quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Milo Yiannopoulos : uma entrevista não-publicada

Milo Yiannopoulos : uma entrevista não-publicada

Por Milo Yiannopoulos [*].
Há mais de cinco semanas, eu enviei as respostas abaixo às perguntas feitas a mim pela revista America Magazine, editada por Jesuítas. Eles decidiram não publicá-las, talvez por compaixão, temendo que muitos dos seus leitores de idade sofressem um ataque cardíaco. Ou talvez eles não puderam suportar meu puxão de orelhas no seu mais famoso colaborador, Pe. James Martin, notório por lançar equívocos sobre qualquer ensinamento da Igreja que possa causar um rebuliço em uma festa de jardim anglicana.
Divertidamente, enquanto os Jesuítas se debatem para decidir se eles suportariam publicar minhas respostas, um dos Cardeais mais elevados da Igreja chamou nominalmente o Pe. Martin de “um dos críticos mais abertos da mensagem da Igreja acerca da sexualidade”. Isto quer dizer que o meu lado da disputa goza do apoio de um príncipe negro da Igreja, criado em um continente onde o martírio é comum, ao passo que o representante do outro lado é um homem branco burguês cuja pior ameaça à vida é o vinho estar um pouco fora da validade.
Pergunte a si mesmo: a qual desses dois homens você confiaria sua vida?
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Embora você tenha crescido como católico, você agora diz e faz muitas coisas chocantes em sua carreira pública que parecem ir de encontro com a fé de sua infância. Em que sentido você ainda se considera católico?
Muitos santos foram chocantes, para não dizer nada de Nosso Senhor, que teve muitos problemas por suas afirmações chocantes, como você deve saber. Eu certamente não sou nenhum santo, mas eu não acho que “chocante” seja a maneira adequada de abordar a questão dos católicos na vida pública. Não adianta muito dizer que o Papa atual é chocante para muitos católicos, incluindo a mim. Ou notar que eu estou chocado com políticos supostamente católicos que fazem leis em total contradição com a lei natural, cuja compreensão não requer fé alguma.
Em meu caso, você quer dizer que é chocante que um católico como eu esteja extremamente preocupado com o Islamismo, que guerreia contra a Santa Igreja Católica há mais de um milênio?
Ou que eu diga que a crusada abortista promovida pela Planned Parenthood resulta no genocídio de negros?
Ou que eu venho apoiando tão fortemente a critica à contracepção artificial feita pelo Papa Paulo VI que Hillary Clinton me atacou em razão disso em sua campanha presidencial?
Francamente, o que realmente choca é que um pobre pecador como eu tenha criticado mais os métodos contraceptivos do que 99% dos nossos bispos, que parecem preocupados demais com diversidade e aquecimento global para falar de Deus.
Talvez você queira dizer que é chocante eu estar sempre fazendo piadas com a minha falta de castidade e meu gosto por caras negros, mas eu ainda me considere católico. E eu não vejo o que pode haver de tão chocante nisso. Um dos santos mais famosos de todos os tempos, há dezesseis séculos atrás, rezou: “Senhor, dai-me castidade e continência, mas hoje não”.
Qualquer um que cresça em cidades católicas como Nova Orleans e Roma chega à idade adulta bastante inabalável, e certamente não ficará alarmado comigo.
Eu acho que foi uma visita a Nova Orleans que inspirou Evelyn Waugh a fazer uma observação que eu costumo citar: “protestantes parecem pensar ‘eu sou bom, logo vou à igreja’, enquanto católicos pensam ‘eu sou muito mau, logo vou à igreja’”. Waugh tambem disse, quando perguntaram à ele como ele poderia chamar a si mesmo de católico: “vocês não tem idéia do quão mau eu seria se eu não fosse”.
Pecados da carne, lembremos, estão no fundo da escala [de gravidade]. A Igreja diz que a soberba está no topo. Portanto, eu estou em uma situação bem melhor que alguns dos meus inimigos no feminismo e no establishment Republicano. Para não dizer nada do Islamismo!
Na vida, eu acredito em aspirações. Se você for uma criança pobre, aspire à riqueza. Se você for tímido, aspire à auto-confiança para que você defenda suas visões em público. E se você for um pecador miserável como eu, aspire a terminar melhor do que você está agora. Milagres acontecem!
Em que aspectos da sua vida você experimenta tensões com o Catolicismo?
Quem disse que os católicos devem carecer de tensões alimentadas por suas fraquezas? Nós católicos somos melhores em vestuário, culinária e festas. Por que não também em relação à culpa?
Você não me vê contestar os ensinamentos da Igreja sobre homossexualismo. Não há tensão intelectual, porque eu nem sonharia em exigir que a Igreja jogue fora suas duras verdades apenas para mentir para mim esperando que eu me sinta melhor comigo mesmo. Eu amo a verdade e não mentiras, e eu sei que os sentimentos de ninguém são a base da verdade. É por isso que eu não entendo esses católicos – tais como, perdoe minha impertinência horrenda, o editor desta revista, Pe. Martin – que insinuam que se as pessoas não gostam do que a Igreja diz talvez Ela esteja errada e deva se desculpar. A Igreja foi fundada com uma rocha e uma cruz, não com um abraço.
