele
(3.21-6). Através de Sua morte propiciatória a salvação se tornou
possível como um dom recebido pela fé.
A lógica do Novo Testamento é
clara: a universalidade do pecado e a imparidade da morte propiciatória
de Cristo implicam que não há salvação a não ser por Cristo. Como os
apóstolos proclamaram, ―E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo
do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual
importa que sejamos salvos‖ (Atos 4.12).
Esta doutrina particularista
era tão escandalosa no politeísta Império Romano como o é hoje para a
cultura ocidental. Por essa razão, os primeiros cristãos eram
frequentemente perseguidos, torturados e mortos, já que eles se
recusavam a adotar uma visão pluralista das religiões. Naquele tempo,
contudo, à medida que o cristianismo cresceu e suplantou as religiões da
Grécia e Roma, vindo a se tornar a religião oficial do Império Romano, o
escândalo diminuiu. De fato, para pensadores medievais como Agostinho e
Aquino, uma das marcas da verdadeira Igreja era sua catolicidade, isto
é, sua universalidade. Para estes, era inconcebível que o grande
edifício da Igreja Cristã (que abarcava toda a civilização) fosse
fundado em uma mentira.
Essa doutrina desapareceu com a então chamada
―Expansão Marítima‖, que se refere aos três séculos de exploração e
descobertas ocorridas entre 1450 e 1750. Através das expedições e
viagens
de homens como Marco Polo, Cristóvão Colombo e Fernão de
Magalhães, novas civilizações e mundos inteiros que nada sabiam da fé
cristã foram descobertos. A percepção de que muito do mundo nunca tivera
contato com o cristianismo teve dois grandes impactos sobre o
pensamento religioso das pessoas. Primeiro, houve a tentativa de se
relativizar as crenças religiosas. Parecia que, longe de ser uma
religião universal, o cristianismo estava confinado à Europa ocidental,
uma pequena porção do globo. Assim parecia que nenhuma religião
particular poderia pretender ser válida universalmente. Cada sociedade
parecia ter sua própria religião, adequada às suas próprias necessidades
peculiares. Segundo, fez com que a assertiva cristã de que Cristo é o
único meio de salvação parecesse limitada e cruel. Racionalistas
iluministas como Voltaire insultaram seus coevos cristãos com o cenário
de que milhões de chineses teriam ido para o inferno por não terem crido
em Cristo, quando nem sequer tinham ouvido sobre Ele. Mesmo hoje, o
influxo de imigrantes oriundos de ex-colônias para as nações ocidentais e
os avanços nas telecomunicações que tem reduzido o mundo a uma aldeia
global tem aumentado nossa percepção da diversidade religiosa da
humanidade. Como resultado, o pluralismo religioso é hoje senso comum.
O problema colocado pela diversidade religiosa
Mas
qual seria exatamente o problema colocado pela diversidade religiosa da
humanidade? E para quem isto seria um problema? Quando alguém lê a
literatura a esse respeito, o desafio recorrente parece recair sobre o
particularismo cristão. O fenômeno da diversidade religiosa é utilizado
para enunciar a verdade do pluralismo e o debate, então, prossegue para
qual forma de pluralismo é mais plausível. Mas por que pensar que o
particularismo cristão é indefensável em face da diversidade religiosa?
Qual seria exatamente o problema?
Quando alguém examina os argumentos
a favor do pluralismo, descobre que muitos deles são quase falácias
lógicas exemplificadas em manuais. Por exemplo, é frequentemente
argumentado que é arrogante e imoral sustentar qualquer doutrina
religiosa particularista, porque o crente irá considerar todas as
pessoas que discordam de sua própria religião como erradas. Este parece
ser um exemplo simplório de falácia lógica conhecido como argumento ad
hominem, que tenta invalidar uma posição atacando a pessoa que o
defende. Isto é uma falácia porque a verdade de uma proposição independe
das qualidades morais daquele que a defende. Mesmo se todos os cristãos
particularistas forem arrogantes e imorais, não segue que a visão deles
seja falsa. Não apenas isto, por que pensar que arrogância e
imoralidade são necessariamente condições de um particularista?
Suponhamos que eu tenha feito tudo que podia para descobrir a verdade
religiosa sobre a realidade e estou convencido que o cristianismo é
verdadeiro e, humildemente, professo a fé cristã como alguém que, sem
merecer, recebe um presente de Deus. Sou, portanto, arrogante e imoral
por acreditar naquilo que sinceramente penso ser verdade? Finalmente, e
ainda mais fundamental, tal objeção é uma espada de dois gumes. Porque o
pluralista também acredita que sua visão está certa e que todos os
adeptos das tradições particularistas estão errados. Portanto, se
sustentar uma visão da qual muitos outros discordam significa arrogância
e imoralidade, então o próprio pluralista deveria estar convencido de
sua arrogância e imoralidade.
Para dar outro exemplo, é
frequentemente alegado que o particularismo cristão não pode estar
correto porque religiões são culturalmente relativas. Por exemplo, se um
cristão tivesse nascido no Paquistão, ele provavelmente seria
muçulmano. Dessa forma, sua crença no cristianismo é falsa ou
injustificada.
Mas, novamente, parece que estamos diante de outra falácia de
livro-texto, chamada falácia genética. Tenta-se invalidar uma posição
criticando o modo pelo qual a pessoa veio a sustentá-la. O fato de que
suas crenças dependem de quando e onde você nasceu não tem relevância
sobre a verdade da crença. Se você tivesse nascido na Grécia antiga,
você provavelmente teria acreditado que o sol orbita a Terra; Isto
implica que sua crença de que a Terra orbita o sol é, portanto, falsa ou
injustificada? Evidentemente não? E, novamente, o pluralista puxa o
tapete de debaixo de seus pés: tivesse o pluralista nascido no
Paquistão, ele provavelmente seria um particularista religioso. Então,
segundo sua própria análise, seu pluralismo é meramente o produto de ter
nascido na sociedade ocidental do século XX e, portanto, falso e
injustificado.
Assim, alguns dos argumentos contra o particularismo
cristão frequentemente encontrados na literatura são ineficazes. Eles
não são realmente o problema. Entretanto, creio que quando essas
objeções são respondidas pelos defensores do particularismo cristão,
então a real questão tende a emergir. Essa questão, penso, diz respeito
ao destino dos incrédulos fora da própria tradição religiosa. O
particularismo cristão despacha tais pessoas para o inferno, o que os
pluralistas tomam como inescrupuloso.
Mas qual exatamente seria o
problema aqui? Qual é a dificuldade em sustentar que salvação somente é
possível através de Cristo? Seria simplesmente a alegação de que um Deus
de amor não mandaria as pessoas para o inferno? Eu não acho. A Bíblia
diz que Deus deseja a salvação de cada ser humano. ―Não retarda o Senhor
a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é
longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos
cheguem ao arrependimento‖ (2Pedro 3.9). Ainda, ―o qual deseja que
todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade‖
(1Timóteo 2.4). Deus fala através do profeta Ezequiel:
―Acaso, tenho
eu prazer na morte do perverso? — diz o SENHOR Deus; não desejo eu,
antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Porque não tenho
prazer na morte de ninguém, diz o SENHOR Deus. Portanto, convertei-vos e
vivei. Dize-lhes: Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho
prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu
caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos;
pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?‖ (Ez. 18.23,32; 33.11)
Aqui
Deus literalmente suplica ao povo para se arrepender do curso de ação
autodestrutivo que tomou e seja salvo. Então, de certo modo, o Deus
bíblico não manda qualquer pessoa para o inferno. Ele deseja que todos
sejam salvos e procura atrair todas as pessoas para Si. Se fizermos uma
escolha livre e bem informada de rejeitar o sacrifício de Cristo pelos
nossos pecados, então Deus não tem outra escolha senão nos dar o que
merecemos. Deus não irá nos mandar para o inferno – mas nós nos
mandaremos para lá. Nosso destino eterno está, pois, em nossas mãos.
Onde nós passaremos a eternidade é uma questão de livre arbítrio. Os
perdidos, assim, se auto-condenam; eles se apartam de Deus apesar do
desejo e esforço dEle para os salvar – e Deus se angustia com a perda
deles.