Ainda assim, se você insiste que eu fale sobre sentimentos, eu já disse anteriormente que eu sinto que há algo de errado com o fato de que o meu jeito de fazer amor não produza os mini Milos que eu gostaria de ter. Que tal essa confirmação subjetiva do ensinamento da Igreja de que atração entre sexos iguais é “objetivamente desordenada” porque não resulta em procriação?
Moral da história: A Igreja diz que eu não sou culpado pelas minhas tentações, mas que eu não devo pecar. Ela está certa. E seu Fundador disse que Ele veio curar aqueles que estavam enfermos, então eu não me desespero.
Qual foi a melhor parte da sua educação católica?
Uma coisa boa foi ver Maria ser louvada por sua maternidade. Quaisquer que tenham sido os defeitos da minha própria mãe, eu aprendi que a maternidade é a maior das vocações, da qual Deus excluiu todos os homens. É por isso que eu acho triste que as feministas de hoje, como Cherteston observou, desprezem a maternidade e todas as outras características essencialmente femininas. A idéia de que homens e mulheres não deveriam ser diferentes – não deveriam ter diferentes interesses, forças e maneiras de se relacionar com a Criação – é insana, e é um fato empírico que tentar negar essas diferenças nos torna a todos infelizes.
Crescer como católico tambem me ensinou o valor da humildade, mesmo esse não sendo exatamente um dos meus pontos fortes. Esta virtude é importante para a sociedade porque nos ensina a ser tolerantes à diversidade de opiniões em vez de tentar de forma arrogante silenciar as pessoas das quais discordamos. E é importante para mim pessoalmente porque, apesar da minha vaidade, eu sei que não sou tão esperto quanto Tomás de Aquino ou bondoso quanto São Francisco.
Há uma ótima frase da romancista Flannery O’Connor, que também gostava de chocar e trolar um pouco: “eu não estou limitada ao que eu sinto ou acho pessoalmente, [pois] eu sou católica”. Ela quis dizer a mesma coisa que Chesterton em sua famosa tirada: “tradição é a democracia dos mortos”. O politicamente correto nos dá um prato de lentilhas e solidão. A Igreja nos dá um grande banquete com carne vermelha e vinho tinto.
Qual foi a pior parte da sua educação católica?
Padre Michael não dava sexo oral tão bom quanto recebia.
Como você reza?                                             
De joelhos.
Quais são as suas referências, sejam vivas ou mortas, na fé católica?
O Papa Bento XVI ainda é o homem mais sábio e erudito da Europa, apesar de eu ter certeza de que ele não merece alguém como eu agarrado ao seu pescoço, como admirador. Ele também foi corajoso o bastante  para declarar publicamente que a irracionalidade do Islamismo é um dos maiores problemas mundiais.
À propósito, nesse mesmo sermão em Regensburg ele apontou que os secularistas no Ocidente também são perigosamente desequilibrados, porque são tão hostis à religião quanto os muçulmanos são à racionalidade. Eu noto que ele credita aos meus ancestrais pagãos na Grécia as profundas raízes racionais do Ocidente.
Meu mote pessoal, “risadas e guerra”, vem de uma passagem de “Hereges”, de Chesterton. Ele deveria ser o santo padroeiro dos jornalistas católicos. E, claro, Hillaire Belloc foi brilhante como defensor do Ocidente. Nos anos 1930, quando o Califado havia implodido e ninguém imaginava que o Islamismo voltaria, ele profetizou que o Ocidente estaria novamente ameaçado, pois nossa economia e tecnologia superiores não podem tomar o lugar da devoção na civilização.
Eu já citei Santo Agostinho, que tinha os seus próprios “problemas pélvicos”. Uma vez eu tuitei uma página ilustrada das suas “Confissões” que começava: “eu agora recordarei minha imundície passada”. Isso vai funcionar para as minhas memórias um dia, também.
Rabelais e os trolls anônimos que escreveram “Carmina Burana” são espíritos assemelhados.
A ensaísta Florence King não era Romana, mas conquistou um título ao qual eu aspiro. Um revisor de livros do New York Times disse dela: “a mente de um jesuíta com a boca de um caminhoneiro”.
Qual a sua passagem bíblica favorita e por quê?
Estou tentado a escolher como Waugh a frase do Eclesiastes: “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”.
Você recentemente auto publicou o novo livro “Dangerous” após o Breitbart demití-lo e o seu editor original rescindir o contrato. Como você responde aos críticos que dizem que você é “odioso” e “ofensivo” aos outros?
A verdade frequentemente dói, conforme a Igreja sempre entendeu. Essa é uma razão pela qual ela tanto nos mostra um Homem agonizando em uma cruz. Eu não me deleito no sofrimento alheio, mas eu não sou intimidado ao silêncio por medo de que alguém em algum lugar vai se ofender.
O fato de que muitos de nós acham que ferir os sentimentos das pessoas é o maior dos males diz tudo o que você precisa saber sobre o declínio da nossa civilização. Se eu estou errado em algo, não choramingue. Mostre-me evidências e crie argumentos racionais.