Agora o pluralista talvez admita que, dado o livre arbítrio,
Deus não pode garantir que todos serão salvos. Algumas pessoas podem
livremente se condenar a si mesmas rejeitando a oferta de salvação de
Deus. Porém, ele talvez argumente, seria injustiça de Deus condenar tais
pessoas eternamente. Porque mesmo terríveis pecados tais como aqueles
dos torturadores nazistas nos campos de
concentração merecem apenas
uma punição finita. Assim, o inferno, pelo menos, deveria ser uma
espécie de purgatório, que duraria um tempo apropriado para cada pessoa
até que fosse liberta e admitida no paraíso. Eventualmente o inferno
ficaria vazio e o paraíso lotado. Então, ironicamente, o inferno é
incompatível não apenas com o amor de Deus, mas com Sua justiça. A
objeção assevera que Deus é injusto porque a punição não está de acordo
com o crime.
Mas, novamente, isto não me parece ser o verdadeiro problema, porque a objeção falha em, pelo menos, dois aspectosiii:
(1)
A objeção confunde cada pecado que nós cometemos com todos os pecados
que nós cometemos. Poderíamos admitir que cada pecado individual que uma
pessoa comete merece somente uma punição finita. Mas não seguiria daí
que todos os pecados de uma pessoa tomados em conjunto implicariam em
apenas uma punição finita. Se uma pessoa comete um número infinito de
pecados, então a soma total de todos os pecados merece punição infinita.
Logicamente ninguém comete um número infinito de pecados na vida
terrena. Mas e depois da morte? À medida que os habitantes do inferno
continuam odiando e rejeitando Deus, eles continuam pecando, adicionando
sobre si mesmos mais culpa e punição; Em um sentido real, então, o
inferno se auto perpetuaria. Em tal caso, cada pecado teria uma punição
finita, mas porque o pecado seria eterno, assim seria a punição.
(2)
Por que pensar que cada pecado tem apenas uma punição finita? Nós
poderíamos admitir que pecados como roubar, mentir, adulterar, etc. tem
apenas consequências finitas e, portanto, somente merecem uma punição
finita. Mas, de certo modo, estes pecados não são o que separa alguém de
Deus. Porque Cristo morreu por estes pecados. A pena por estes pecados
foi paga. A pessoa tem apenas que aceitar Cristo como salvador para ser
completamente livre e limpa destes pecados. Mas a recusa em aceitar
Cristo e seu sacrifício parece ser um pecado de ordem completamente
diferente. Porque este pecado repudia a providência de Deus para o
pecado e decisivamente separa o homem de Deus e de Sua salvação.
Rejeitar Cristo é rejeitar o próprio Deus. E à luz de quem Deus é, este é
um pecado de gravidade e proporções infinitas e, portanto,
plausivelmente merece infinita punição. Desse modo, nós não deveríamos
pensar no inferno como sendo primariamente punição pelo conjunto de
pecados de consequência finita que nós temos cometido, mas como a justa
pena por um pecado de infinita consequência, a saber, a rejeição de
Deus.
Mas talvez o problema seja que um Deus de amor não mandaria
pessoas para o interno porque elas estavam mal informadas ou
desinformadas sobre Jesus. Novamente, esta não me parece ser a raiz do
problema. Porque, de acordo com a Bíblia, Deus não julga as pessoas que
nunca ouviram sobre Cristo com base se eles colocaram a fé em Cristo.
Deus os julga com base na Sua revelação geral na natureza e na
consciência que eles tem. A proposta de Romanos 2.7 (―a vida eterna aos
que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e
incorruptibilidade‖) é uma proposta de salvação de boa fé. Isto não diz
que as pessoas podem ser salvas à parte de Cristo. Pelo contrário, diz
que os benefícios da morte propiciatória de Cristo poderiam ser
aplicados a pessoas sem um conhecimento consciente de Cristo. Tais
pessoas seriam similares a certas pessoas mencionadas no Velho
Testamento, como Jó e Melquisedeque, que não tinham conhecimento
consciente de Cristo e não eram sequer membros da aliança de Israel, mas
claramente gozaram de um relacionamento pessoal com Deus. Similarmente,
poderia haver Jós atualmente vivendo entre aquele percentual da
população do mundo que ainda não ouviu o Evangelho de Cristo.
Infelizmente,
como vimos, o testemunho do Novo Testamento é que as pessoas não
alcançam nem mesmo padrões muito baixos de revelação geral. Então, há
pouco espaço para otimismo sobre existir muitos, ou mesmo um, que será
salvo apenas através de sua resposta à revelação geral. Não obstante,
resta o ponto de que a salvação é universalmente acessível para qualquer
um que nunca ouviu o Evangelho através da revelação geral de Deus na
natureza e na consciência. Assim o problema colocado pela diversidade
religiosa não pode ser simplesmente que Deus não condenaria pessoas que
estão desinformadas ou mal informadas sobre Jesus.
Pelo contrário,
parece-me que o problema verdadeiro é esse: se Deus é onisciente, então
Ele sabia quem aceitaria livremente o Evangelho e quem o rejeitaria.
Mas, então, certamente questões muito difíceis emergem:
(i) Por que
Deus não trouxe o Evangelho às pessoas que Ele sabia que iriam aceitar
se ouvissem, mesmo tendo essas mesmas pessoas rejeitado a luz de
revelação geral que elas tiveram?
Para ilustrar: imagine um índio
norte americano antes da chegada de missionários cristãos. Vamos
chamá-lo de Walking Bear. Vamos considerar que à medida que Walking Bear
olha para o céu à noite e vê a beleza da natureza, ele sente que tudo
isso foi criado por um Grande Espírito. Além disso, Walking Bear olha
para seu próprio coração e sente a lei moral, dizendo a ele que todos os
homens são irmãos feitos pelo Grande Espírito. Ele então percebe que
nós deveríamos amar uns aos outros. Mas suponhamos que, em lugar de
adorar o Grande Espírito e amar seus companheiros, Walking Bear ignora o
Grande Espírito e cria totens de outros espíritos. Ao invés de amar
seus companheiros, ele vive de forma egoísta e cruel. Em tal caso,
Walking Bear seria justamente condenado diante de Deus, com base em sua
falha em responder à revelação geral de Deus na consciência e natureza.
Mas suponhamos agora que, tivessem os missionários chegado, Walking Bear
teria acreditado no Evangelho e sido salvo! Neste caso, sua salvação ou
condenação parecem ser o resultado de um azar. Não por sua culpa, ele
apenas nasceu em uma época e lugar da história onde o Evangelho não
estava disponível. Sua condenação é justa, mas um Deus de amor permitira
que o destino eterno das pessoas dependesse de acidentes geográficos e
históricos?
(ii) Mais que isso, por que Deus criou o mundo, quando
Ele sabia que tantas pessoas não acreditariam no Evangelho e se
perderiam?
(iii) Sendo ainda mais radical, por que Deus não criou um mundo no qual todos livremente cressem no Evangelho e fossem salvos?
O que o cristão particularista deveria responder a estas questões? O cristianismo torna Deus cruel e desamoroso?
O problema analisado
A
fim de responder a estas questões será necessário examinar mais de
perto a estrutura lógica problema em tela. O pluralista parece afirmar
que é impossível para Deus ser onipotente e amoroso,
sendo que
algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e estão perdidas, ou seja, as
seguintes sentenças são logicamente inconsistentes.
1. Deus é onipotente e amoroso.
2. Algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e estão perdidas.
Porém,
precisamos nos perguntar, por que pensar que (1) e (2) são logicamente
incompatíveis? Afinal de contas, não há contradição explícita entre
elas. Todavia, se o pluralista afirma que (1) e (2) são implicitamente
contraditórias, ele deve estar assumindo algumas premissas que serviriam
para explicitar esta contradição. A questão é, quais são essas
premissas ocultas?
3. Se Deus é onipotente, Ele pode criar um mundo no qual todos ouvem o Evangelho e são livremente salvos.
4. Se Deus é amoroso, Ele prefere um mundo no qual todos ouvem o Evangelho e são livremente salvos.
Desde
que, conforme (1), Deus é tanto onipotente como amoroso, segue que Ele
tanto pode criar um mundo de salvação universal, como prefere tal mundo.
Portanto, tal mundo existe, o que contradiz (2).
Condiremos (3). É
provavelmente incontroverso que Deus poderia criar um mundo no qual
todos ouvissem o Evangelho. Mas, desde que as pessoas sejam livres, não
há garantias que todos em tal mundo seriam salvos. De fato, não há razão
para pensar que o equilíbrio entre salvos e perdidos em tal mundo seria
de alguma forma melhor que a situação no mundo em que vivemos! É
possível que em qualquer mundo de pessoas com livre arbítrio que poderia
ser criado por Deus algumas pessoas rejeitassem livremente a salvação
pela graça e fossem condenadas. Logo, (3) não é necessariamente
verdadeira, de modo que o argumento pluralista é falacioso.