Ou conte uma boa piada! Grande parte do que eu faço é bancar o bobo da corte, dizendo aos poderosos as verdades que eles não querem ouvir. Talvez seja isso o que você queira dizer sobre o meu aspecto “chocante”. Um amigo que é um brilhante medievalista na Universidade de Chicago (e que foi batizado na Igreja esta Páscoa, Deo gratias), gosta de me envergonhar escrevendo que eu sou um santo bobo.
Eu digo envergonhar, mas é claro que é um grande elogio e eu fico feliz de receber qualquer tipo de atenção.
À propósito, eu não fui demititdo.
No livro você menciona que cometeu um erro na transmissão que causou sua demissão. Refletindo sobre a sua carreira pública até hoje, o que você faria diferente se você pudesse recomeçar?
Eu não mudaria nada.
Em 2011 e 2012, você ganhou destaque na Wired UK como uma das 100 pessoas mais influentes da economia digital britânica no ano, e o Observer uma vez chamou você de “o pitbull da mídia de tecnologia”. Como a mídia de tecnologia está mudando a maneira como fazemos jornalismo hoje?
Eu culpo os blogueiros de tecnologia pela proliferação do “jornalismo de processo”, que significa escrever o que quer que pareça verdade no momento e consertar depois. É claro, eles nunca se importam [de consertar]. O jornalismo de tecnologia hoje tem padrões profissionais mais baixos que um bordel de Detroit, razão pela qual eu preferi ir embora para ficar famoso e viver disto.
Você foi um dos primeiros jornalistas de tecnologia a cobrir a polêmica do Gamergate, criticando o que você viu como a politização da cultura gamer por “um exército de programadoras e ativistas sociopatas, instigadas por blogueiros de tecnologia americanos irritantes e politicamente corretos”. Como você responde aos críticos que dizem que você está apoiando a tendência dos video games a denegrir as mulheres?
Assim como não havia nos anos 1990 evidências de que rock, heavy metal e video games causavam violência, não há hoje evidências de que os video games tornam você machista. Isso é a política disfarçada de pesquisa acadêmica bem intencionada. Felizmente nós vencemos e as feministas nocivas estão na defensiva em relação aos jogos.
O que significa masculinidade para você?
Significa a disposição de se expor ao fogo do inimigo, vestindo ou não um uniforme, em defesa do bem – sua família, sua igreja, sua pátria, sua civilização. Os homens de uniforme são muito melhores que eu, mas até eu posso fazer algo para defender essas coisas com os dons que Deus me deu.
Nosso Senhor, como sempre, mostrou o caminho: Ele suportou os horrores da Paixão para defender e redimir o mundo inteiro. Eu estou com Rod Dreher: quem quer que pregue um Deus piegas, e não o Deus muitíssimo masculino das Escrituras, está deixando os homens jovens vulneráveis aos falsos deuses monstruosos da raça e ideologia.
Garotos esforçando-se para se tornarem homens sempre são bárbaros em potencial, porque eles tem fome de masculinidade mas não sabem ao certo onde encontrá-la ou como expressá-la de forma produtiva. Nosso Senhor revelou-a a eles, mas muitos na Igreja mantém a masculidade escondida ou a tornam motivo de vergonha.
Sendo um gay católico, você debateu uniões civis entre pessoas do mesmo sexo em programas de televisão, surpreendendo algumas pessoas com a sua perspectiva. Resumidamente, qual a sua crença sobre essa questão e por quê?
Primeiramente, eu estou com Sto Tomás de Aquino: as leis civis não podem proibir tudo o que a Igreja proíbe, porque o utopismo causa mais danos do que benefícios, dado quão fraca a maioria de nós é.
Eu fui por bastante tempo desdenhoso do casamento gay, mas aí eu me apaixonei e agora eu não sei o que pensar.
Eu devo acrescentar que, assim como a Igreja não insiste que a sociedade civil siga todos os seus pontos de vista sobre conduta apropriada, a sociedade civil também deve respeitar a Primeira Emenda e não importunar os crentes para que aceitem qualquer coisa que os políticos tenham decretado. Fico enojado quando ativistas gays assediam em praça pública, e mais ainda nos tribunais, aqueles simples crentes que não agridem ninguém quando fazem pizzas ou coisa parecida.
Em 2008 a BBC contou com você na cobertura da visita histórica do Papa Bento XVI ao Reino Unido. Da sua perspectiva, qual foi a coisa mais significativa em sua visita?
Algo muito importante foi ele visitar o Oratório de John Henry Newman e avançar com a sua canonização. Isso é ótimo, dado que o inimigo de Newman era o liberalismo religioso. Ele não era, como brincava George Weigel, um crente em um mundo “do jeito que você quiser”.
O Vaticano criou uma comissão para examinar e rever completamente a estratégia de mídia da Santa Sé. Se você pudesse dar algum conselho ao Papa Francisco sobre como fazer jornalismo hoje, qual seria?
Pare de falar.
Alguma consideração final?
Orem por mim. Eu estou precisando.

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