Mas, e
quanto a (4)? É necessariamente verdadeira? Suponhamos, em favor do
argumento, que são viáveis para Deus mundos nos quais cada pessoa ouve o
Evangelho e o aceita livremente. O fato de Deus ser amoroso O compele a
preferir um destes mundos a um mundo no qual algumas pessoas não são
salvas? Não necessariamente; porque mundos envolvendo salvação universal
talvez tenham outras deficiências mais sérias que os tornam menos
preferíveis. Por exemplo, suponhamos que os únicos mundos nos quais
todos acreditam livremente no Evangelho e são salvos são mundos com
apenas algumas pessoas – digamos, três ou quatro. Se Deus fosse criar
alguma pessoa a mais, então, pelo menos uma delas teria livremente
rejeitado Sua graça e estaria perdida. Deus deve preferir um desses
mundos esparsamente povoados ao invés de um mundo no qual multidões
acreditam no Evangelho e são salvas, ainda que isto implique que outras
pessoas livremente rejeitem a graça e sejam condenadas? Isto está longe
de ser óbvio. Desde que Deus dê graça suficiente para todas as pessoas
que Ele criou, Ele não parece menos amoroso por preferir um mundo mais
populoso, mesmo que isto implique que algumas pessoas resistam
livremente a todo Seu esforço para salvá-las e sejam condenadas. Assim, a
segunda hipótese pluralista também não é necessariamente verdadeira, de
modo que o argumento é duplamente falacioso.
Então, nenhuma das
suposições pluralistas parece ser necessariamente verdadeira. A menos
que o pluralista possa sugerir outras premissas, não temos razão para
pensar que (1) e (2) são logicamente incompatíveis.
Mas podemos levar
o argumento adiante. Podemos mostrar positivamente que é inteiramente
possível que Deus seja onipotente e amoroso e que diversas pessoas nunca
ouçam o Evangelho e se percam. Tudo que precisamos fazer é encontrar
uma sentença verdadeira que seja compatível com Deus sendo onipotente e
amoroso e que compreenda ―algumas pessoas nunca ouviram o Evangelho e
estão condenadas‖. Tal sentença pode ser formulada? Vamos ver.
Como
um Deus bom e amoroso, Ele quer que o máximo de pessoas possível sejam
salvas e o menor número se perca. Seu objetivo, pois, é atingir um
equilíbrio ótimo, de modo a não criar mais perdidos que o necessário
para alcançar um certo número de salvos. É possível que o mundo em que
vivemos (que inclui o futuro, o presente e o passado) tenha tal
equilíbrio. É possível que para criar a quantidade de pessoas que serão
salvas, Deus também tenha criado uma quantidade de pessoas que estarão
perdidas. É possível que Deus tivesse criado um mundo no qual poucas
pessoas fossem para o inferno, mas onde poucas pessoas teriam ido para o
céu. É possível que, a fim de alcançar uma multidão de santos, Deus
tenha aceitado uma multidão de pecadores.
Pode ser objetado que um
Deus amoroso não criaria pessoas que Ele sabia que estariam perdidas,
mas que teriam sido salvas se elas tivessem ouvido o Evangelho. Mas como
sabemos que existem tais pessoas? É razoável presumir que muitas
pessoas que nunca ouviram o Evangelho não teriam acreditado no
Evangelho, mesmo se tivessem ouvido. Suponhamos, então, que Deus
providencialmente organizou o mundo de modo que todas as pessoas que
nunca ouviram o Evangelho são precisamente estas pessoas. Neste caso,
qualquer pessoa que nunca ouça e seja condenada, teria rejeitado o
Evangelho e se perdido mesmo se o ouvisse. Ninguém poderia reclamar
perante Deus no Dia do Julgamento ―tudo bem, Deus, não respondi à sua
revelação geral na natureza e consciência! Mas se tivesse ouvido o
Evangelho, teria acreditado!‖ Ao que Deus responderia ―não; eu sabia que
mesmo se você tivesse ouvido o Evangelho, você não teria acreditado.
Assim sendo, meu julgamento sobre você com base na natureza e na
consciência não é nem injusto nem desamoroso.‖
Então, é possível que:
5.
Deus criou um mundo no qual há um equilíbrio ótimo entre salvos e
perdidos e aqueles que nunca ouviram o Evangelho e estão perdidos não
teriam acreditado, mesmo se tivessem ouvido.
Desde que (5) seja
possivelmente verdadeira, temos que não há incompatibilidade entre um
Deus onipotente e amoroso e o fato de algumas pessoas nunca ouvirem o
Evangelho e estarem condenadas.
Como base nisto, estamos preparados
para oferecer possíveis respostas às três questões que levaram a esta
investigação. Responderemos na ordem inversa:
(i) Por que Deus não criou um mundo no qual todos livremente cressem no Evangelho e fossem
salvos?
Resposta:
Talvez não seja viável para Deus criar tal mundo. Se tal mundo fosse
viável, Deus o teria criado. Mas, dado Seu desejo em criar criaturas
livres, Deus teve que aceitar que algumas livremente rejeitassem a Ele e
a todo Seu esforço para salvá-las e se perdessem.
(ii) Por que Deus criou o mundo, quando Ele sabia que tantas pessoas não acreditariam no Evangelho e se perderiam?
Resposta:
Deus queria dividir Seu amor e companhia com as pessoas criadas. Ele
sabia que isto significaria que muitos O rejeitariam e estariam
perdidas. Mas Ele também sabia que muitos outros receberiam livremente
Sua graça e seriam salvos. A felicidade e bem-aventurança daqueles que
aceitassem Seu amor não poderia ser excluída por aqueles que livremente O
desprezam. Pessoas que livremente rejeitam a Deus e ao Seu amor não
seriam permitidas, de fato, a sustentar um poder de veto sobre um mundo
que Deus pode livremente criar. Em Sua misericórdia, Deus
providencialmente organizou um mundo para atingir um equilíbrio ótimo
entre salvos e perdidos, maximizando o número daqueles que O aceitam
livremente e minimizando o número daqueles que não.
(iii) Por que
Deus não trouxe o Evangelho às pessoas que Ele sabia que iriam aceitar
se ouvissem, mesmo tendo essas mesmas pessoas rejeitado a luz de
revelação geral que elas tiveram?
Resposta: Não existem tais pessoas.
Deus em Sua providência organizou o mundo de tal forma que quem
responde ao Evangelho se o ouve, o ouve. O Deus soberano construiu a
história humana de modo que o Evangelho se espalhasse a partir da
Palestina no primeiro século. Ele colocou pessoas no caminho de quem
acreditaria se ouvisse. Uma vez que o Evangelho alcança um povo, Deus
providencialmente coloca ali pessoas que Ele sabia que responderiam ao
ouvir. Em Seu amor e misericórdia, Deus assegura que ninguém que creria
no Evangelho se ouvisse é nascido em um tempo e lugar na história em que
não o fosse ouvir. Aqueles que não respondem à revelação geral de Deus
na natureza e na consciência e nunca ouviram o Evangelho, não
responderiam a ele mesmo se o ouvisse. Portanto, ninguém se perde por
causa de fatores históricos ou geográficos. Qualquer que deseja ser
salvo é salvo.
Essas são apenas respostas possíveis às questões
colocadas. Mas, desde que elas são possíveis, não há incompatibilidade
entre Deus ser onipotente e amoroso e algumas pessoas não ouvirem o
Evangelho e estarem perdidas. Além disso, essas respostas são atraentes
por também terem aparente respaldo bíblico. Em seu discurso aos
filósofos atenienses reunidos no Areópago, Paulo declarou:
―O Deus
que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da
terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas. Nem é servido
por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é
quem a todos dá vida, respiração e tudo mais; de um só fez toda a raça
humana para habitar sobre toda a face da terra, havendo fixado os tempos
previamente estabelecidos e os limites da sua habitação; para buscarem a
Deus se, porventura, tateando, o possam achar, bem que não está longe
de cada um de nós; pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos‖ (Atos
17.24-27)
Isto parece exatamente com as conclusões a que cheguei a partir de uma reflexão puramente
filosófica da questão!
Agora
o pluralista pode conceder que haja compatibilidade lógica entre Deus
ser onipotente e amoroso e algumas pessoas nunca ouvirem o Evangelho e
estarem perdidas, mas insiste que estes dois fatos são, contudo,
improváveis com relação um ao outro. Pessoas, no geral, parecem
acreditar na religião da cultura na qual cresceram. Neste caso, o
pluralista talvez argumente, é altamente provável que se muitos daqueles
que nunca ouviram o Evangelho tivessem sido criados em uma cultura
cristã, poderiam ter acreditado no Evangelho e sido salvos. Então, a
hipótese que nós oferecemos é altamente improvável.
De fato seria
fantasticamente improvável que em virtude apenas de casualidade todos
aqueles que nunca ouviram o Evangelho e se perderam não acreditariam no
evangelho mesmo se tivessem ouvido. Mas a hipótese não é essa. A
hipótese é que um Deus providente é quem organizou o mundo. Dado um Deus
dotado de conhecimento acerca de como cada pessoa iria livremente
reagir a Sua graça em quaisquer circunstâncias, não é implausível que
Deus tenha ordenado o mundo da maneira acima descrita. Tal mundo não
teria, aparentemente, qualquer diferença de um mundo no qual as
circunstâncias do nascimento de uma pessoa são casuais. O particularista
pode concordar que pessoas geralmente adotam a religião de suas
culturas e que se muitas das pessoas nascidas em culturas não-cristãs
tivessem nascido em uma sociedade cristã, teriam se tornado nominalmente
ou culturalmente cristãs. Mas isto não quer dizer que elas seriam
salvas. É um simples fato empírico que não existem traçõs sociológicos
ou psicológicos distintivos entre pessoas que se tornam cristãos e
pessoas que não se tornam. Não há como predizer acuradamente, através de
exames, em quais circunstâncias uma pessoa acreditaria em Cristo para
se salvar. Desde que um mundo providencialmente ordenado por Deus
pareceria exteriormente idêntico a um mundo no qual o nascimento é
decorrente de acidentes histórico-geográficos, é difícil perceber como a
hipótese que tenho defendido pode ser considerada como improvável sem
uma demonstração de que a existência de um Deus dotado de conhecimento
para tanto seja implausível. Não conheço tão persuasivas objeções.
A
título de conclusão, portanto, pluralistas não tem se mostrado capazes
de mostrar qualquer inconsistência lógica no particularismo cristão.
Pelo contrário, conseguimos demonstrar que esta posição é logicamente
coerente. Mais que isto, penso que tal visão é não apenas possível, mas
plausível. Por conseqüência, a diversidade religiosa da humanidade não
solapa o Evangelho cristão de que somente há salvação através de Cristo.
De
fato, para aqueles de nós que são cristãos, penso que o que disse ajuda
a colocar as missões cristãs em uma perspectiva adequada: é nosso dever
como cristãos proclamar o Evangelho ao mundo todo, confiando que Deus
ordenou providencialmente as coisas, para que, através de nós, as Boas
Novas cheguem até as pessoas que Deus sabe que irão aceitá-las se
ouvirem. Nossa compaixão para com as outras religiões do mundo é
expressa, não fingindo que eles não estão perdidos sem Cristo, mas
apoiando e nos esforçando para comunicar a eles a mensagem de vida de
Cristo.
E para aqueles de nós que ainda não são Cristãos: você
precisa se perguntar ―estou aqui meramente por acidente? É apenas pelo
acaso que ouvi essa mensagem? Não há propósito ou razão para eu estar
aqui? Ou poderia ser que Deus em Sua providência me atraiu para que eu
livremente ouça as
Boas Novas do amor e da misericórdia de Deus, que
se chegam até mim através de Cristo? Então, como vou responder? Ele me
deu uma oportunidade. Irei me valer dela ou, novamente, virar minhas
costas para Ele?‖ A decisão é com você.
Notas do tradutor
i Texto
traduzido sem fins comerciais ou acadêmicos. O texto original How can
Christ be the only Way to God pode ser acessado gratuitamente em
http://www.reasonablefaith.org.
ii Todas as passagens bíblicas foram
traduzidas para o português a partir da versão Almeida Revista e
Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil.
iii A argumentação que se
segue poderia ser simplificada se o autor utilizasse o real conceito de
Pecado. Considerando-se Pecado como atitude de independência em relação a
Deus inerente a todo ser humano, tem-se imediatamente uma transgressão
com efeitos eternos. Há que se ressaltar, aquilo que se considera
usualmente como pecados, é, neste sentido, apenas resultado da atitude
do homem de agir segundo sua corrompida visão de bem e de mal.
TRADUÇÃO - Leandro Diniz Pereira